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Remédios para dor têm sido porta de entrada para a heroína nos EUA

Dependente injeta heroína no braço embaixo de uma ponte em Portland, no Maine (EUA) - Cheryl Senter/NYT
Dependente injeta heroína no braço embaixo de uma ponte em Portland, no Maine (EUA) Imagem: Cheryl Senter/NYT

Benedict Carey

The New York Times

21/02/2014 07h00

A vida do viciado em heroína, nos EUA, não é a mesma de 20 anos atrás, e o maior motivo é o que os médicos chamam de "heroína leve": os opiáceos receitados. Tais medicamentos estão mais disponíveis do que nunca e são seguros para estimular um apetite que, quando formado, nunca desaparece por completo.

Ainda estão vindo à tona os detalhes dos últimos dias de Philip Seymour Hoffman, ator que morreu no início de fevereiro aos 46 anos de idade por causa de uma aparente overdose de heroína. Todavia, o caso de Hoffman, apesar das incertezas, destaca algumas novas verdades sobre o vício e os vários riscos conhecidos de overdose.

O ator, que largou a heroína há mais de 20 anos, estaria lutando para dar um fim ao hábito de usar analgésicos receitados no ano passado. Especialistas em vício dizem que o uso de medicamentos como Vicodin, OxyContin e Oxicodona – todos opiáceos como a heroína – alterou o panorama do vício e da recaída de um jeito que afeta tanto os usuários atuais quanto os antigos.

"O usuário à moda antiga, anterior à década de 90, usava basicamente só heroína, e se não havia nada por perto, passava pela abstinência", disse Stephen E. Lankenau, sociólogo da Universidade Drexel que pesquisou jovens viciados. Segundo ele, hoje em dia, os "usuários trocam e destrocam, passando para os comprimidos e voltando à heroína quando disponível e vice-versa. As duas opções se integraram."

A taxa de abuso de opiáceos receitados vem crescendo continuamente desde a década passada, enquanto o número de pessoas relatando que usou heroína nos últimos 12 meses quase dobrou desde 2007, chegando a 620 mil, segundo estatísticas do governo americano. De acordo com pesquisadores, não se trata de uma coincidência: agora mais pessoas do que nunca experimentem opiáceos em uma idade jovem, e os viciados em recuperação vivem num mundo com muito mais tentações do que a geração passada.

"Dá para conseguir os comprimidos de muitas fontes", afirma Traci Rieckmann, pesquisadora de vício da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon. "Não existe parafernália, nem cheiro. É a droga perfeita para muita gente."

Milhões de pessoas usam esses medicamentos de forma segura, e os médicos costumam receitá-los diligentemente. Porém, para alguns pacientes, os analgésicos receitados podem funcionar como apresentação – ou reintrodução – a um alto opiáceo. Segundo os médicos, os comprimidos desencadeiam o desejo por heroína nos viciados em recuperação, da mesma forma que suavizam a abstinência entre os usuários.

O médico Jason Jerry, especialista em vício do Centro de Recuperação de Drogas e Álcool da Clínica Cleveland, estima que metade dos 200 e poucos viciados em heroína que a clínica acompanha  todo mês começaram usando opiáceos receitados.

"Muitas vezes é uma receita legítima, mas sem perceber, estão comprando remédios ilegalmente", diz Jerry.

Em muitas partes do país, a heroína é mais barata do que os opiáceos receitados. "Então, as pessoas terminam se perguntando: 'Por que estou pagando US$ 1 por miligrama de oxi quando por um décimo do preço consigo uma dose equivalente de heroína?'", explica Jerry.

Os investigadores ainda não sabem se Hoffman usava opiáceos receitados à época da morte. Os testes de toxicologia ainda não estão prontos, e a pureza e o conteúdo da heroína encontrada no apartamento dele certamente serão um foco da investigação.

Overdose

Embora a enxurrada de analgésicos receitados seja nova, outros fatores de risco para a overdose não mudaram em décadas.

Após o tratamento de recuperação, quando estão limpos, os viciados ficam vulneráveis à overdose porque julgam erroneamente o nível de tolerância, que caiu. Antes da internação, muitos viciados promovem uma última farra, também dando margem ao azar.

"São zonas de perigo comuns", diz Nicholas L. Gideonse, diretor médico do Centro de Saúde Comunitária OHSU, em Portland.

Até mesmo o local onde a pessoa utiliza a droga pode aumentar a probabilidade de overdose, sugerem estudos. "Se você habitualmente usa no carro, por exemplo, o corpo se prepara para receber a droga quando está naquele ambiente", conta Rieckmann. "Chama-se tolerância condicionada. Quando as pessoas usam em lugares desconhecidos, o corpo está menos fisicamente preparado."

O risco de morrer de overdose é maior quando as pessoas usam sozinhas. "Outra pessoa, sóbria ou não, pode notar quando alguém cochila ou pedir para a outra maneirar, pois um usuário serve de medida para o outro quando estão fazendo algo perigoso", disse Lankenau.

Muitos programas de troca de agulha e clínica agora têm cursos de prevenção de overdose, ensinando aos usuários a perceber sinais de perigo e administrar naloxona, bloqueador de opiáceos que enfermeiros de ambulâncias utilizam para despertar viciados que sofreram overdoses.

Nenhuma dessas opções teria poupado Hoffman. Uma coisa que não mudou para os viciados em heroína nos últimos 20 anos é a certeza de que a próxima picada não será mortal.

"É preciso compreender que os viciados se injetam de três a quatro vezes por dia durante anos e anos sem-fim", explicou Gideonse. "Eles não percebem qualquer picada como perigosa ou potencialmente mortal porque, segundo sua experiência, não existe necessidade para isso."