Mães percorrem dezenas de quilômetros e ficam no corredor para dar à luz

Colaboração para o UOL, em João Pessoa

  • Assuero Lima/UOL

    Luciana da Silva há dois meses percorre 50 km para fazer pré-natal em João Pessoa

    Luciana da Silva há dois meses percorre 50 km para fazer pré-natal em João Pessoa

Grávida do sétimo filho, a dona de casa Luciana da Silva, 29, há dois meses, sai de Rio Tinto (PB) para fazer o pré-natal em João Pessoa. Para percorrer os 50 km de distância entre os dois municípios em transporte alternativo, paga R$ 100.

Ela tira o dinheiro do apertado orçamento doméstico --sem trabalhar, recebe R$ 280 do Bolsa Família e o marido faz alguns "bicos".

Embora cansada, ela não reclama e prefere ir à capital para cuidar da gravidez de alto risco. No final de março, ficou sabendo que estava com plaquetas baixas e hipertensão, fatores que exigem um acompanhamento mais rigoroso e podem causar complicações na hora do parto.

Histórias como a de Luciana se repetem nas enfermarias e nas salas de espera do Instituto Cândida Vargas, em João Pessoa.

Além de ser unidade de referência, o hospital é para algumas gestantes a única alternativa, já que a maioria das cidades da Paraíba não contam com maternidades.

No Cândida Vargas, cerca de 55% dos partos realizados são de mulheres que não moram em João Pessoa, segundo explica o diretor técnico Juarez Álvares Augusto. 

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Com contrações e 39 semanas de gestação, Cristiane Soares da Silva saiu de Itapororoca, a 70 km de João Pessoa, antes de ter a filha, Tauane Sofia
É o caso da agricultora Cristiane Soares, 33, que, sofrendo as contrações de uma gravidez de 39 semanas, saiu de Itapororoca, a 70 km de João Pessoa, onde não há atendimento para grávidas, e foi para o Hospital Regional de Mamanguape.

Chegando lá, também não conseguiu atendimento e foi encaminhada para João Pessoa.

Ela e o marido pagaram R$ 80 em transporte alternativo porque não havia ambulância para levá-los. "É uma dificuldade grande que a gente enfrenta, mas infelizmente não temos opção. Ou vem para João Pessoa ou vai parir em uma calçada qualquer", disse.

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Quando a bolsa rompeu, Maria José estava a 75 km da maternidade onde teve Davi
Maria José Soares, 35, também sofreu para ter Davi, que nasceu prematuro, com 32 semanas.

Quando a bolsa rompeu, estava em sua casa, em Lagoa de Dentro, a 75 km da capital. Teve de passar por dois hospitais em cidades próximas até conseguir atendimento em João Pessoa.

Ainda sem previsão de alta, Maria José lamenta ter de ficar longe da família enquanto aguarda o filho ganhar peso. "O pior é ficar pagando passagem para lá e para cá", reclama.

Desembarque em trabalho de parto e com dor

Permanecer na entrada do Instituto Cândida Vargas por alguns minutos já é o suficiente para entender o problema da falta de maternidades no interior da Paraíba.

A chegada de grávidas acontece a todo momento e das mais diferentes formas: em ambulância, em carro particular ou em transporte alternativo.

Muitas mães já desembarcam em trabalho de parto e com dor.

Segundo o diretor da maternidade, todas as pacientes são acolhidas e passam pela triagem.

Mas há quem seja mandada de volta para casa, porque não tem dilatação suficiente para fazer o parto normal, situação que costuma causar revolta entre familiares.

Ele defende a instituição: "Não podemos internar todas as pacientes. O trabalho de parto pode durar muitas horas. Se todas as mulheres ficarem internadas, a superlotação se tornará um problema ainda mais grave".

Mensalmente, a maternidade realiza cerca de 12 mil atendimentos, incluindo consultas de pré-natal.

Em termos financeiros, todos os atendimentos da maternidade são ressarcidos pelo Ministério da Saúde. "A superlotação exige uma revisita para as altas, visando gerar novas vagas. Claro que a mulher só recebe liberação se estiver em condições para isso", declarou.

Fato é que os 180 leitos do instituto estão ocupados a maior parte do tempo.

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Aline Mendes amamenta Heitor em um leito no corredor
Maternidade põe mães e bebês no corredor

No corredor da Maternidade Estadual Frei Damião, também em João Pessoa, o pequeno Heitor, com apenas seis horas de vida, se esforça para mamar.

A mãe, Aline Mendes, 29, fez cesárea e se diz contente, apesar de estar deitada em um leito no corredor, por onde todos passam.

"Eu sou de Alhandra, onde não há maternidade, e nos últimos três meses morei com minha mãe em Goiana (PE), onde todo mundo reclama do atendimento, por isso preferi vir para cá. Não tenho do que me queixar, estou sendo bem tratada", afirmou.

Perto dela, em outro leito no corredor, Jailma Sousa, 20, segura o filho Rhuan no colo, nascido de parto normal três horas antes da visita da reportagem.

Moradora da cidade de Bayeux, na região metropolitana de João Pessoa, Jailma disse que não se sentia segura em ter o filho em outro lugar: "Aqui em João Pessoa as maternidades são mais preparadas, todo mundo quer vir para cá".

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Jailma Sousa ao lado da mãe, Maria do Carmo e do filho Rhuan, nascido de parto normal
Gestora vê "inchaço" nas unidades

A diretora Ana Márcia Fernandes, da Maternidade Estadual Frei Damião, reconheceu a superlotação, mas disse que é consequência da política de "porta aberta", sem necessidade de encaminhamento prévio.

"Somos referência em alto risco aqui na Paraíba e a maternidade atende um fluxo de porta aberta", diz Ana Márcia. "Hoje a gente vive com uma estrutura 'inchada' em todas as maternidades, então geralmente aonde a grávida chega ela fica. A ideia é que a grávida não fique peregrinando de um lugar para o outro."

O fluxo de mulheres de outros municípios também é frequente, chegando a representar cerca de 40% dos atendimentos. São apenas 68 leitos e uma média de 300 partos por mês.

A falta de UTIs (Unidade de Tratamento Intensivo) maternas e neonatais entre as outras 18 maternidades no Estado acaba sendo mais um motivo para a superlotação dessas duas unidades na capital.

Na avaliação da diretora, municípios menores complicam a situação ao não cumprir com o que foi firmado. "O valor do repasse é muito pequeno. Mas, seja pouco ou muito, já ajudaria. Isso não é um problema do Estado enquanto gestor, pois os 223 municípios paraibanos são gestores plenos", destacou. 

O UOL tentou contato com a Federação das Associações de Municípios da Paraíba, mas as ligações não foram atendidas.  

Sobre as pacientes encontradas pela reportagem que deveria ter sido atendidas no Hospital Regional de Mamanguape, mas estavam no Instituto Cândida Vargas, a Secretaria Estadual de Saúde informou que o Hospital de Mamanguape funciona com estrutura adequada para o parto habitual, ou seja, "não é uma maternidade para atendimento de alto risco, sendo essas usuárias encaminhadas para a unidade de referência".

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