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Livro discute impactos do excesso da tecnologia no dia a dia das pessoas

Os pais acreditam que porque seus filhos estão no quarto, sozinhos, estão seguros - Getty Images
Os pais acreditam que porque seus filhos estão no quarto, sozinhos, estão seguros Imagem: Getty Images

Cármen Guaresemin

Do UOL, em São Paulo

25/05/2013 07h00Atualizada em 27/05/2013 11h17

Nunca tivemos tanto acesso a tanta informação como agora. A cada dia passamos mais e mais horas conectados, seja via computador, tablet ou celular. Porém, este excesso muitas vezes cobra um alto preço. Seja influenciando nossa saúde ou nossas relações pessoais e profissionais.

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    O livro “Vivendo Este Mundo Digital” reúne mais de 30 profissionais de diferentes áreas buscando responder qual o impacto do aumento da tecnologia em nossas vidas e se não estamos sendo passivos e apenas incorporando as informações


Organizado pelas médicas pediatras Evelyn Eisenstein e Susana Graciela Bruno Estefenon e pelo psicólogo e blogueiro do UOL, Cristiano Nabuco de Abreu, o livro “Vivendo Este Mundo Digital” (Ed. Artmed) reúne mais de 30 profissionais de diferentes áreas buscando responder qual o impacto do aumento da tecnologia em nossas vidas e se não estamos sendo passivos e apenas incorporando as informações.

O livro traz números interessantes, como estes que mostram o tempo que algumas tecnologias precisaram para atingir a marca de 50 milhões de usuários: o rádio levou 38 anos; o telefone, 20; a televisão, 13; a internet, 4; o Facebook, 3,6; o Twitter, 3; o iPad, 2; e o Google+, 88 dias.

Segundo Cristiano Nabuco de Abreu, que também é coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica do Programa de Transtornos do Controle dos Impulsos do Departamento de Psiquiatria do HC de São Paulo, a obra é voltada para profissionais da área de saúde, para aqueles que utilizam muita tecnologia e aos pedagogos e pais, por exemplo. “Fizemos um livro com pegada científica, mas que também pode interessar aos leigos. Passeamos por todas as divisões da população, com ênfase nos adolescentes e jovens”.


Leia a seguir, entrevista com o psicólogo:

UOL – No livro vocês usam termos novos como sexting. O que significa?
Cristiano Nabuco de Abreu – O capítulo dois é escrito por Michael Rich, médico e professor de Harvard, que comenta entre outras coisas que há 100 anos as doenças que mais atingiam a população diziam respeito ao aspecto sanitário, ou seja, à higiene. Hoje, claro, mudamos muito, vivemos numa época em que os problemas de saúde são de outra ordem. Os jovens, principalmente, sentem muita ansiedade. Sexting, por exemplo, é um termo para definir quando indivíduos com 13, 14 anos trocam mensagens de cunho sexual, com fotos íntimas e reveladoras. A menina envia para o garoto, por celular, mas se esquece de que ele tem amigos e que isso pode se propagar pela rede.

UOL – Vemos isso acontecer muito nos Estados Unidos...
CNA – Pois é, a grande pergunta é “será que no Brasil acontece menos?”. Sim, mas somente porque temos menos acesso à internet que lá. É um assunto subavaliado. As pessoas por aqui estão se familiarizando com termos como vício em internet só agora.  Quem nasceu a partir de 1990/2000 são os chamados nativos digitais, quem veio antes são os imigrantes. Ao contrário dos imigrantes, que são mais lentos, os nativos tiveram mais contato com computadores e celulares, estão familiarizados. O problema é que os “tutores”, que seriam os imigrantes, nem sequer imaginam o que está acontecendo. Seja no aspecto de saúde, pedagógico ou legal com os nativos. O interessante é que os brasileiros estão em primeiro lugar em horas passadas navegando em redes caseiras e o país é o terceiro em número de internautas no mundo.

UOL – Como os pais podem controlar o que é visto sem se transformar em censores?
CNA – Os pais acreditam que, porque seus filhos estão no quarto, sozinhos, estão seguros. Numa palestra questionei se eles deixariam as crianças na porta do prédio, por quatro horas, sozinhas, conversando com estranhos. Todos disseram que jamais. Mas é o que ocorre quando os filhos navegam por horas. Os pais devem se aproximar de forma curiosa, perguntando o que estão fazendo, com quem estão falando. É o mesmo quando a menina vem e diz que vai à festa da Carolzinha. Você pergunta quem é a Carolzinha, onde vai ser, quem vai. Ou seja, a postura em relação à internet é a mesma em relação à da vida real.

O que os jovens não admitem é que, de repente, comecem a ter curiosidade e queiram saber e controlar seus atos. Não entendem o interesse súbito. Portanto, deve ser algo desenvolvido ao longo da vida, um interesse autêntico. E, deste modo, pais podem alertar os filhos que enviar fotos de conteúdo íntimo não é algo legal de ser fazer, por exemplo.

UOL – E as escolas? Estão preparadas para lidar com o uso de celular e o cyberbullying?
CNA – As escolas estão ainda na era pré-Gutemberg, ou seja, pré-imprensa. Anos atrás, alunos ficavam sentados por cinco horas. Existia um outro conceito de hora-aula, mediam o tempo que uma pessoa gasta prestando atenção ao que é dito. Hoje em dia, este tempo, segundo pesquisas, é de apenas quatro minutos. Depois disso, o aluno começa a divagar. Por isso há uma explosão de diagnósticos de TDA (transtorno do deficit de atenção) e de consumo de ritalina. A pessoa é multitarefa e acham que tem algum problema.

Os professores não têm noção disso, nem que a garotada usa o SMS do celular para passar cola entre si. Pensam “vamos restringir o uso”, mas há estabelecimentos com rede Wi-Fi. As escolas estão profundamente fora do que acontece. É preciso dar uma resposta às novas demandas, e a criação de uma pedagogia que funcione. Outro dia, uma pessoa próxima me mandou um vídeo. Ela faz faculdade e durante a aula pediu para usar o banheiro. Na volta, pegou seu celular e gravou da porta os outros alunos. Praticamente todos estavam usando seus aparelhos. Imagine isso em grandes empresas, segredos corporativos sendo copiados!

As escolas não sabem lidar com o bullying, imagine com o cyberbullying (assédio, ameaça, rejeição ou criação de boatos sobre um ou mais indivíduos usando meios eletrônicos como mensagens de texto ou a internet). As pessoas me perguntam se um professor tratar mal a aluna é bullying. Explico que não, tem de ser de igual para igual. É importante alertar os alunos, dando chances para que entendam o que acontece ao seu redor e como evitar isso. Porém, nosso livro não tem a pretensão de ensinar o que fazer.

UOL – Hoje em dia, seja nas redes sociais como Facebook e Twitter, ou falando no celular em lugares públicos, parece que as pessoas não se importam em expor suas imagens e dados pessoais.
CNA – A intimidade tomou novas dimensões. Você não sai falando que teve relações sexuais a noite passada, mas posta no blog que a noite com seu namorado foi ótima. Dá praticamente no mesmo. É como se a tecnologia fosse um familiar. Pesquisas mostram que as pessoas trocam por volta de 80 bilhões de mensagens instantâneas por ano. O celular hoje é câmera fotográfica, de vídeo, GPS e rádio, por exemplo. As pessoas foram perdendo a noção do que podem ou não fazer com ele.

UOL - Além dos problemas psicológicos, o excesso de tecnologia atinge também o corpo?
CNA - O uso crônico de fones de ouvido (no caso de Ipods ou games), por exemplo, começa a criar alterações auditivas. Por exemplo,  o uso continuo de fones de alta potência faz com que possa ocorrer a perda auditiva irreversível, pois compromete as células ciliadas do ouvido interno (cóclea), que não se regeneram. Os primeiros sintomas são a dificuldade de perceber sons agudos, como telefones e campainhas, evoluindo para os zumbidos, interferindo na comunicação humana (afetando o aprendizado, humor e podendo gerar problemas comportamentais). Outro problema é a Síndrome do Olho do Computador, que atinge mais da metade dos usuários e se manifesta por meio de olhos vermelhos, secos ou lacrimejando, vista cansada e até dor de cabeça de origem oftálmica. Também não são raros, como motivo de consulta nos consultórios médicos, os transtornos do sono, dormir menos ou com um sono de má qualidade, não reparador.  Existem queixas de dores nas costas por postura incorreta frente  ao computador ou videogames,  o que pode acarretar disfunções e deformidades musculoesqueléticas, especialmente na coluna vertebral a exemplo da escoliose.

UOL - Outro termo novo: tecnoestresse. Pode explicá-lo?
CNA - Exemplificando: no estágio inicial a pessoa é estimulada pela frustração, que pode ter um efeito positivo no comportamento, como por exemplo: conseguir imprimir um relatório, fazer o computador funcionar etc, fazendo com que ela se sinta satisfeita consigo mesma por ter atingido o objetivo. Em um estágio intermediário, as crises de raiva diante da impossibilidade de lidar com os impasses gerados pela tecnologia se tornam mais frequentes e começam a provocar sintomas como dores de cabeça (cefaleias) e tensão muscular. Em um último estágio, o tecnoestresse torna-se crônico e a saúde física fica seriamente comprometida, devido à liberação cada vez mais frequente de corticotrofina, cortisol e dopamina, causando problemas de longa duração ao organismo. Alguns sintomas podem incluir: dificuldades de relaxar e de dormir à noite, ansiedade, cansaço crônico, alterações cardiovasculares e respiratórias, dentre outras.

UOL – Mas na sua opinião, a tecnologia faz bem ou mal?
CNA – Como tudo na vida, depende de como é utilizada. O álcool em si não faz mal, mas seu excesso. É o mesmo com a tecnologia. É preciso criar padrões pedagógicos e de alerta para que as pessoas, em especial os jovens, não abram brechas para se tornar alvo, não deem elementos para ser uma futura vítima.

Nos Estados Unidos, por exemplo, há empresas que estão arquivando tudo o que se posta na internet. Não importa a época. Já pensou, você vai procurar um emprego e a pessoa pede sua ficha? É um verdadeiro raio-X de tudo.

E não é só na área social, em termos de saúde também. Ficar muito tempo sentado aumenta o sedentarismo, a má postura e os riscos de obesidade, por exemplo. Para mim, a tecnologia é fundamentalmente boa, mas é preciso ter controle sobre ela. 

UOL - E o senhor, como faz para evitar o excesso de tecnologia?
CNA - Excelente pergunta. Procuro criar espaços de tempo nos quais não acesso de maneira alguma os gadgets (por exemplo: de tantas em tantas horas 'não devo' acessar nada).  No final de semana tento ser mais rigoroso comigo mesmo (vou passear de moto, andar no parque, lavar o carro, ler um livro, coisas assim). No começo é mais difícil, mas depois você retoma o controle de sua vida. Veja que não trabalho com a tecnologia, mas ainda assim não é das tarefas mais fáceis. Ia me esquecendo, depois que chego em casa do trabalho, celular e computador ficam desligados, sempre. A regra é nunca ligá-los. A não ser que minhas filhas estejam fora.