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Brasileiros descobrem ansiolítico que reduz ansiedade e ajuda a memória

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Imagem: iStock

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

19/06/2019 04h00Atualizada em 19/06/2019 12h11

Uma árvore popular entre o Nordeste e o Sul do Brasil pode guardar um dos segredos contra a ansiedade, um mal que atinge milhões de brasileiros. Uma pesquisa inédita da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) descobriu que compostos extraídos da corticeira são capazes de produzir um efeito ansiolítico que é capaz não apenas de combater a ansiedade como ainda melhorar alguns tipos de memória.

O Brasil vive uma epidemia de ansiedade. Cerca de 18,6 milhões de brasileiros, ou 9,3% da população, convivem com o transtorno, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde). Ao todo, a ansiedade atinge 322 milhões de pessoas em todo o mundo.

A pesquisa, conduzida pela bióloga Suzete Maria Cerutti e publicada pelo "European Journal of Pharmacology", não apenas reduziu os efeitos da ansiedade como melhorou a memória dos 80 ratos que passaram pelo experimento no Laboratório de Farmacologia Celular e Comportamental da Unifesp.

"A perda de memória é um dos principais problemas causados pelos ansiolíticos [medicamentos contra a ansiedade] que estão no mercado", afirmou ao UOL a pesquisadora, que iniciou seu estudo há 19 anos. Ela conta que começou em 2000 a extrair os compostos da corticeira e fazer uma série de testes para diferentes tipos de memória.

A gente queria entender se era possível combater a ansiedade sem prejudicar a memória. Nosso grupo isolou flavonoides da casca do caule de Erythrina falcata [o nome científico da planta] e avaliou seus efeitos na aquisição da memória do medo e na sua extinção.
Suzete Maria Cerutti, professora do departamento de Ciências Biológicas da Unifesp

Cerutti explica que os remédios tradicionais prejudicam a memória ao se ligar ao neurotransmissor GABA. "Os compostos da planta brasileira, o Isovitexin e o 6-C-glicosídeo-diosmetina, se ligam ao mesmo receptor, mas de maneira diferente, o que acreditamos ser o diferencial para não prejudicar a memória", diz.

A árvore

A Corticeira, também conhecida popularmente como Eritrina e Suinã, é uma planta ornamental que pode chegar a 25 metros de altura, e é encontrada em boa parte do Brasil. Seu uso contra a ansiedade já era conhecido pelos indígenas.

O composto é extraído da Corticeira, uma árvore ornamental também conhecida como Eritrina e Suinã - Wikimedia/Commons
O composto é extraído da Corticeira, uma árvore ornamental também conhecida como Eritrina e Suinã
Imagem: Wikimedia/Commons
O processo consistia em ferver as cascas da árvore para beber seu chá, que além do ansiolítico produz um efeito sedativo. "Nosso trabalho foi rastrear o efeito ansiolítico para garantir que o animal não estivesse sedado durante o estudo", diz a cientista.

O experimento

Depois de extrair os compostos, a equipe usou três testes para avaliar seus efeitos sobre a ansiedade e a memória de ratos. Primeiro, os pesquisadores ensinaram os animais a ter medo de um determinado lugar. "Avaliamos o comportamento deles ao evitar o local que sinalizava perigo, como o número de vezes que entravam ali e o tempo que permaneciam no local", diz.

O passo seguinte foi administrar a droga no animal. "O parâmetro da ansiedade é se, mesmo com aversão, ele procura aquele lugar. Os roedores têm medo de espaços abertos e altura. Ao expormos os animais a um lugar alto e aberto e ele vai até lá diversas vezes, fica ali e movimenta a cabeça para baixo, significa que ele não está mais ansioso."

E quando vira remédio?

O próximo passo é encontrar uma empresa que se interesse em produzir um remédio e comece a testá-lo em humanos. "Esse é um problema que ainda enfrentamos no Brasil: as poucas parcerias entre a indústria e a universidade."

Enquanto a Unifesp aguarda a parceria, os pesquisadores pretendem testar os efeitos das substâncias em animais utilizados como modelos da doença de Alzheimer.

Estamos avaliando outras plantas e dois modelos de Alzheimer. Se nossos estudos favoreceram a memória em animais saudáveis, será que em um organismo doente eles terão o mesmo efeito?
Suzete Maria Cerutti, professora do departamento de Ciências Biológicas da Unifesp

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