Um em cada quatro brasileiros precisa tomar vacina da febre amarela

Larissa Leiros Baroni

Do UOL, em São Paulo

Ao menos um em cada quatro brasileiros ainda precisa tomar a vacina contra a febre amarela. A estimativa corresponde aos 55,7 milhões de moradores dos 1.586 municípios que não integravam as áreas em que a imunização era recomendada pelo Ministério da Saúde até o ano passado. A recomendação será estendida a todo território nacional até 2019.

O cálculo é aproximado, já que nesse universo encontram-se pessoas para quem a vacina da febre amarela é contraindicada, como menores de nove meses e portadores do vírus HIV. Por outro lado, ainda é grande o número de moradores de municípios que já oferecem a vacina, mas não foram imunizados. 

Em Rio de Janeiro e em São Paulo, por exemplo, que desde janeiro oferecem a vacina em todas as cidades, o percentual de imunizados, respectivamente 41% e 52%, ainda está muito distante da meta oficial, 95%. Na Bahia, que ampliou a vacinação em fevereiro, a cobertura é de 55% da população alvo. Nesses três estados, até 10 de abril, estimavam-se em 19,1 milhões o número de pessoas que ainda precisavam se vacinar.

Em Minas Gerais, estado onde todos os municípios têm recomendação de vacinação há dez anos, ainda há 1,6 milhão de pessoas não imunizadas, especialmente na faixa etária de 15 a 59 anos - justamente a mais acometida pela epidemia de febre amarela silvestre de 2017.

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Ampliação gradual

Com 1.157 casos confirmados e 342 óbitos ligados à doença entre 1º de julho de 2017 e 17 de abril neste ano, o Brasil vive o pior surto de febre amarela em décadas.

"Já vínhamos acompanhando o avanço do vírus pelas áreas de matas e sabíamos que ele podia se aproximar das grandes metrópoles, mas não esperávamos que seria tão rápido", disse Claudio Maierovitch, sanitarista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) ex-diretor de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde.

Com o avanço da doença, o Ministério da Saúde anunciou um calendário de ampliação da vacina para todos os municípios do país.

Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul terão campanha em todas as cidades a partir de julho, com estimativa de doses aplicadas a 11,3 milhões de pessoas. E em janeiro de 2019, serão vacinados os moradores de Piauí, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte, totalizando mais 25,3 milhões de vacinados. 

A vacina da febre amarela foi implementada no Brasil no ano em que foi criada, 1937, mais de dois séculos após a primeira epidemia descrita no país - em 1685, em Recife. E, desde 1997, a área de vacinação vem se expandindo, à medida que o vírus avança sobre outras regiões.

Por que não antes?

Maierovitch afirma que, antes desta última epidemia, grupos de pesquisa já estudavam a inclusão da vacina contra a febre amarela no calendário infantil do Programa Nacional de Imunização. "Mas medidas emergenciais tiveram que ser adotadas", disse o pesquisador da Fiocruz.

Marcos Boulos, chefe da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, defende que expandir a vacina antes teria sido imprudente. "A vacina tem riscos que só se justificam quando os riscos da doença são mais expressivos. Como é o caso atual", afirmou o infectologista.

As reações adversas à vacina --como dores de cabeça, no corpo e febre -- podem afetar entre 2% e 5% dos vacinados nos primeiros dias após a imunização. Já as mortes decorrentes da vacina só correm em uma em cada 400 mil doses aplicadas, o que equivale a 0,00025% dos casos, segundo a Fiocruz.

Em contrapartida, cerca de 10% dos infectados pelo vírus da febre amarela desenvolvem a forma grave da doença - que mata em até 14 dias entre 30% e 60% dos pacientes que chegam a esse estágio. 

Baixa procura pela vacina

Mas não é só o medo das reações à vacina que explica a baixa adesão às campanhas. Os especialistas ouvidos pelo UOL elencaram ainda outros fatores - do fim da sazonalidade da doença à falta de informações consolidadas no país.

"Muitos esquecem que um novo verão vai chegar, e aí pode ser tarde demais", disse Boulos, da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo.

O diretor do Núcleo de Estudos e Publicações da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, Marco Aurélio Sáfadi, destaca que apenas 41% das Unidades Básicas de Saúde têm prontuário eletrônico. "Informação é essencial para que problemas sejam identificados e que estratégias sejam traçadas", avalia. 

Por fim, o pesquisador da Fiocruz, Maierovitch, fala da carência de agentes de saúde da família como outro empecilho ao sucesso das campanhas. "A maior emergência continua sendo as pessoas que vivem próximas a áreas de mata. O ideal seria que esses profissionais batessem de casa em casa para garantir que todos sejam imunizados", opinou o especialista.

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