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'Diziam que eu parecia uma porca': ginasta americana de performance perfeita relata pressão por magreza

24/05/2019 17h04

Vídeo de Katelyn Ohashi com apresentação nota 10 viralizou em janeiro, após difícil jornada que ela enfrentou.

"Diziam que eu não parecia uma ginasta. Diziam que eu parecia uma porca ou que eu parecia ter engolido um elefante", lembra a ginasta americana Katelyn Ohashi.

Depois de o vídeo com uma apresentação nota 10 de Katelyn Ohashi viralizar em janeiro, muitas pessoas comentaram nas redes sociais sobre sua "paixão contagiante" e sobre a atleta parecer "tão divertida".

A alegria percebida durante a apresentação perfeita, contudo, não revela a difícil jornada que a ginasta enfrentou.

Antes de se tornar um sucesso global, Ohashi venceu a também americana Simone Biles - hoje quatro vezes campeã olímpica - na copa americana em 2013.

Mas uma lesão nas costas a tirou da competição de elite. Depois de uma pausa, ao voltar para a academia, começou uma batalha devido à imagem corporal.

"Eu estava tentando treinar mesmo com dor e chorava literalmente a cada giro que eu dava", disse ela, aos 22 anos. "O treinador estava insatisfeito por eu ter engordado - e disse que era por isso que eu estava sentindo dores."

Ela aponta ainda como os corpos das ginastas ficam expostos.

"Como ginastas, nossos corpos são constantemente vistos nesses maiôs. Eu me sentia muito desconfortável me olhando no espelho. Eu me sentia desconfortável na academia, como se sempre estivessem me olhando. Eu odiava tirar fotos. Eu odiava tudo sobre mim mesma."

"Até mesmo ficar em casa era difícil. Minha mãe é supermagra e supersaudável e ela dizia 'vamos nadar' e eu só conseguia pensar 'eu não vou vestir um maiô na sua frente'".

'Forma de abuso'

A imagem corporal é definida pela Mental Health Foundation (Fundação de Saúde Mental) como "um termo que pode ser usado para descrever como percebemos e nos sentimos a respeito do nosso corpo".

Ohashi, que começou a praticar ginástica aos três anos, diz que os comentários de terceiros fizeram com que ela se sentisse insegura na adolescência.

"Você começa a encarar isso como se fosse normal porque é isso que você conhece, você cresce cercado por pessoas que estão passando pela mesma coisa que você, então isso se torna quase o que você já espera que aconteça", disse. "Mas quando você olha para trás, eu acho que é uma forma de abuso. Era comum, especialmente no contexto de competição de elite."

Hoje, Ohashi descreve o corpo dela aos 16 anos como "anormalmente magro".

'Efeito desastroso'

Treinadores de ginástica têm mais chance de provocar problemas de imagem corporal nos atletas devido ao foco colocado na aparência das atletas nesse esporte, de acordo com Jill Owens, psicóloga especializada na área de esportes.

"Treinadores nessa área têm que trilhar com mais cuidado, já que no passado esses esportes foram muito associados à magreza. A consequência é que, se estamos pensando negativamente sobre o corpo, ficamos muito menos propensos a cuidar dele adequadamente. No esporte, isso é desastroso. Pode chegar a um estágio mais profundo e podemos tratá-lo de uma maneira doentia por não comer o suficiente ou por treinar em excesso", afirmou Owens.

Ao mesmo tempo em que as ginastas sentem pressão para ter um corpo esguio, atletas de outros esportes geralmente têm uma estrutura maior - em alguns casos, com um formato corporal que alguns considerariam "não femininos".

Um desses esportes é o remo, no qual os competidores geralmente são altos e musculosos, com ombros largos.

Vicky Thornley, que tem medalha olímpica de prata, disse ter ficado desconfortável com isso no início de sua trajetória, mas a carreira no remo transformou a relação dela com o corpo.

"Antes de começar a remar, eu queria ser modelo. Queria ser muito magra e não ter nenhum músculo", disse. "Hoje eu fico horrorizada por já ter pensado aquelas coisas. Naquela época, não podia imaginar que no futuro eu ia querer ficar mais musculosa. E estou sempre tentando aumentar a massa muscular."

"Adoro quando meus braços parecem grandes e quando tem uma veia aparecendo ou o que quer que seja. Sei que algumas pessoas podem não achar atraente, mas isso me faz me sentir mais forte e mais poderosa."

Mudança

A ginasta Katelyn Ohashi também mudou a forma como encara o próprio corpo. No caso dela, isso aconteceu quando ela começou a estudar na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), onde se formou recentemente em estudos de gênero.

Inicialmente, ela disse ao treinador na universidade que não queria "ser ótima" novamente porque relacionava isso a uma situação de sofrimento. Mas ela conta que recebeu o apoio que precisava para ter sucesso - foi levada a atendimento psicológico e diz que esteve cercada por uma equipe técnica que enxerga os atletas "como pessoas" e os coloca em primeiro lugar.

"Definitivamente, isso foi crucial para o meu crescimento como pessoa e para a minha saúde mental", disse ela.

"Agora eu tenho vontade de atuar nessas questões das mulheres. Eu luto pelo empoderamento feminino. Os corpos de todas são diferentes e não há um único modelo que seja o perfeito. É importante estar confortável com a única pessoa que importa: você mesma. É algo que você pode trabalhar para sempre. Você é a única pessoa que está na sua pele 100% do tempo."

Reportagem de Becky Gray, entrevistas de Jo Currie, Emma Cook, Kate McKenna e Melissa Sharman.

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