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Em áudio, Deltan diz que juíza se comprometeu a sentenciar caso de Lula

Jamil Chade e Nathan Lopes

Colunista do UOL, em Genebra (Suíça), e do UOL, em São Paulo

04/03/2021 11h50Atualizada em 05/03/2021 07h47

Então coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, o procurador Deltan Dallagnol falou em um áudio enviado a colegas sobre uma conversa que manteve com a juíza Gabriela Hardt a respeito do processo do sítio de Atibaia (SP), em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era réu. Hardt havia assumido a ação após a saída de Sergio Moro.

No áudio (ouça acima), Deltan conta que encontrou Hardt, perguntou sobre o processo do ex-presidente e ouviu como resposta que o caso seria sentenciado, o que de fato ocorreu menos de um mês depois. Especialistas ouvidos pelo UOL divergem na avaliação sobre se essa relação entre juízes e magistrados seria ilegal ou antiética.

Para a defesa de Lula, as mensagens mostram que "os procuradores queriam a qualquer custo impor nova condenação" a Lula. "E a pressão foi atendida com a sentença."

Os defensores dizem ainda que os procuradores do MPF (Ministério Público Federal) temiam uma mudança no andamento dos processos da Lava Jato assim que fosse definido o novo titular da 13ª Vara Federal de Curitiba —o cargo de Hardt é de substituta do titular da Vara. Moro deixou sua posição em novembro de 2018 para entrar na política e ser ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

Os diálogos, apresentados hoje pela defesa de Lula ao STF (Supremo Tribunal Federal), foram extraídos de mensagens obtidas por meio de um ataque hacker, alvo da Operação Spoofing.

Esse não é o primeiro áudio divulgado. Em 2019, o The Intercept apresentou conversas em voz. Em outubro de 2020, por exemplo, o site revelou que procuradores da Lava Jato discutiram sobre a sucessão de Moro.

"Poderia sentenciar, né"

Em 9 janeiro de 2019, o procurador regional Antônio Carlos Welter comentou que havia encontrado o então presidente do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), desembargador Carlos Eduardo Thompson Flores.

Na ocasião, Flores disse que não sabia quem poderia ser o substituto de Moro, mas que torcia por ser "alguém com 'perfil' adequado". "Mas como é antiguidade que vai definir, ele não pode fazer nada", escreveu Welter em grupo no Telegram.

Na sequência, o procurador Paulo Galvão disse que "ela [Hardt] poderia sentenciar o sítio, né". A procuradora Jerusa Viecili respondeu, informando que a juíza "iria sentenciar". Em dezembro, a Lava Jato já havia, em planilha, indicado à substituta temporária de Moro as prioridades da força-tarefa.

No dia seguinte, 10 de janeiro de 2019, em áudio, Deltan comentou sobre um encontro com a magistrada. "Perguntei dos casos né, perguntei primeiro do caso do sítio, se ela ia sentenciar."

Hardt, segundo Deltan, mostrou uma pilha de papel, que era uma cópia das alegações finais da defesa de Lula no processo do sítio, com cerca de 1.600 páginas. A magistrada pontuou que tinha outros "500 casos". "Que horas eu vou fazer isso aqui? Só se eu vier aqui e trabalhar da meia noite às seis", teria dito Hardt, segundo Deltan.

O procurador, então, explica que ela está sobrecarregada, mas que ela iria "sentenciar o sítio".

O que dizem os envolvidos

Em nota, o MPF disse que "é legítimo e legal que membros do Ministério Público despachem com juízes, como advogados fazem".

O órgão também afirmou que "a eventual preocupação com a demora do julgamento dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo pessoas beneficiadas pela prescrição reduzida em razão da idade, como o ex-presidente Lula, demonstra zelo pelo interesse público".

"Ainda que os diálogos tenham ocorrido da forma como apresentados, só demonstrariam o zelo do Ministério Público e a independência e a imparcialidade da juíza", disse o MPF, que diz não reconhecer "o material criminosamente obtido por hackers que tem sido editado, descontextualizado e deturpado para fazer falsas acusações sem correspondência na realidade, por pessoas movidas por diferentes interesses que incluem a anulação de investigações e condenações".

Juíza diz não ver "nada de anormal"

Por nota, a assessoria da Justiça Federal do Paraná disse que "o áudio menciona que a juíza teria dito que estava tentando minutar a sentença de um processo que lhe caberia sentenciar em razão de ter finalizado sua instrução". "Ela não vê nada de anormal nisto. Pelo que consta a conversa teria sido no início de janeiro e a sentença foi publicada no mês seguinte, dada sua complexidade", diz o comunicado.

A Justiça Federal pontua que "o áudio cita que a magistrada estava com muito trabalho e com pouca assessoria, o que corresponde à realidade daquele período". "Certamente foi uma afirmação que fez a todos os que foram conversar com a juíza na época, solicitando urgência na análise de qualquer caso."

A nota ainda traz uma declaração de Hardt, que diz que ficou feliz por "ouvir que, mesmo durante aquele período extenuante de trabalho, o procurador tenha mencionado que fui cordial, que estava com boa vontade e querendo fazer o melhor". "Pois este sempre foi o meu objetivo como magistrada."

Sentença proferida

A condenação de Lula no caso do sítio aconteceu cerca de um mês depois, em 6 de fevereiro de 2019. Logo depois, o juiz Luiz Antônio Bonat, por critério de antiguidade, foi escolhido como sucessor de Moro. Ele assumiu o cargo em março do mesmo ano.

A condenação proferida por Hardt foi confirmada pelo TRF-4 no final de 2019, mas teve uma polêmica. A juíza copiou trecho da sentença de Moro no caso do tríplex, primeira condenação contra o petista na Lava Jato.

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