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Coronavírus: reabrir economia no epicentro da pandemia, como o Brasil, não é boa ideia, diz OMS

Em vários lugares, bares e restaurantes têm regras de distanciamento de mesas e número de clientes - Reuters
Em vários lugares, bares e restaurantes têm regras de distanciamento de mesas e número de clientes Imagem: Reuters

Daniel Gallas

Da BBC News Brasil em Londres

03/07/2020 13h55

Bares lotados na zona sul do Rio de Janeiro, a maioria das pessoas sem máscara, pouco ou nenhum distanciamento social como recomendam os protocolos de saúde.

Imagens da reabertura de bares e restaurantes no Rio de Janeiro na quinta-feira (2) circularam pelas redes sociais despertando críticas, dado que a cidade tem mais de 10 mil mortos e 160 mil casos de covid-19.

Estados e cidades brasileiras estariam prontos para reabrir suas economias?

"Dissemos aos países, não só ao Brasil, que junho e julho não são uma boa hora para se reabrir", disse à BBC News Brasil o diretor do departamento de Doenças Transmissíveis da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Marcos Espinal. A Opas é o escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) na América Latina e Caribe.

Na terça-feira a entidade alertou que o pico da epidemia no Brasil pode acontecer apenas em agosto e que o país poderia chegar a mais de 80 mil mortes até lá (atualmente são mais de 60 mil vítimas fatais).

"Não é uma boa ideia reabrir a economia quando se está no epicentro de uma pandemia. Mas todos os países são soberanos e cada um decide o que fazer."

"É uma receita para se espalhar mais doença. Nós vimos isso nos Estados Unidos. Estados que reabriram no começo estão chegando ao pico. Então, esperamos cada vez mais casos."

Não é só o Rio de Janeiro que promoveu a reabertura. Nas últimas semanas diversas cidades e Estados começaram a pôr fim às restrições.

Entre eles:

  • São Paulo terá a reabertura de seus bares e restaurantes da capital na próxima segunda-feira, ainda com restrições no número de clientes em cada estabelecimento e na proximidade das mesas;
  • Cidades do Rio Grande do Norte reabriram o comércio esta semana, após dois adiamentos, já que a ocupação de leitos de UTI segue alta no Estado;
  • Em Goiânia, estabelecimentos não-essenciais haviam conseguido reabrir com uma liminar da Justiça. Mas a prefeitura derrubou a liminar e o comércio vai seguir fechado;
  • Em Florianópolis, a prefeitura havia fechado shoppings e academias diante do agravamento da pandemia, mas voltou atrás esta semana. O prefeito Gean Loureiro (DEM) disse em nota que "o retorno neste momento não é o ideal, seria necessário aguardar mais tempo. Mas, seguramos até onde foi possível e aceitável para garantir a obediência civil".

Testes, rastreamento e UTIs

A Opas afirma que seria possível promover uma reabertura da economia se os governos conseguissem cumprir alguns requisitos.

"Nós dissemos aos governos: se vocês quiserem reabrir, é uma decisão de vocês. Nós não recomendamos reabrir. Mas vocês (os governantes) precisam se certificar de que existe um sistema para testar (as pessoas), um sistema para rastrear os contatos e um sistema para aumentar o número de leitos hospitalares disponíveis."

O primeiro dos critérios que possibilitaria uma reabertura seria a quantidade de testes de covid-19 para a população, onde muitas das cidades e Estados não estão tendo uma performance boa.

"São Paulo está fazendo mais testes do que todo mundo no Brasil em números absolutos, seguido por Ceará e Rio de Janeiro. Mas na relação de testes por 1 milhão de pessoas, Rondônia, Amapá, Roraima e Acre são os que estão em situação melhor. Rio de Janeiro e São Paulo estão fazendo menos do que 20 mil testes para cada milhão de pessoas. Esse dado é muito revelador de que esses Estados precisam aumentar a sua capacidade de testes", afirma Espinal.

O Chile, um dos países latino-americanos que Espinal cita como exemplo bem-sucedido neste quesito, está testando três vezes mais do que o Rio de Janeiro.

"Se Estados como Rio de Janeiro e São Paulo não estão com eficiência de testes, então não é uma boa coisa reabrir."

Quanto ao segundo critério apontado por Espinal, o rastreamento de contatos, o Brasil não possui um sistema como esses no momento.

Poucos países conseguiram implementar com sucesso os chamados "Track and Trace Apps" - aplicativos de celular que rastreiam com quem as pessoas contaminadas estiveram contato recente, usando dados de telefonia celular. Isso permitiria colocá-las em quarentena.

Essa iniciativa depende da ajuda da população, que precisa baixar esses aplicativos em seus aparelhos. Alemanha e França estão entre os países que lançaram seus aplicativos em junho. Estima-se que 12 milhões de alemães (15% da população do país) baixaram o aplicativo até agora.

O último critério da Opas para promover uma reabertura, a baixa taxa de ocupação de leitos de UTI, é uma incógnita no Brasil.

Não há um percentual fixo pela OMS da taxa ideal, e o patamar "normal" varia muito de acordo com cada cidade.

Uma reportagem da BBC News Brasil mostrou que o Brasil ainda não possui um censo hospitalar com o dado de quantos leitos existem no país.

Durante a pandemia, os números têm sido divulgados de forma desordenada pelos Estados - alguns com atualizações diárias e outros com notificações esporádicas e incompletas sobre as taxas de ocupação.

Segundo Estados e municípios, faltaram leitos durante a pandemia e, atualmente, há diversos hospitais lotados em vários cantos do país.

Além disso cada governante tem decidido de forma independente se seu sistema está pronto para reabertura ou não. A Prefeitura de Belo Horizonte descartou reabrir a economia, com mais de 87% dos leitos de UTI ocupados na cidade.

Já o Covidômetro, site da Prefeitura de Florianópolis, aponta taxa de ocupação de UTIs de 81% e ainda assim shoppings e academias reabriram.

No Brasil, a decisão sobre fechamento de comércio e isolamento das populações cabe a prefeitos e governadores e não ao governo federal, após uma decisão do Supremo de meados de abril.

Não seria melhor haver uma coordenação nacional da reabertura?

"Uma estratégia nacional é sempre boa. É importante haver uma orientação central, que poderia ser uma estratégia nacional, mas sempre com flexibilidade para se ajustar para as peculiaridades de cada estado ou município", afirma o diretor da Opas.

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