Saúde pública

No interior do Nordeste, médico só tem "mesinha, caneta e estetoscópio"

Carlos Madeiro

Do UOL, em Maceió

  • Arte UOL

    Segundo médico concursado da prefeitura de Caucaia (CE), salários e possíveis calotes são secundários em meio aos problemas estruturais

    Segundo médico concursado da prefeitura de Caucaia (CE), salários e possíveis calotes são secundários em meio aos problemas estruturais

Os médicos do país protestam nesta quarta-feira (3) contra a proposta do governo federal de trazer profissionais de outros países para atuar em locais onde os médicos brasileiros não atuam.

Para o governo, não há profissionais suficientes no país. Mas os médicos alegam que o problema está na falta de incentivo á interiorização por conta dos problemas estruturais, uso político dos médicos e até calotes sofridos pelo interior do país.

O UOL ouviu profissionais que atuam no interior do Nordeste --onde existe a maior carência de médicos-- e ouviu relatos de diversos tipos de problemas.

O médico Antonio Aderlandro Oliveira atua hoje como anestesista em Caruaru (PE), mas recorda do tempo em que sofreu de município em município pelo interior do Ceará, após se formar, em 2004.

"As condições eram as mais precárias possíveis. O que tem nessas cidades é uma mesinha, uma caneta e um estetoscópio. A infraestrutura é praticamente zero", contou o médico, que trabalhou em programas de saúde da família nas cidades cearenses de Trairi e Boa Viagem.

Outro problema apontado por ele é a falta exames complementares para os pacientes. "Tínhamos uma cota que nunca dava para atender a demanda. Tínhamos que escolher os pacientes, e muitas vezes não era nem feito", relatou.

Oliveira também diz que há uso político dos médicos. "Se você não está no lado da prefeitura, perde o emprego. É o prefeito quem contrata e quem demite", disse.

Especialista em atenção básica, o médico Luis Guilherme Costa também conta que sofre com a falta de estrutura e relata que falta estrutura complementar para resolução dos problemas dos pacientes. Hoje ele é concursado da prefeitura de Caucaia (CE) e diz que os salários e possíveis calotes são secundários em meio aos problemas estruturais.

"Há grande dificuldade em encaminhamentos de pacientes. Algumas coisas não se resolvem na atenção básica, e você não tem a resposta", disse. 

Outro problema citado por Costa é a formação precária de outros profissionais que atuam nos postos e secretarias municipais de Saúde. "O que acontece é que nós, médicos, acabamos expostos e acumulando a responsabilidade de outros", apontou. 

Remédio que não se usa

Por conta de problemas, o médico conta que já se demitiu por duas vezes de empregos que possuía. "Em uma delas, em Juazeiro do Norte, além de trabalhar no posto, ensinava na faculdade. E saí porque chegou um momento em que estava ensinando coisas erradas porque não tinha como fazer certo. Um exemplo: havia remédio para asma comprado pela prefeitura que não se usa, mas a prefeitura insistia em comprar. E você insiste, mas não consegue passar isso para os governantes", contou.

Entenda a proposta do governo

  • Arte/UOL

    Saiba como irá funcionar o programa de importação de médicos estrangeiros 

Segundo o presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas, Wellington Galvão, não faltam médicos no pais, mas, sim, políticas públicas para interiorizar os profissionais, que hoje preferem ficar em grande centros, onde conseguem maior estabilidade.

Salários

Galvão alega que, além da precária estrutura, são comuns os problemas em relação de salários de profissionais que trabalham no interior. 

"Temos várias ações de médicos que saíram por não receber salários, principalmente nessas mudanças de gestão. Tem também muita prefeitura que não paga o 13º salário e temos que ingressar na Justiça. É uma situação difícil", afirmou.

Faltam médicos

Já os gestores defendem a teoria de que faltam profissionais no país. O Conselho Nacional de Secretarias de Saúde divulgou carta, na semana passada, afirmando que a falta de profissionais é "um problema real e que precisa ser sanado urgentemente" e "declara apoio total e irrestrito à vinda de médicos estrangeiros."

Um dos exemplos citados pelo conselho é o Provab (Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica), que prevê o pagamento de bolsa federal de R$ 8 mil para o médico que aceitar atuar em periferias de grandes cidades e ou áreas remotas.

"Dos 2.867 municípios que pediram profissionais pelo Provab, 1.581 municípios não atraíram nenhum. Com isso, apenas 29% da demanda nacional por 13 mil médicos foi atendida: 3.800 participantes foram para 1.307 municípios brasileiros", diz a carta.

Na prática, a situação é mais grave nas regiões Norte e Nordeste. Em fevereiro, o prefeito de Corrente (PI), Jesualdo Barros (PTB), precisou fazer um apelo pelo Facebook para que a cidade contratasse médicos. Mesmo com a repercussão, nem todas as vagas foram preenchidas à época. 

"Mesmo que eles digam que não faltam médico, a gente sabe que não tem o profissional no mercado. E quando temos, não tem a carga horária suficiente", disse a presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde de Alagoas, Normanda Santiago.

A secretária admite que alguns municípios não têm a estrutura necessária, mas alega que essa não é a maior dificuldade para contratar profissionais.

"Em algumas cidades falta estrutura, realmente. Mas tem município com estrutura e bons salários que não consegue contratar. A cidade também precisa de atrativos, e muitas deles não têm atrativo, lazer algum. Por isso que, mesmo com incentivos, não consegue", explica Santiago.

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