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Enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça; saiba como tratá-la

Chris Bueno

13/06/2014 06h00

Quem nunca teve uma forte dor de cabeça na vida? O problema é tão comum que é muito difícil encontrar alguém que diga que isso nunca aconteceu. Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), 90% das pessoas sofrem ou sofreram de dor cabeça em todo o mundo. No Brasil, dados da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe) apontam que mais de 138 milhões de brasileiros são acometidos pelo incômodo. Para alertar sobre este mal, foi criado o Dia Nacional de Combate à Cefaleia, celebrado todo dia 19 de maio.

Apesar de ser um problema comum, as dores de cabeça não são iguais. Existem mais de 150 tipos de cefaleias (o termo médico para dor de cabeça) de acordo com a Classificação Internacional das Cefaleias. Elas são divididas em primárias (quando ocorrem isoladamente, sem ligação com outras doenças) e secundárias (quando fazem parte de uma doença em desenvolvimento, como infecções ou traumatismos).

“A diferença entre as cefaleias está na manifestação clínica, no contexto e, principalmente, na causa. Algumas são agudas, outras crônicas (recorrentes), algumas são uma doença em si (por exemplo, a enxaqueca), outras são um sintoma de outra doença (por exemplo, sinusite aguda), e por aí vai”, diz o neurologista Leandro Teles, membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).

“Trata-se de um sintoma muito comum e infelizmente ainda muito negligenciado por médicos e pela população em geral”, admite.

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Tipos de dor de cabeça

Entre as cefaleias primárias, as mais comuns são a cefaleia tensional e a enxaqueca (também chamada de migrânea). A cefaleia tensional é o tipo mais comum de dor de cabeça. Ela é caracterizada por uma dor do tipo peso ou aperto, como se a cabeça estivesse sendo pressionada, e geralmente acomete toda a cabeça, incluindo a região da frente e a nuca. Sua intensidade é fraca ou moderada e sua causa é a contração involuntária da musculatura ao redor da cabeça, sendo muito comum em períodos de estresse ou próximo ao período menstrual.

A enxaqueca também é um tipo comum de cefaleia, mas se difere da tensional especialmente por sua intensidade, que é de moderada à forte, e por ser incapacitante – ou seja, impede que a pessoa continue realizando suas tarefas rotineiras normalmente. Ela também se difere da cefaleia tensional por ser uma dor do tipo pulsátil, como se a cabeça estivesse latejando, o que na maioria das vezes atinge apenas um lado da cabeça, sendo muitas vezes acompanhada de náuseas e vômitos. Além disso, luz, barulho, cheiros fortes e esforço físico podem tanto deflagrar quanto piorar uma crise.

A enxaqueca é causada por um distúrbio neurológico herdado e conhecido por hipersensibilidade do sistema nervoso central (encéfalo) a algumas situações: certos alimentos, bebida alcoólica, odores, luz forte, calor, variações hormonais do ciclo menstrual, estresse, depressão etc.

José Geraldo Speciali, professor da USP de Ribeirão Preto.

Entre as cefaleias secundárias, estão aquelas atribuídas a traumas, tumores, infecções (como sinusite e meningite) e até consumo de medicamentos. Nesses casos, como são parte de uma doença, a dor de cabeça aparece junto com outros sintomas, como febre, tosse, mal-estar ou convulsões.

Se a dor de cabeça for muito intensa ou persistente, ou se for acompanhada por sintomas como rigidez do pescoço, visão dupla, estrabismo, paralisia facial, queda da pálpebra, diferença no tamanho das pupilas, crises epiléticas, confusão, alterações cognitivas e comportamentais ou qualquer outro sintoma neurológico, ou ainda se a dor de cabeça ocasionar perda da qualidade de vida, é preciso procurar um médico. Apesar de ser um problema comum, a dor de cabeça não deve ser negligenciada.

Diagnóstico e tratamento

Para saber que tipo de dor de cabeça a pessoa tem, é preciso buscar a orientação de um médico especialista. “O diagnóstico é clínico, baseado no histórico do paciente, nas características da dor e no exame clínico do paciente”, aponta o neurologista Mario Peres, do Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo.

Para ajudar no diagnóstico, é interessante anotar as informações sobre a dor de cabeça, como sua frequência (quantas vezes a crise ocorre na semana ou no mês), sua intensidade (fraca, moderada ou forte), seu local (em um lado da cabeça, nos dois lados, na frente ou na nuca) e o tipo de dor (de pressão, latejante, pontadas etc.). “Muitas vezes os especialistas solicitam que o paciente preencha um ‘diário de dor’, uma espécie de mapa para o paciente anotar o fenômeno da dor e sua distribuição no tempo (trata-se de uma ferramenta muito útil no diagnóstico apurado)”, explica Teles.

O tratamento é feito primeiramente com algumas mudanças no estilo de vida. Evitar situações de estresse, melhorar a qualidade do sono, manter uma dieta balanceada, além de evitar o consumo de bebidas alcoólicas, o jejum por longos períodos e o calor excessivo, são algumas das atitudes recomendadas. Alguns medicamentos específicos podem ser prescritos para cortar a dor ou mesmo para preveni-las, nos casos em que as crises são muito frequentes.

“As orientações não medicamentosas são melhores hábitos alimentares (principalmente fracionar a dieta e diminuir a ingestão calórica), de sono, realizar atividades físicas e trabalhar melhor o estresse (técnicas de relaxamento, meditação, ioga, psicoterapia, massagens, acupuntura). Vários remédios podem ser usados com sucesso para evitar o aparecimento das crises como antidepressivos, anticonvulsivantes, bloqueadores das adrenalinas, melatonina, alguns fitomedicamentos e vitaminas e a toxina botulínica (botox)”, aponta Peres.

Mas é preciso ter muito cuidado com a medicação. Existem medicamentos mais indicados para cefaleia tensional e para enxaqueca, por exemplo. Além disso, o excesso de medicamentos, ou medicamentos incorretos, pode piorar as crises. “Deve-se ter cuidado especialmente com os analgésicos, pois seu uso excessivo pode piorar a enxaqueca”, alerta Speciali.

Por uma boa qualidade de vida

A dor de cabeça é um problema tão comum que muitas vezes é negligenciado. Mas, quando as dores são frequentes e não são tratadas adequadamente, elas podem trazer sérios prejuízos para a saúde. Em alguns casos, a enxaqueca pode evoluir para um quadro chamado de estado de mal de enxaqueca, uma dor intensa que dura mais de três dias e que costuma não responder a medicamentos comuns, e que pode até mesmo levar à internação.

A cefaleia tensional pode se tornar uma cefaleia crônica diária, uma dor que dura mais que 15 dias no mês por mais de três meses seguidos.

Além disso, o uso excessivo de medicamentos contra a dor de cabeça pode causar danos ao organismo, como gastrite, alergia e alteração hepática ou renal.

E não é só: uma dor de cabeça não tratada também pode trazer consequências bem desagradáveis para a qualidade de vida. “A dor recorrente traz prejuízos inestimáveis à qualidade de vida. Perde-se dias de trabalho efetivo, de estudo, de atividades sociais.

Quem tem muita dor de cabeça pode desenvolver insônia, quadros depressivos, ansiosos e pode evoluir com isolamento progressivo. Ela impacta a vida amorosa, a relação com os filhos e desgasta física e psiquicamente o paciente”, finaliza Teles.