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MP: Presidente da Eletronuclear foi alvo de indicações de grupo de Temer

Leonam Guimarães foi militar da Marinha antes de assumir a presidência da Eletronuclear - Reprodução/Youtube
Leonam Guimarães foi militar da Marinha antes de assumir a presidência da Eletronuclear Imagem: Reprodução/Youtube

Leandro Prazeres*

Do UOL, em Brasília

30/03/2019 04h00

A Força-Tarefa da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro encontrou uma troca de emails mostrando que o atual presidente da Eletronuclear, o capitão de mar-e-guerra da Marinha Leonam Guimarães, foi indicado pela quadrilha supostamente liderada por Michel Temer (MDB).

O ex-presidente é apontado pela Operação Lava Jato como líder de um esquema montado para desviar recursos da Eletronuclear. Ontem, ele foi alvo de duas denúncias relativas ao caso apresentadas pelo MPF-RJ (Ministério Público Federal do Rio de Janeiro).

De acordo com os e-mails, a indicação de Leonam foi encaminhada ao coronel João Baptista Lima Filho, o coronel Lima, apontado como principal operador de Temer e também denunciado ontem.

Ao UOL, Leonam afirmou que não sabia que seu nome havia sido indicado ao suposto operador de Temer.

Pedido ao "Limoeiro" para indicação

Entre os documentos colhidos pela Força-Tarefa estavam três e-mails trocados em 2011 pelo então presidente da estatal, Othon Luiz Pinheiro, o empresário Carlos Gallo e o coronel Lima. Gallo é apontado pelos investigadores como um dos membros do grupo liderado pelo ex-presidente.

Em 6 de fevereiro de 2011, o então presidente da estatal manda um e-mail a Gallo pedindo que o nome de Leonam seja encaminhado ao "Limoeiro". Para os procuradores, "Limoeiro" é o codinome do coronel Lima.

"Peço fazer chegar o currículo anexo as [sic] mãos do Limoeiro com a maior brevidade. Cargo desejado Diretor de Operações da ELETRONUCLEAR. Muito importante", diz o e-mail enviado por Othon.

No dia seguinte, Gallo responde. "Prezado Othon. Será encaminhado em seguida", diz o e-mail.

O primeiro pedido de Othon, porém, não surte efeito.

Nova tentativa

Em julho de 2014, já após a deflagração da Operação Lava Jato, Othon procura o coronel Lima diretamente. Em 19 de julho daquele ano, segundo a Força-Tarefa, ele envia um e-mail com uma nova cópia do currículo de Leonam.

Naquele ano, Leonam assumiu o cargo de diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da estatal.

Para os procuradores da Lava Jato, os e-mails mostram que Othon precisava pedir autorização de Temer para indicar cargos de direção.

"A única maneira lógica de entender tal e-mail é que o então presidente da Eletronuclear, Othon Silva, está pedindo a dois integrantes da organização criminosa, Gallo e Coronel Lima, que façam chegar ao líder da organização criminosa, Michel Temer, um nome indicado para uma das diretorias", diz um documento assinado pela Força-Tarefa.

Em outubro de 2017, Leonam Guimarães assumiu a presidência da Eletronuclear.

Leonam não é apontado como suspeito pela Força-Tarefa. Ele também não foi denunciado pelos procuradores. Apesar disso, sua permanência no comando da empresa é apontada pelos procuradores como um "exemplo concreto de continuidade de exercício do poder de influência dos denunciados".

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Como funcionava o esquema

Segundo a Força-Tarefa da Lava Jato no Rio, Temer liderava um esquema que desviava recursos da Eletronuclear, responsável pela usina nuclear de Angra 3.

Os investigadores denunciaram o grupo por ter desviado parte dos valores de um contrato da estatal com um consórcio de empresas responsável por obras na usina.

A empresa Argleplan, segundo a denúncia, foi incluída no consórcio vencedor mesmo sem ter condições técnicas para executar as obras.

A inclusão da empresa teria tido a anuência de Othon Luiz Pinheiro, que já foi condenado a 43 anos de prisão por desvios na estatal.

Leonam nega vínculo

A reportagem do UOL encaminhou cinco perguntas a Leonam Guimarães sobre o assunto. Elas foram respondidas por escrito:

1 - O senhor Leonam sabia que Othon havia solicitado a sua indicação para cargo de direção ao empresário Carlos Gallo?

NÃO. Ele havia sondado sobre minha disposição em assumir a Diretoria de Operação da Eletronuclear, fato que não ocorreu.

2 - O senhor Leonam conhecia Carlos Gallo?

NÃO

3 - O senhor Leonam sabia que sua indicação deveria ser repassada ao senhor João Baptista Lima Filho?

NÃO

4 - O senhor Leonam conhece o o senhor João Baptista Lima Filho?

O conheci em 2014, em reunião na qual participaram também o ex-Presidente da Eletronuclear e o ex-Presidente da República. Nessa reunião fiz uma exposição, a pedido do ex-Presidente da Eletronuclear, sobre o potencial de participação do Brasil no mercado internacional de combustível nuclear

5 - Quais os cargos que foram ocupados pelo senhor Leonam entre 2005 e 2018 na Eletronuclear.

2005-2013: Assistente Técnico da Presidência da Eletronuclear
2013-2014: Diretor Técnico-Comercial da Amazul Tecnologias de Defesa S.A.
2014-2017: Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletronuclear
2017-2018: Diretor Técnico da Eletronuclear
2018-hoje: Diretor Presidente da Eletronuclear.

A defesa de Temer criticou as denúncias. "Elas não têm nenhum fundamento sério, e insistem em versões fantasiosas, como a de que Temer teria ingerência nos negócios realizados por empresa que nunca lhe pertenceu", disse a o advogado Eduardo Carnelós.

As defesas de Carlos Gallo e Othon Luiz Pinheiro foram contatadas, mas até a última atualização desta matéria, não deu retorno.

*Colaborou Bernardo Barbosa, do UOL, em São Paulo

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