Maconha legalizada entra na rotina dos escritórios de Nova York

Wanderley Preite Sobrinho

Colaboração para o UOL

  • Leonardo Benassatto/Frame Photo/Estadão Conteúdo

A descriminalização da maconha no Estado de Nova York e o surgimento de cachimbos vaporizadores, que praticamente não deixam cheiro no ar, vêm disparando o consumo da erva no ambiente de trabalho. De acordo com o Grupo Blanc - um dos defensores da indústria da cannabis -, já são mais de 6.000 fornecedores de cachimbos inodoros nos cinco distritos da cidade de Nova York, a maior dos Estados Unidos.

"Eu tenho um trabalho de alta pressão", contou Amy, dona de uma startup com mais de dez funcionários. Quando o expediente está mais agitado do que o normal, a empreendedora de 40 anos corre para um beco em frente a seu escritório e tira da bolsa seu vaporizador. Ela passa 20 minutos tragando e fazendo ligações para o contador, advogado e até para o pai.

Amy faz parte de uma legião crescente de nova-iorquinos que fumam no trabalho. "Eu não tenho vergonha", disse ela. "Não acho que [fumar durante o expediente] deva ser um estigma. Se eu não dissesse, ninguém saberia", disse ao New York Post.

Bethany Gomez, do grupo Brightfield, uma empresa de pesquisa de mercado, estima em 30 milhões o número de usuários adultos de cannabis nos Estados Unidos. Desses, 10 milhões preferem cachimbos que inibem o cheiro. "Embora não tenhamos estatísticas sobre o número de pessoas que usam vaporizadores no trabalho, é lógico que existem milhões [fazendo isso] regularmente", diz o consultor.

Neurocientista e pesquisador do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Renato Filev explicou ao UOL que existe uma divisão entre os usuários que acreditam que a maconha auxilia na realização das atividades profissionais e aqueles que relatam exatamente o oposto. "O primeiro grupo fala em aumento da criatividade, foco e redução da ansiedade", diz. "O segundo em dispersão, distração e procrastinação." 

Filev lembra que é bastante comum que funcionários façam uso de substâncias como café, álcool, anfetaminas, cigarros, tranquilizantes. "O que acontece em Nova York é que o uso de vaporizadores pacifica essa questão da vigília social em relação à maconha por eliminar o cheiro."

Esses cachimbos são alimentados por uma bateria recarregável e usam um dispositivo interno que aquece a maconha triturada de modo que os óleos essenciais com o princípio ativo sejam liberados em forma de vapor. De acordo com Bethany Gomez, o vaporizador também elimina a letargia, reduz a fome exagerada [a famosa larica] e os olhos não ficam vermelhos.

"Se eu tenho uma apresentação e estou nervosa, vou dar um trago. Isso ajuda na concentração e me acalma", diz Gomez, que nega qualquer prejuízo ao trabalho, mas admite que "é um tabu informar os clientes [que eu fumo no escritório]".

Enquanto isso, os chefes engravatados criticam a novidade. No mês passado, Tony, um chefe de construção de 32 anos de Yonkers, NY, participava de um projeto quando flagrou um empregado vaporizando maconha no telhado do prédio. Ele despediu o funcionário ali mesmo.

"Ele poderia colocar nós todos em perigo. Você se abre para acidentes. Todo o trabalho pode ser prejudicado", disse Tony. "Você precisa estar 100% alerta em todos os momentos porque há riscos: você está chapado fazendo uso de maquinário pesado. E isso está acontecendo por toda a cidade."

Para o neurocientista brasileiro, o usuário precisa cuidar da redução de danos. "Como para algumas pessoas a maconha aumenta a distração, uma sugestão é evitar o uso de máquinas que podem trazer risco à saúde porque isso pode ser fatal."

A maconha é legalizada no Estado de Nova York para uso médico e para posse de até 25 gramas. "As pessoas não entendem a diferença entre a descriminalização da maconha e seu uso no trabalho. Você pode ser demitido por fumar ali", afirmou o advogado Robert Ottinger, que contabiliza um número cada vez maior de trabalhadores que acabaram na rua por usar seu vaporizador no escritório. "Nós não recebíamos esse tipo de causa há cinco anos, e agora atendemos algumas delas em apenas um mês."

Steven, de 28 anos, diz que fuma no escritório "o dia todo". "Meu chefe sabe e meu desempenho está bem acima do padrão", afirmou o rapaz, que trabalha com o financiamento de pequenas empresas. "Ela me ajuda a relaxar e ficar mais espontâneo - e isso é bom no trabalho."

No Brasil, o assunto é ainda mais polêmico e o consumo não é legalizado. "Temos uma situação de proibicionismo no país", diz Filev. "A sociedade acredita que proibir algumas drogas protege a saúde pública. Por mais desconexo que seja - porque ela onera o Estado e sobrecarrega a saúde pública -, a compreensão baseada na moral e nas crenças eleva as drogas a um patamar de tabu, preconceito e pecado."

A solução, ele acredita, é a conscientização social que leve a uma mudança de mentalidade, como acontece com as substâncias regulamentadas. "Em outros países já existe a compreensão de que o proibicionismo está ruindo o Estado. O debate precisa ser ampliado não só para falar dos benefícios e malefícios da maconha, mas também das que são legalizadas. O tabaco, por exemplo, é um bom exemplo de droga regulamentada. As mudanças na lei nos anos 90, que restringiram a propaganda e locais de uso, reduziram o consumo do cigarro em 50%."

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