Medo do zika e falta de vacina geram corrida do ouro farmacêutica

Rebecca Spalding e Albertina Torsoli

Bloomberg

  • Arnulfo Fraco/ AP

Antes de ficar conhecido como um vírus mortal, zika era apenas o nome de uma exuberante floresta que margeia o Lago Vitória, um tranquilo santuário perto da Tanzânia e de suas minas de ouro.

Na atualidade, o vírus desencadeou sua própria corrida do ouro: as empresas estão fazendo propaganda de produtos, desde vacinas que sequer foram testadas em ratos até aparelhos que filtram o zika do sangue, e deixando para os especialistas em saúde pública a tarefa de determinar quais propostas podem ajudar a interromper a propagação explosiva da doença transmitida por mosquitos.

Mais de 15 empresas têm mantido contato com a OMS (Organização Mundial da Saúde) para o desenvolvimento de vacinas e cerca de 20 estão trabalhando em ferramentas de diagnósticos, disse a agência internacional de saúde na sexta-feira. Juntamente com a francesa Sanofi, que comercializa uma vacina contra um vírus similar, há pequenas empresas como as norte-americanas Inovio Pharmaceuticals e GeoVax Labs e as produtoras de kits de testes vendidos aos laboratórios por apenas 6 euros (US$ 6,80) cada.

"Todos estão entrando no jogo para fazer algo", disse Richard Kuhn, diretor de ciências biológicas da Universidade Purdue, cujo laboratório estuda vírus transmitidos por mosquitos como a dengue, uma prima do zika, há mais de uma década. "É fácil fazer alguns experimentos rápidos e demonstrar algum tipo de diagnóstico muito promissor ou até mesmo algo que poderia parecer uma vacina. Mas tomar isso e realmente levar adiante é algo que demanda enormes infraestrutura, expertise e dinheiro".

A preocupação em relação ao avanço do zika das florestas de Uganda e da Tanzânia, onde ele foi identificado em seres humanos pela primeira vez em 1952, para a Ásia e por toda a América do Sul, a América Central e o Caribe, está fazendo com que os governos ofereçam dinheiro a pesquisadores empreendedores. O presidente dos EUA, Barack Obama, planeja pedir ao Congresso americano US$ 1,8 bilhão em financiamento de emergência.

Na Inovio, de Plymouth Meeting, Pensilvânia, o CEO J. Joseph Kim comemora a onda de interesse corporativo.

"Vamos dizer que somos oportunistas. Vamos pelo inverso", disse ele, em entrevista por telefone. "Vamos dizer que a Inovio usa seus recursos para ir atrás desse vírus. Em que tipo de mundo estaríamos vivendo?".

Liderando a iniciativa

A Sanofi levou duas décadas para desenvolver a primeira vacina contra o vírus da dengue e serão necessários pelo menos três anos para finalizar os testes clínicos de uma vacina para o zika, estima a maior fabricante de medicamentos da França. Kim calcula que a Inovio provavelmente poderá superar os prazos tradicionais usando a vacina de DNA. A dose experimental para o zika que a empresa está testando em ratos em colaboração com a sul-coreana GeneOne Life Science poderia ser injetada em seres humanos no final deste ano, disse ele. As ações da Inovio subiram 20 por cento nas últimas quatro semanas.

A Bharat Biotech, de Hyderabad, na Índia, começou a trabalhar no vírus há um ano, disse o CEO Krishna Ella, em entrevista. Muitas outras empresas que estão embarcando no desenvolvimento de produtos para o zika estão começando do zero, segundo Farshad Guirakhoo, vice-presidente sênior de pesquisa e desenvolvimento da GeoVax, de Smyrna, Geórgia, nos EUA, que está trabalhando em uma vacina em colaboração com a Universidade da Geórgia.

Como a vacina está a anos de distância, a necessidade mais urgente para entender e combater o zika é o diagnóstico.

A alemã Genekam Biotechnology faz parte de um pequeno grupo de empresas que diz ter desenvolvido uma ferramenta para isso -- de fato, a empresa afirma que seu kit de diagnóstico poderia ser o único confiável.

"A virologia é um campo muito difícil", disse o fundador da empresa, Sudhir Bhatia, por telefone. "Há empresas que realmente nunca lidaram com um vírus. Elas não podem realizar bons testes".

Outras empresas estão simplesmente aproveitando o embalo do surto do zika. A Female Health Company, uma fabricante de preservativos para mulheres, diz que seu produto pode ter um papel importante na prevenção da infecção depois que alguns países aconselharam as mulheres a adiarem a gravidez. O FC2, como o produto é conhecido, é "um excelente método para evitar a gravidez com vista ao vírus zika" e tem aparecido em emissoras de alcance nacional no Brasil como um contraceptivo, disse o CEO O. B. Parrish, em uma teleconferência, na semana passada.

 

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