PUBLICIDADE
Topo

Morcegos no Brasil têm coronavírus diferente do que surgiu na China

Reprodução
Imagem: Reprodução

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

29/01/2020 15h06Atualizada em 30/01/2020 22h21

Resumo da notícia

  • Pesquisador Luiz Goes, da USP, identificou que morcegos no Brasil têm coronavírus
  • Mas de tipos diferentes do identificado na China e que vem se espalhando pelo mundo
  • Ainda não é possível saber se eles podem ser transmitidos para humanos

Os morcegos de florestas da Mata Atlântica têm coronavírus, mas ainda não se sabe se há possibilidade de contaminação por humanos. A descoberta foi feita por Luiz Goes, pesquisador e pós-doutorando do departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (Universidade de São Paulo) e da Plataforma Científica Pasteur USP.

Mas calma! Os tipos de coronavírus identificados em morcegos no Brasil são diferentes do que surgiu na China e que está se espalhando pelo mundo. O coronavírus pertence a uma família viral com alto poder de infectar humanos. A nova cepa descoberta no país asiático é a 2019-nCoV.

Goes estudou por quatro anos, em seu doutorado, as quatro espécies de coronavírus que circulam na população humana.

Posteriormente, Goes, em seu primeiro-pós doutorado, estudou a diversidade genética de coronavírus que circulam em morcegos do Brasil.

"Os morcegos do Brasil apresentam vírus relativamente relacionados a vírus de morcegos que já emergiram no mundo. Eles apresentam coronavírus de mesmo gênero, denominados Betacoronavírus", conta em entrevista ao UOL.

No ano passado, ele teve uma bolsa de pós-doutorado aprovada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e pretende agora descobrir se o coronavírus presentes em morcegos brasileiros apresentam o potencial de infecção de outros mamíferos, incluindo o homem.

Busco saber se temos algum coronavírus em morcegos do Brasil similares aos coronavírus emergentes SARS e MERS e se estes têm a capacidade de infectar células de outros mamíferos", explica.

Para ele, o Brasil está em risco de doenças zoonóticas, ou seja, transmitida inicialmente por animais, mas que depois passam a seres humanos. Ele lembra o caso recente da morte de um paciente por febre hemorrágica em São Paulo e culpa o avanço do homem sob florestas e o desmatamento como os maiores problemas.

UOL Explica - O que é o coronavírus?

Leia trechos da entrevista:

O que o senhor descobriu durante seu doutorado sobre os quatro tipos de coronavírus humanos?

Eles são responsáveis por infecções respiratórias de menor gravidade, como o resfriado comum, e circulam no Brasil. Depois passei a estudar a diversidade de coronavírus em morcegos do Brasil. Este da China é classificado como emergente, é mais letal do que os coronavírus que circulam mundialmente a cada ano causando infecções respiratórias. Os coronavírus que circulam em morcegos do Brasil têm potencial zoonótico ainda desconhecido.

Luiz Goes, pesquisador que descobriu a presença de coronavírus em morcegos no Brasil - Arquivo pessoal
Luiz Goes, pesquisador que descobriu a presença de coronavírus em morcegos no Brasil
Imagem: Arquivo pessoal

Como são esses tipos?

Os quatro tipos de circulação humana atual não são emergentes. São vírus humanos, que causam infecções respiratórias anualmente no mundo todo. Até existe uma possibilidade de alguns terem origem de transmissões de morcegos, mas hoje eles são vírus humanos. Os morcegos têm outros coronavírus, diferentes dos quatro tipos humanos. Eu busco saber se temos algum coronavírus em morcegos do Brasil similares aos coronavírus emergentes SARS e MERS.

Esse caso da China é diferente então?

O caso da China é o terceiro coronavírus emergente em humanos, originado de evento de "spillover". Ou seja, é a transmissão de um coronavírus zoonótico, que pula de uma espécie onde é comum —no caso morcegos e camelos— para humanos, com ou sem atuação de um hospedeiro intermediário. No caso da SARS em 2003, o vírus foi certamente originado de morcegos, mas observamos uma atuação importante de outro hospedeiro mamífero. No caso da MERS, apesar de encontrarmos vírus parecidos em morcegos, temos a atuação importante de camelos. Os camelos e as civetas [espécie de mamífero] foram infectados em algum momento por coronavírus presentes em morcegos. Em geral, esses vírus emergentes vêm de animais silvestres. São vírus que infectam o homem através de um hospedeiro intermediário.

Os morcegos são o principal risco aqui?

Morcegos hoje são reconhecidos como importantes reservatórios de vírus de alta letalidade como Nipah, Hendra, Ebola, Marburg, SARSs e agora, muito provavelmente, o novo coronavírus 2019. Em morcegos do Brasil não temos, até o momento, nenhum vírus emergente. Para ser emergente ele teria que infectar humanos e se espalhar. O novo coronavírus 2019 é um vírus emergente. Os morcegos do Brasil apresentam vírus relativamente relacionados a vírus de morcegos que já emergiram no mundo. Se um dia ocorrer um surto de um vírus aqui, originado de morcegos, e que gere um número alto de casos se infecções humanas, aí sim, teremos um vírus emergente. Mas até o momento, não temos em morcegos do Brasil, até onde sabemos. O risco real não são os morcegos em si, mas o aumento potencial de contato humano com animais silvestres.

Ou seja, podem transmitir doenças a humanos, não é?

Não existem relatos de eventos de infecção humana por coronavírus de morcegos no Brasil. O que posso dizer é que os morcegos do Brasil apresentam coronavírus de mesmo gênero, denominados Betacoronavírus. Ele é diferente do Coronavírusda SARS e deste novo, porém achamos vírus relacionados ao coronavírus MERS.

Essa epidemia na China deve ter iniciado por contaminação por morcegos?

O problema na China é contato aproximado entre humanos e animais silvestres. Nós, ainda bem, não caçamos, nem consumimos morcegos, nem existe comércio deles em feiras. Esse é um fator essencial: o nível de contato com morcegos. Agora esse vírus é transmitido de humanos para humanos.

No Brasil não temos nenhuma versão de vírus com essa transmissão?

Não sabemos. Inclusive é um projeto de pós-doutoramento proposto ao CNPq. Analisar o potencial de infecção de cepas virais de coronavírus que descobri em quatro anos de pesquisa, em células de mamíferos. O único vírus presente em morcegos do Brasil e com capacidade comprovada de infectar humanos é o vírus da raiva. Mas os morcegos têm coronavírus aqui. Eles são os grandes reservatórios genéticos de coronavírus de mam?feros. Entre todos os coronavírus identificados em mamíferos, morcegos são os reservatórios com a maior diversidade. As cepas que pesquisamos são de morcegos do Brasil, de diferentes biomas, principalmente da floresta atlântica nos estados de São Paulo e Paraná. Essa descoberta foi realizada em um projeto financiado pela Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo].

Mas o risco de contágio em humanos existe?

Sim, existe. Quanto mais adentramos em áreas florestais com desmatamento, aumento da agricultura e pecuária, o risco existe e vai aumentar. Os vírus e seus hospedeiros silvestres existem em equilíbrio. Estão há milhares de anos lá. Quem está invadindo e trazendo estes agentes para nossa sociedade são ações antropogênicas. No caso da China, a caça e comercialização de animais silvestres. E no Brasil não estamos livres desse risco, o caso recente se Arenavírus em São Paulo é um exemplo. O problema, aparentemente, é a presença de agricultura e seu contato com a interface de áreas florestais, fazendo com que animais silvestres e seus vírus criem oportunidade de contato cada vez maior com humanos e seus animais de criação.

No caso dessa nova versão do coronavírus, estamos preparados?

Medidas de controle estão sendo tomadas. A capacidade de transmissão do vírus, como o número de infecções que cada caso gera, é um fator muito importante na capacidade de controle. Já lutamos contra um coronavírus anteriormente, a SARS, e vencemos. Mas este risco de novos agentes zoonóticos emergentes veio para ficar. Depois desse teremos outros. O que precisamos é nos preparar. A ciência é nossa principal arma contra estes agentes.

Saúde