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Beber água em excesso pode fazer mal à saúde? Veja mitos e verdades

Ana Sachs

Do UOL, em São Paulo

26/05/2014 06h00

A água é fundamental para a saúde e o metabolismo do corpo, ainda que muitas vezes seja tão negligenciada em nosso dia a dia. “Na verdade, somos um grande balde d’água com sais minerais e proteínas. Cerca de 60% do nosso corpo é composto por água, e ela precisa estar em perfeito equilíbrio com os demais elementos para que tudo funcione adequadamente”, afirma o nefrologista Lúcio Requião Moura, diretor da SBN (Sociedade Brasileira de Nefrologia).

Nesse balde de substâncias, o sódio tem um papel de destaque. “É ele que garante o equilíbrio, pois tem estreita relação com o metabolismo da água”, diz Moura. Isso porque, quando em excesso no organismo, o sódio,  como o sal de cozinha, por exemplo, tende a absorver mais água do que deveria, causando um descompasso. “Se ingiro muitos alimentos com sódio retenho mais água para manter o equilíbrio. Acabo ficando com mais sais do que água suficiente para diluí-los”, explica.

O mesmo acontece com o açúcar, quando em excesso no organismo, mas em menor grau do que o sódio. Quando ingerimos essas substâncias, elas são facilmente absorvidas no intestino, penetrando na corrente sanguínea. A rápida elevação dos níveis de glicose após a ingestão de açúcar, e de sódio após a ingestão de sal, torna o sangue hiperosmolar (o sangue fica mais concentrado que as estruturas vizinhas), o que atrai líquidos para dentro da corrente sanguínea, de forma a restabelecer a osmolaridade, isto é, voltar aos níveis normais. “Essa migração de líquidos para dentro da corrente sanguínea reduzirá a quantidade de líquidos em outras estruturas orgânicas, fazendo com que o indivíduo tenha sede”, fala o gastroenterologista Laércio Tenório Ribeiro, integrante da FBG (Federação Brasileira de Gastroenterologia).

Por isso, aquela sede após refeições muito salgadas ou após aquela fatia de bolo com cobertura é normal. Moura lembra, no entanto, que essas substâncias estão, muitas vezes, “escondidas” em alguns alimentos. “Todos os alimentos contêm alguma quantia de sódio, até mesmo frutas, verduras e legumes. Ele também está muito presente em alimentos industrializados, pois é um conservante natural”.

O principal mecanismo para determinar se está na hora de beber água é o da sede. Mas ele só será deflagrado quando a quantidade de água do corpo estiver no limite do aceitável, ou seja, abaixo desse nível, a falta do líquido poderá causar prejuízos ao metabolismo. Por isso, é importante evitar que o corpo chegue a esse limiar.  “Se a quantidade de água perdida é suficiente para dar sede, o corpo dispara o alerta”, diz o nefrologista.

Se a ingestão de água demorar, a pessoa pode entrar em um nível crítico de falta do líquido no organismo e ter desidratação, que pode levar à morte em casos mais graves. Alguns sinais de que é hora de beber água incluem: urina escura e com cheiro forte, cansaço, boca seca, dor de cabeça, pressão baixa e perda de capacidade de concentração, atenção e memória. “É preciso especial atenção com idosos e crianças menores de dois anos, que têm diminuída sua capacidade de ter acesso à água e de detectar a desidratação”, destaca Moura.

O extremo oposto, ou seja, beber água demais, também pode fazer mal á saúde. Em pessoas saudáveis, o rim filtra em média 800 a 1000 ml de água em uma hora. “Não há risco de passar mal com quantidades de água que não excedam esses valores”, afirma a nutróloga Andrea Pereira, do Hospital Israelita Albert Einstein. “Já quantidades superiores a 3 ou 4 litros de água por hora podem aumentar o risco de hiponatremia, que é a queda do nível de sódio sanguíneo, podendo causar torpor, confusão e até convulsões”.

Quantidade ideal

Apesar de a água ser fundamental para a vida, muitas pessoas afirmam não sentir sede ou dizem “se esquecer” de tomar o líquido. Para Pereira, beber água é um hábito e devemos praticá-lo todos os dias para que faça parte da rotina. “Algumas pessoas não têm sede e, por isso, não têm o costume de beber água, passando o dia todo sem ingeri-la. Devemos ingerir, em média, dois litros por dia. Mesmo sem sede essa quantidade é importante”, fala.

A quantidade é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) para uma pessoa por dia, para manter o corpo hidratado e saudável. Equivale a cerca de oito copos da bebida.  “Ao longo do dia o nosso corpo produz uma média de 7 litros de água, incluída na saliva, na secreção gástrica, na bile etc. O nosso intestino absorve novo litros. Logo temos um déficit de dois litros entre a produção e a absorção. Por isso, a ingestão de água é necessária”, alerta Pereira.

Outro erro bastante comum é tomar sucos, chás e outros tipos de bebidas que contenham água, mas se esquecer do líquido puro. Apesar de a água estar incluída em vários alimentos e bebidas, ingeri-la pura também é importante, de acordo com a nutróloga do Hospital Israelita Albert Einstein. Isso porque nem sempre é fácil saber se bebemos o suficiente somente com a ingestão de tais alimentos.

Nos dias quentes, ao praticar atividades físicas e sempre que suar em excesso, é preciso aumentar ainda mais essa quantidade de água ingerida, pois o corpo perderá muito mais líquido do que em condições normais. “O corpo tem necessidade de água para realizar o metabolismo, independentemente se a pessoa pratica exercício ou não. Mas se você é um maratonista ou trabalha em um local quente, por exemplo, ao lado de uma caldeira, perderá muito mais água pelo suor e precisará beber mais do líquido para manter esse equilíbrio”, fala o diretor SBN.

Doenças

Quem não costuma dar muita atenção à água pode desenvolver, ainda, um problema mais grave e dolorido: as pedras nos rins. “Junto com a urina são excretadas substâncias não aproveitadas pelo organismo. Quando temos uma baixa ingestão hídrica, essa excreção pode ser prejudicada”, afirma Pereira. “A urina é a forma que o corpo tem de eliminar as impurezas, diluídas em água. Se você não toma água suficiente, essas impurezas se precipitam (ficam sólidas) e se transformam em pedras”, acrescenta Moura. Elas se formam nos rins porque o órgão é como se fosse o filtro do organismo, armazenando e ajudando a expelir as impurezas.

Nas crises agudas, quando a pedra tenta sair pelo canal da urina, a pessoa sente fortes dores. O tratamento é feito com medicamentos para ajudar a expelir as pedras. Quando os remédios não funcionam ou quando a pedra é grande demais, a solução pode ser a remoção via cirurgia. Hoje em dia esse tipo de tratamento é menos comum. “Atualmente usamos um laser para quebrar as pedras maiores em pedaços menores que possam sair pelo canal da urina”, explica Moura.

Para prevenir, só há uma solução: beber água, mesmo sem ter sede.  “A baixa ingestão de água aumenta o risco de se ter essas doenças”, destaca o nefrologista.

Diferentes tipos de água

Existe alguma água que seja melhor para a saúde? A resposta de Moura é enfática: não. Desde que seja potável, ou seja, proveniente de filtros mais modernos ou de barro, ou, ainda, de garrafas, todas as águas são boas para a saúde em igual medida. “A água que tomamos não é pura, mas vem acrescida de sais minerais e também tem cloro em quantidades controladas. Quando se utiliza o filtro, retira-se as impurezas, bactérias e excesso de sais. A única diferença é que todos esses elementos já vêm controlados quando a água é engarrafada”, explica.

Até a água da torneira pode ser consumida, desde que tomados alguns cuidados básicos, segundo a infectologista Thais Guimarães, vice-presidente da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia). De acordo com ela, todas as caixas d’água podem ser abastecidas por Sistemas de Abastecimento Público (SAAs) ou Soluções Alternativas Coletivas/Individuais (SACs ou SAIs), cuja qualidade da água deve atender aos padrões de potabilidade expressos nas normas sanitárias. “Portanto, a água da caixa d’água pode ser bebida, sim”, diz.

O perigo está na distribuição (encanamentos que levam a água até a torneira) e nas condições dos reservatórios, que podem contaminar o líquido. “Desta forma, para que a água armazenada nas caixas d’água tenha sua potabilidade preservada, é importante que os reservatórios permaneçam devidamente vedados e protegidos, bem como sejam limpos e desinfetados, no mínimo, semestralmente”, alerta Guimarães.

Sobre algumas marcas de água de garrafa que se dizem melhores para a saúde, o nefrologista explica: “Existe hoje uma linha de águas no mercado que possui uma quantidade menor quantidade de sódio em sua composição do que as demais. Mas nas águas normais a quantidade de sódio já é tão pequena, que não se sabe até que ponto isso teria algum impacto na saúde. No balanço diário de sódio, essa redução seria irrelevante”.

Como ainda não há estudos que avaliem esse dado, tomar ou não um tipo de água especial com menos sódio depende do como a pessoa se sente. Alguns dizem que ela reduz o edema ou inchaço, popularmente conhecidos por retenção de líquidos. E eles podem ter razão.

“Na retenção, o problema não acontece no metabolismo da água, mas do sódio. Como um está ligado ao outro, quando a pessoa tem essa doença, o sódio retém a água ingerida. Neste caso, o tratamento correto é diminuir a quantidade de sódio ingerida, e não a de água”, declara o diretor da SBN.

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