Hermafroditas, 32 cérebros e 18 testículos: as sanguessugas e sua utilização pela medicina

  • Wikimedia Commons/Wikipedia

Elas são úmidas, gosmentas e ao longo da história foram temidas, odiadas e amadas pela humanidade. Mas não importa o quanto avancemos tecnologicamente, ainda não surgiu nada para substituir o seu uso.

Sanguessugas são animais hermafroditas com 32 cérebros, nove pares de testículos e uma mandíbula com três filas de cem dentes cada uma.

E sempre foram e são essenciais para a medicina.

O laboratório BioPharm, no País de Gales, cria dezenas de milhares desses anelídeos, parecidos com lesmas escuras, para uso em hospitais em várias partes do mundo.

Os animais são deixados sem alimento entre seis e nove meses, para estarem famintos na hora de "trabalhar" - em outras palavras, sugar o sangue de um paciente.

Esse é o seu papel como ferramenta fundamental na cirurgia reconstrutiva contemporânea.

Reprodução/The Sun
Os quatro humores

A fama das sanguessugas vem de tempos remotos.

"Um aspecto interessante sobre as sanguessugas é que elas aparecem de forma repetida ao longo da história da humanidade e em todas as culturas humanas", afirmou Robert Kirk, professor de Humanidades e História da Medicina na Universidade de Manchester, na Inglaterra.

Os babilônios se referiam às sanguessugas como filhas da deusa da medicina; mas também eram consideradas criaturas perigosas capazes de drenar o sangue de qualquer um.

"Nesta cultura ancestral, as sanguessugas representavam tanto uma ameaça à saúde como uma ferramenta de cura", acrescenta.

Essa visão permaneceu ao longo dos tempos, à medida que as criaturas eram usadas pelos egípcios, gregos e romanos, e por povos na China, na Índia e na Europa Ocidental, até os dias de hoje.

Houve até um tempo em que os anelídeos eram muito caros, pois representavam a solução para qualquer mal-estar.

Os médicos acreditavam na teoria dos quatro 'humores': que determinados estados da mente eram causados por excesso de sangue no corpo - sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra.

Assim, para restaurar o equilíbrio do corpo e virtualmente curar qualquer doença, às vezes era preciso drenar parte do sangue do paciente.

Antonio Bronic/Reuters
Sanguessuga de aluguel

"No século 19 a popularidade desses animais alcançou o apogeu", conta Christopher Frayling, professor de História Cultural no Royal College of Art de Londres.

"Entre 1825 e 1850 as sanguessugas eram usadas para praticamente tudo. Você podia até ir a uma farmácia e alugar uma sanguessuga - algo que hoje em dia nos parece uma ideia completamente asquerosa", afirma.

"Hoje sabemos que ela pode ser usada em apenas um paciente, pois do contrário seria como usar uma seringa suja", afirma Bethany Sawyer, gerente dos laboratórios Biopharm.

Mas no passado não era assim: as pessoas iam a farmácias, pagavam uma boa quantidade de dinheiro e levavam um desses animais para uso no conforto do lar.

A sanguessuga deveria ser usada com cuidado; e se fosse colocada perto de algum orifício - como nariz e ouvidos - poderia entrar no corpo e causar problemas.

"Para evitar que entrassem no corpo, cirurgiões costumavam costurar um fio no animal", diz o professor Frayling.

A técnica também era usada em caso de dor de dente ou infecção de ouvido.

No auge da revolução industrial britânica, durante a chamada era vitoriana, estima-se que 42 milhões de sanguessugas tenham sido usadas em tratamentos médicos.

Era um mercado estimado em US$ 1,5 bilhão por ano, aos preços do século 19.

Uso contemporâneo

A prática caiu em desuso no começo do século passado por diversos fatores. As sanguessugas chegaram à beira da extinção, os benefícios médicos do seu uso foram questionados e a Medicina começou a descobrir as verdadeiras causas das doenças.

No entanto, mesmo hoje o uso dessas criaturas - embora não tenha comparação com sua época de ouro - pode ser um negócio rentável.

As 60 mil sanguessugas distribuídas por ano a hospitais da Europa fazem da Biopharm Leech, em Swansea, no País de Gales, um dos maiores fornecedores desse item medicinal.

De acordo com Sawyer, a empresa decolou em 1985, após a repercussão mundial do caso de uma criança que quase perdeu uma orelha. "Ele tinha 5 anos e o cachorro de sua avó tinha arrancado sua orelha", conta Sawyer.

Como era uma criança pequena, os cirurgiões tiveram dificuldade em recuperar os vasos sanguíneos na região afetada. O responsável pela intervenção havia trabalhado no Vietnã, onde os médicos usavam sanguessugas, e decidiu fazer desse o seu último recurso.

"Em uma semana ou dez dias usaram umas 2 mil sanguessugas", completa a gerente. O garoto se salvou e a empresa cresceu como nunca.

O fato é que, até hoje, não há ferramenta tão eficaz como essas criaturas para evitar que o sangue se acumule nas regiões tratadas, reduzindo pressão sobre veias e formando novas conexões sanguíneas.

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