Preciso mesmo tomar vacina? Quando a decisão pessoal chega à saúde pública

Paula Moura

Do UOL, em São Paulo

  • Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem

O que o surto de doenças como caxumba e sarampo em países desenvolvidos e o surto da febre amarela no Brasil têm em comum? A forma de transmissão da doença é diferente (febre amarela depende do mosquito e as outras são transmitidas via contato), mas todas são creditadas à falta de vacinação de parte da população.

No caso do Brasil, grande parte da população em áreas onde há risco de contrair a doença não estava vacinada, o que facilitou a proliferação da doença.

O crescente movimento anti-vacinação --em que os pais optam por não vacinar seus filhos-- nos EUA e na Europa é considerado pela comunidade científica como responsável pela volta de doenças erradicadas há tempos, como o sarampo.

Os riscos de não cumprir o calendário de vacinação de crianças e adultos podem ser de sequelas graves e até a morte, para quem não toma a vacina e também para vítimas de doenças que haviam sumido.

O ato de vacinar não é só um ato de você cuidar da sua saúde, mas da de quem está em volta. Posso adoecer meu irmão mais novo, meu avô, que são pessoas que tem o sistema imune mais baixo."

Carla Domingues, do Ministério da Saúde

Para as doenças de vacinação infantil obrigatória, o Brasil tem uma cobertura de 95%, mas para doenças como HPV e febre amarela (recomendada para 3.500 municípios), por exemplo, a porcentagem é bem menor. Nas áreas endêmicas em Minas Gerais, por exemplo, 47,4% dos municípios tinham menos da metade do público alvo vacinado em 2016.

A disparidade de vacinação também atinge outras doenças, como hepatite A e até mesmo poliomielite. No caso da primeira, os dados preliminares do Ministério da Saúde mostram que a maioria dos municípios não alcançou 95% das crianças até um ano vacinadas em 2016. Em relação à poliomielite, os dados mostram que 62,12% dos municípios estão abaixo da meta. 

Lugares com menos de 90% das pessoas vacinadas não são consideradas protegidas e as doenças podem se espalhar.

Mesmo que no Brasil uma doença como o sarampo esteja erradicada (não há casos de contágio dentro do país), outros países ainda têm a doença. No caso da poliomielite, ainda existente no Paquistão, Afeganistão e na Nigéria, a mesma coisa.

Noorullah Shirzada/AFP
Agente de saúde aplica vacina contra a poliomielite em criança afegã

"Posso não ir ao Paquistão, mas encontrar com alguém de lá em Paris ou mesmo no Brasil. Hoje com esse fluxo de pessoas, posso ter contato com uma pessoa doente sem saber", diz Carla Domingues, coordenadora do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde.

Movimento anti-vacinação

Por aqui, o movimento anti-vacinação é considerado pequeno pelo Ministério da Saúde em comparação a desafios como expandir a vacinação do calendário infantil para a imunização de 95% de adolescentes e adultos. Mas estudos nos últimos 15 anos mostram uma tendência de rejeição à vacinação em São Paulo, por exemplo.

Eu li bastante coisa e o que falava era a vacina protege até a página 2. Ela pode diminuir o efeito de uma doença. Eu entendo que o corpo combater uma doença é você ter imunidade. Se a imunidade está alta, não tem problema"

Valéria*, que escolheu não dar algumas vacinas para o filho de 4 anos e meio

Mãe de gêmeas de 3 anos que nunca vacinou, Maria*, 26, também questiona a vacinação. "O pai delas não foi vacinado, tem 34 anos", diz. "Doenças como a poliomielite, que já está erradicada no Brasil, os casos de paralisia são muito raros, mesmo em quem contrai a doença é só 1% que fica com paralisia", diz.

Trump e a vacina

Nos Estados Unidos, o debate sobre a obrigatoriedade da vacinação e o movimento pró-escolha ganhou mais força com a eleição de Donald Trump à presidência.

Declarações feitas pelo advogado Robert Kennedy Jr. de que Trump iria criar uma comissão para estudar a segurança das vacinas e a integridade científica levou a revista Nature a publicar um editorial defendendo as pesquisas científicas existentes sobre o tema.

Segundo a revista, em 2014, o sarampo afetou 667 pessoas nos EUA, principalmente as que não foram vacinadas. Em 2011, foram 16 surtos de sarampo, 107 pessoas afetadas e um gasto de US$ 5,3 milhões aos cofres públicos americanos.
 


Além de tuitar em 2014 sobre a ligação entre vacinas e autismo, Trump se encontrou com Andrew Wakefield, médico britânico com licença cassada cujo estudo associando a vacina tríplice a autismo foi rechaçado pela comunidade científica por conter erros.

O editorial da Nature cita uma pesquisa realizada em 2015 com 95 mil crianças que provou não haver evidência alguma de que a vacina tríplice eleva o risco de autismo, mesmo entre crianças com histórico familiar da doença.

Até que ponto é uma decisão individual?

Getty Images
Cobertura de vacinação infantil no Brasil é de 95%. Desafio do Ministério da Saúde é expandir para adolescentes e adultos

Uma criança saudável precisa se vacinar? Segundo os especialistas ouvidos pelo UOL, sim. A presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, enfatiza que "o que faz o corpo se proteger são os anticorpos, que é o que a vacina faz você produzir". Ela lembra que até os atletas têm um calendário específico de vacinação. "Quer mais bem alimentado e mais saudável do que atleta?"

A maior parte das vacinas contém o antígeno morto. O antígeno enfraquecido está em vacinas como sarampo, caxumba, rubéola, febre amarela, rotavírus e varicela. "O antígeno vivo ou morto vai confundir o sistema imunológico, que vai achar que é o vírus ou a bactéria de verdade e vai produzir anticorpo. Quando você entrar em contato com o verdadeiro que causa a doença, você já tem anticorpo", explica Isabella.
 

Atualmente, são 14 vacinas no calendário do Ministério da Saúde para crianças, oito para adolescentes e adultos, e cinco para idosos. Todo ano no mês de janeiro o calendário é revisto e geralmente ampliado. 

A vacinação em dia é condição para receber o Bolsa Família até a criança completar 7 anos. Não há uma regra de punição para pais que não vacinam, o Ministério da Saúde prefere focar no convencimento. No entanto, em 2013, os pais de duas crianças foram obrigados a vacinar os filhos pelo Conselho Tutelar

A questão é que a vacina é uma ferramenta de saúde pública, pois não apenas protege a pessoa imunizada, mas reduz a chance de exposição a uma doença da população a seu redor. Um caso comum é o de adolescentes que carregam a meningite, mas não ficam doente e acabam infectando outras pessoas. A vacina contra a meningite tem validade de 5 anos.

São poucos os casos em que não é recomendável tomar vacina, como quem tem doenças autoimunes ou doenças graves, cujos pacientes precisam consultar o médico para saber se pode tomar vacina, além de pessoas alérgicas a ovo, que não podem tomar algumas vacinas de vírus atenuado.

Se cinco pessoas não tomaram vacina é uma coisa. Se mil não tomarem, a gente vai acumulando os bolsões suscetíveis e é um prato cheio para vírus e bactérias entrarem e começa surto das doenças de contato pessoa a pessoa" Carla Domingues, coordenadora do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde

Argumentos contra vacinas

  • Um dos argumentos a favor de que as crianças não sejam vacinadas de acordo com o calendário do Ministério da Saúde é que ele faz com que muitas vacinas sejam dadas de uma só vez, sobrecarregando o sistema imunológico.

A pediatra homeopata Liliane Azambuja, do Centro Clínico da PUC do Rio Grande do Sul, relaciona a quantidade de vacinas dadas na primeira infância ao aumento de doenças alérgicas e autoimunes. Para ela, a vacinação poderia ser mais espaçada.

No entanto, a ideia é controversa. Isabela Balallai considera que a vacina ajuda o sistema do bebê. "A criança precisa de estímulo para sistema imunológico. Você tem muito mais risco de se expor a agentes infecciosos num shopping do que com uma vacina."

  • A existência de metais como o alumínio nas vacinas também é questionada e apontada como fonte de efeitos colaterais.

Reinaldo de Menezes Martins, consultor científico da Fiocruz Bio-Manguinhos, maior laboratório brasileiro de vacinas, diz que o alumínio pode causar reação e dor locais, mas são eventos transitórios.

  • Outro argumento é que não há testes depois que são colocadas no mercado.

O especialista da Fiocruz explica que após uma vacina entrar no mercado são feitos estudos de pós-comercialização, que avaliam os eventos adversos raros, que podem ter passado desapercebidos durante as fases de estudo clínico, e também o impacto da vacina na incidência da doença.

"Quando o Ministério da Saúde define uma vacina para entrar no calendário nacional de vacinação é porque essa doença tem uma carga muito importante. Ela tem elevado número de óbitos, internações, complicações como surdez, cegueira, paralisia, problemas respiratórios, neurológicos", diz Carla, do Ministério da Saúde.

"Vão evitar que as pessoas adoeçam, vão evitar complicações, e principalmente que as pessoas morram por essas doenças."

* Nomes trocados a pedido das entrevistadas.

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