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Vazamentos da Lava Jato

Deltan pediu para tirar foto de Lula de PowerPoint: 'Tá ficando shou'

14.set.2016 - Apresentação de denúncia contra Lula pela Lava Jato de Curitiba - Geraldo Bubniak/AGB/Estadão Conteúdo
14.set.2016 - Apresentação de denúncia contra Lula pela Lava Jato de Curitiba Imagem: Geraldo Bubniak/AGB/Estadão Conteúdo

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

18/02/2021 04h00

A apresentação em PowerPoint da primeira denúncia da Operação Lava Jato contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —que foi alvo de críticas e virou meme nas redes sociais— envolveu uma discussão sobre o uso ou não da foto do político, segundo mostra diálogo de procuradores em grupo no aplicativo de mensagens Telegram.

Em 13 de setembro de 2016, o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa na ocasião, escreveu: "melhor não usarmos a imagem do Lula, mas um quadrado escrito LULA simplesmente". "Ou uma imagem de pessoa como as demais do gráfico, e embaixo LULA. Tá ficando shou", afirmou.

A denúncia contra Lula, a respeito de um esquema de corrupção que envolveria o tríplex no Guarujá, foi apresentada à imprensa no dia seguinte, 14 de setembro de 2016. Transmitido ao vivo, o anúncio da denúncia ficou marcado pela fala de Deltan de que Lula seria "o comandante máximo" de esquemas de corrupção e pelo diagrama no PowerPoint.

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O procurador da República, Deltan Dallagnol, explica denúncia contra Lula usando PowerPoint
Imagem: 14.set.2016 - Rodrigo Félix Leal/Futura Press/Estadão Conteúdo

As mensagens de Deltan —que integram arquivo apreendido com hackers pela Polícia Federal em 2019 ao qual os advogados de Lula foram autorizados a acessar— constam em nova petição protocolada ontem pela defesa do ex-presidente no STF (Supremo Tribunal Federal). O UOL não teve acesso à íntegra das conversas, mas ao documento da perícia de Lula.

"O esquema gráfico produzido para essa denúncia específica tinha por objetivo tornar compreensível aquilo que a doutrina chama de 'convergência de indícios', explicando aspectos do esquema criminoso essenciais para a compreensão acerca do papel do ex-presidente nos crimes - e esses aspectos estavam todos descritos na denúncia apresentada, sendo reproduzidos a partir dela", dizem em nota os procuradores que integraram a Lava Jato.

A força-tarefa —que reitera não reconhecer a veracidade dos diálogos e enfatiza que são produto de ação criminosa— ainda pontuou que Lula foi condenado como resultado da denúncia (veja a íntegra do posicionamento). A defesa do ex-presidente sempre negou os crimes.

Foto de Lula em gráfico 'só para tirar onda'

Sobre o uso da imagem de Lula na apresentação, um interlocutor identificado como "Douglas Prpr" disse, em 13 de setembro, que durante a criação do gráfico a foto fora incluída como uma brincadeira " para tirar onda". "Já falei que não podemos deixar." Na sequência, Deltan escreveu "kkk". A grafia das mensagens foi mantida tal qual transcrita na perícia de Lula.

No dia seguinte, após a repercussão do anúncio da denúncia, Douglas escreveu: "as bolinhas fizeram sucesso...". Deltan respondeu com um novo "kkk".

PowerPoint poderia ter sido feito diferente, diz Deltan

Em julho passado, em entrevista ao UOL, Deltan disse que poderia ter feito o PowerPoint assim como a apresentação da acusação de "modo diferente para evitar críticas", mas reafirmou que o conteúdo refletia o que trazia a denúncia contra Lula.

Em manifestação a respeito destas mensagens, a Lava Jato disse que "o esquema gráfico produzido para essa denúncia específica tinha por objetivo tornar compreensível aquilo que a doutrina chama de 'convergência de indícios', explicando aspectos do esquema criminoso essenciais para a compreensão acerca do papel do ex-presidente nos crimes".

"E esses aspectos estavam todos descritos na denúncia apresentada, sendo reproduzidos a partir dela", trouxe a nota da força-tarefa.

No ano passado, o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) arquivou uma reclamação de Lula contra Deltan pelo uso do powerpoint.

No processo envolvendo o tríplex, Lula foi condenado pela Justiça Federal do Paraná, pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) e pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça). A defesa espera derrubar a condenação com base no julgamento do STF sobre a suspeição do ex-juiz federal Sergio Moro, que julgou Lula na primeira instância.

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