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"Nunca liguei para camisinha", diz idosa de 67 anos diagnosticada com HIV

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Imagem: iStock

Fabiana Marchezi

Colaboração para o UOL

16/10/2017 16h28Atualizada em 16/10/2017 20h05

"Fiquei desesperada. Nunca pensei em passar por isso". Com essas palavras a costureira Maria, de 67 anos, definiu o choque de ser diagnosticada com HIV. “Quando eu pensei que estivesse chegando à fase mais tranquila da minha vida, descobri que deveria ter me prevenido mais. A gente nunca acha que vai acontecer com a gente. Nunca liguei para camisinha”, acrescentou. A entrevistada não quer ser identificada.

O caso da costureira serve de alerta para o aumento no número de idosos infectados pelo vírus da Aids. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde, entre 2007 e 2015, o número de pessoas com mais de 60 anos infectadas subiu de 3,3 para 5,3 para cada 100 mil habitantes, o que representa um aumento de 60,6% em apenas oito anos, no Estado de São Paulo. Em todo o país, foi registrado um aumento de 29,4% no número de casos de HIV entre idosos de 2014 para 2015. Segundo o Ministério da Saúde, foram 771 novos casos em 2014, enquanto no ano seguinte foram 998 novos casos. Já em 2016, até junho, 437 novos casos foram informados ao órgão.

Segundo Lis Aparecida de Souza Neves, coordenadora do Programa de DST/Aids, Tuberculose e Hepatites Virais de Ribeirão Preto, a explicação para esse contexto está relacionada ao comportamento. “Hoje, notamos que os idosos têm mais qualidade de vida, saem mais, aproveitam mais a vida. Eles têm mais momentos de lazer e isso também inclui a questão sexual, inclusive por conta dos estimulantes sexuais. O problema é que eles não têm o hábito de falar de sexo, tampouco de usar preservativos. Se entre os jovens o uso da camisinha muitas vezes ainda é ignorado, entre os mais idosos é ainda mais difícil”, comenta Lis.

A especialista recomenda que as pessoas façam o teste, quando possível. “Quanto antes a infecção é diagnosticada e o tratamento iniciado, maiores as chances de controlar a infecção e a pessoa levar uma vida normal, sem que a infecção evolua para Aids", acrescentou.

É o caso de Maria. Apesar de tomar os remédios diariamente contra o HIV, ela não teve efeitos colaterais e vem conseguindo levar uma vida normal. Entretanto, depois que foi diagnosticada, nunca mais teve vida sexual ativa e sempre que pode tenta conscientizar amigos e familiares sobre a importância do uso da camisinha. Ela contou que descobriu a infecção depois de ficar 30 dias internada para tratar uma herpes severa, contraída também por conta de não usar camisinha.

“Infelizmente, quando eu tomei consciência da importância [de usar camisinha] já era tarde, mas sempre falo para amigos e familiares para que eles se previnam. O arrependimento é muito grande depois”, diz a costureira, que é mãe de três filhos e divorciada há 35 anos. Assim que se divorciou, Maria tinha uma vida sexual normal e teve alguns parceiros, mas nunca quis saber quem poderia ter transmitido o vírus a ela.

“Não adianta culpar ninguém. Eu deveria ter me prevenido. Buscar culpados não aliviaria meu sofrimento. Mas hoje, graças aos medicamentos e ao diagnóstico precoce, consigo levar uma vida normal”, concluiu.


Outros grupos que preocupam

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, entre 2004 e 2014, verifica-se aumento do número de casos de Aids entre homens que fazem sexo com homens.
Desde 1980, foram notificados no Estado, 147.730 casos de Aids em pessoas do sexo masculino com 13 anos ou mais; cerca de 30% deles enquadram-se na categoria de exposição. Em 2004, esse grupo correspondia a 28,1% dos casos. Já em 2014, o percentual disparou para 44,8%.

Ainda conforme o órgão, o número de casos em homens jovens, com idades entre 20 e 24 anos, também tem crescido. Subiu de 15,5 em 2004 para 31,3 em 2014 para cada 100 mil habitantes. Nas demais idades, os casos têm diminuído ou estão estáveis. Os dados apontam a grande vulnerabilidade de adolescentes e jovens gays para a infecção pelo HIV.