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Brasil terá reator nuclear multipropósito: para que serve e como funciona

Sala de manipulação de radiofármacos no Instituto do Câncer de São Paulo: insumos hoje em dia são importados - Cesar Itibere/PR
Sala de manipulação de radiofármacos no Instituto do Câncer de São Paulo: insumos hoje em dia são importados Imagem: Cesar Itibere/PR

Fernando Cymbaluk e Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

12/06/2018 04h01

O governo federal anunciou na última semana a construção do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), no interior de São Paulo, planejado para entrar em operação em 2024. Conhecidos pelas polêmicas envolvendo bombas atômicas, os equipamentos nucleares também produzem substâncias úteis para o tratamento e o diagnóstico de diversas doenças, incluindo o câncer.

Isso porque, por meio da tecnologia nuclear, é possível obter radiofármacos - substâncias radioativas que, sozinhas ou combinadas, o paciente inala, bebe ou recebe por meio de injeções. Dentro do corpo, a radiação emitida permite a equipamentos potentes mapear o funcionamento de estruturas do corpo ou ainda age diretamente sobre órgãos como a tireoide e a próstata, tratando o câncer.

De alto custo, a substância radioativa utilizada nos centros médicos do Brasil atualmente é importada. Para acabar ou pelo menos diminuir a dependência do exterior, foi anunciado o investimento de R$ 750 milhões no desenvolvimento do maquinário. Espera-se que o RMB forneça radiofármacos ao sistema público de saúde a preço de custo e reduza o risco de desabastecimento.

Medicina Nuclear

Os radiofármacos estão no coração de uma especialidade que tem crescido nos últimos anos, a medicina nuclear. Utilizadas principalmente para diagnósticos, substâncias como o tecnécio 99m são aplicadas para diagnósticos de "esqueleto e do miocárdio, em particular", diz o relatório da OIEA (Organismo Internacional de Energia Atômica).

Exames com radioisótopos também podem mostrar o funcionamento do interior do corpo humano. E, à diferença dos exames tradicionais de raios-x, "na cintilografia [um dos tipos de exame], a radiação está dentro do paciente", explica Jairo Wagner, da Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein.

Assim, aparelhos podem acompanhar o percurso da substância no interior do órgão graças à emissão de radiações gama. Na tela do computador, essa rota surge como pontos brilhantes. Os exames avaliam o metabolismo dos órgãos e possibilitam a detecção de disfunções e doenças, como metástases de tumores.

Temer recebe miniatura do Reator Multipropósito Brasileiro - Cesar Itiberê/PR - Cesar Itiberê/PR
Temer recebe miniatura do Reator Multipropósito Brasileiro
Imagem: Cesar Itiberê/PR
Mas o produto que sairá do novo reator não serve apenas para diagnóstico, mas também para tratamento. “Aí depende da dose e da substância associada a ela”, explica Heitor Naoki Sado, coordenador médico do setor de Medicina Nuclear do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo). “Usa-se puro, como sai da fábrica, ou o associa a algum fármaco, molécula."

Um exemplo de produto extraído do reator é o iodo radioativo, que serve tanto para diagnóstico quanto para o tratamento de alguns tumores em metástase e doenças de tireoide. "A gente usa o iodo em cápsula. Se associar a outra molécula, como o MIBG, já serviria para alguns tipos de tumores, principalmente o neuroblastoma, próximo ao rim, muito frequente em crianças", explica Naoki Sado.

Em cardiologia, essas substâncias radioativas são utilizadas em quem sofreu infarto. Aqueles que têm linfomas, câncer de mama, de próstata e pulmão também são beneficiados. A opção é ainda uma das formas mais precoces para diagnosticar doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

Esses remédios, no entanto, não serão encontrados na farmácia. "Apenas profissionais autorizados pelo Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear) e pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) podem comprar e utilizar esses medicamentos", diz o médico do Icesp.

"Esse reator é muito esperado pela medicina nuclear do Brasil", diz Naoki Sado. "Cresce a perspectiva de que tenhamos mais remédios à disposição, porque as opções utilizadas na Europa e Estados Unidos demoram para chegar ao Brasil por depender de importação e regulamentação."

Ele espera ansioso pela fabricação do Lutécio, um dos materiais radioativos previstos para ser fabricado no reator. É caro, não está no rol do SUS (Sistema Único de Saúde), mas é muito utilizado no tratamento de câncer de próstata. "Barateando o custo desse tratamento, ele será levado a mais gente."

A expectativa também é grande pela fabricação do Itrio, utilizado para tratar metástases de cânceres de intestino, mama e fígado. É mais eficiente do que a quimioterapia, mas é caro. "Hoje, só em hospital particular. Todo o tratamento de radioembolização hepática custa em torno de R$ 100 mil."

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil enfrenta dificuldades no abastecimento de radioisótopos e de radiofármacos desde 2009. Isso se deve ao fim das atividades do reator canadense que abastecia todo o mercado brasileiro e 40% do mundo.

Para Wagner, a fabricação nacional trará grandes benefícios para a medicina no Brasil. "Possibilitará reduzir custos e disponibilizar material em maior quantidade para os serviços de medicina nuclear do país", avalia o médico do Albert Einstein.

Serão produzidas armas nucleares?

Os reatores nucleares podem produzir substâncias para diversas aplicações, mas o que está sendo construído agora, como assegura o governo brasileiro, não tem finalidades de guerra.

No lançamento do reator, o ministro da Defesa, Joaquim Silva e Luna, ressaltou inclusive que o reator faz parte do programa nuclear da Marinha, voltado apenas para fins pacíficos. "Vale lembrar que o Brasil é um dos países mais atuantes na causa da não proliferação de armas nucleares", disse. 

Sem contar que, como signatário do tratado de não proliferação de armas nucleares, o Brasil não pode desenvolver nenhuma tecnologia nuclear para fins não pacíficos. Medida que está em vigor desde 1970. 

Ao todo, o RMB ocupará dois milhões de metros quadrados, que, além do reator, abrigarão laboratórios para o desenvolvimento dos radiofármacos, aceleradores de partículas e lasers de alta potência. "O reator terá, além do reator nuclear de pesquisa, toda uma infraestrutura de laboratórios, capazes de realizar testes de verificação dos efeitos da radiação", garantiu o ministro.