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Artigo: O que me levou a decidir pela cruz na Parada Gay

Avener Prado/Folhapress
Imagem: Avener Prado/Folhapress

Viviany Beleboni

Agência de Notícias da Aids

19/06/2015 18h55

O protesto da modelo transexual Viviany Beleboni, 26, que se vestiu como Jesus Cristo e encenou a própria crucificação durante a 19ª Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) de São Paulo, gerou polêmica nas redes sociais. Neste artigo, ela fala sobre o episódio.

 

Antigamente, no século IV, a crucificação era uma forma de humilhar, envergonhar, torturar e até causar a morte de pessoas que iam contra alguma ideologia. Baseada neste conceito, depois de estudar muito e ter certeza do que queria, resolvi fazer a minha manifestação durante a 19ª. Parada LGBT de São Paulo.

Há vários anos, vou à Parada Gay em São Paulo e na terra onde vivia também, no Rio Grande do Sul. Sempre achei que o dia desses eventos GLBT é de comemorar conquistas e dizer que SIM, nós existimos, quer queiram vocês, quer não. Porém, com o passar do tempo, meu conceito foi mudando, fui achando que a quantidade de pessoas nas ruas durante essas paradas faria as pessoas perceberem que deveria existir leis e segurança para a comunidade que sofre constantemente.

Passaram anos e anos e vi que o número de pessoas nas ruas não faria mudar absolutamente nada, pois,  além da quantidade, o foco de manifesto havia se perdido.

Então, como integrante da ONG ABCD`S comecei a entrar em comunidades e páginas GLBTs e de transexuais e travestis. A cada ano que passava, via a forma e a maneira com que as pessoas matavam GLBTs, principalmente travestis que sao mais expostas ao perigo. Via que o governo e a sociedade não dão oportunidades, nem assistência ao diferente. Que essas pessoas acabam, muitas vezes, sendo postas para fora de suas casas, tantas delas sem ter uma renda e como se manter.

E que, principalmente por causa disso tudo,  90% da população trans é obrigada a se prostituir e  não têm direito a uma boa educação, pelo fato de sofrerem agressões, chacotas e todas as formas de humilhações em escolas,  faculdades.

Vi, enfim, os motivos que levam essas pessoas a não terminarem seus estudos e acabarem se prostituindo e, muitas vezes, sendo vítimas de transfóbicos. Foi adquirindo a consciência de tudo isso que resolvi representar todas essas pessoas e dizer BASTA DE HOMOFOBIA COM GLBTS, o que de fato estava escrito bem grande na placa acima da cruz no carro em que desfilei.

Fui daquele jeito exatamente para dizer que quero  meus direitos, quero ter mais paz, mais amor e menos ódio. Alguns pastores compartilharam minha imagem colocando-a ao lado de outras fora do contexto da Parada Gay deste ano, fazendo lavagem cerebral sobre o protesto que era de amor e respeito. Garanto que nunca quis ferir nenhuma religião, mas sei que há quem se aproveite da educação precária de nosso país para fazer distorções a seu favor. Mesmo que tivesse representado Jesus, qual seria o problema?

Já vi TV evangélica fazendo série com atores e atrizes representando Jesus, Moisés... Toda Páscoa vemos atores e atrizes representado o mesmo e por que eu não poderia, se fosse o caso? A resposta é preconceito. Só a isso se resume. Se Deus ama a todos sobre todas as coisas, todos são todos, não apenas quem é de uma única religião.

O problema é que pessoas preconceituosas e maldosas usam trechos separados da “Bíblia” para pregar ódio. Sou uma atriz, uma artista, há muitos anos. E tenho o direito de protestar da forma que eu achar certa sim. Vivemos num estado que dizem ser laico. Será? Vivemos num país democrático mesmo? Será?

São perguntas que deixo para reflexão. É isso o que pretendo e não me promover. O que é importante? Ver pessoas morrendo  humilhadas sem oportunidades ou ver bem todos bem, com direitos iguais?

O que eu vejo é falta de respeito ao próximo, racismo, machismo, agressões contra mulheres, transfobia, homofobia. As pessoas parecem viver num mundo de mentiras, não gostam de ver a real verdade que está na sua frente e preferem ser hipócritas, fechar os olhos para tanto desrespeito ao próximo. Infelizmente essa é a  realidade deste país que queremos que mude para que todos tenhamos direitoa respeito e cidadania.