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Coronavírus: Infecções assintomáticas são comuns e não devem preocupar

Carolina Marins

DO UOL, em São Paulo

06/03/2020 04h00Atualizada em 09/03/2020 18h44

Resumo da notícia

  • Adolescente de São Paulo teve diagnóstico confirmado sem apresentar sintomas
  • É comum na medicina casos de infecção sem manifestação clínica
  • Especialista reforça que recomendações de lavar as mãos e não tocar o rosto

Um caso atípico ocorreu ontem em São Paulo, quando o Ministério da Saúde confirmou que uma jovem de 13 anos testou positivo para o vírus do coronavirus, apesar de não apresentar sintomas da covid-19. O caso demorou para ser considerado como confirmado, pois não se encaixava nos critérios técnicos de classificação.

O exame laboratorial e a contraprova confirmaram a presença do vírus no organismo da jovem, porém, ela não apresenta alguns sintomas como febre associada a alguma questão respiratória, informou o ministério em nota mais cedo.

Trata-se de uma adolescente que chegou da Itália no último domingo. Ela estava tomando remédios devido a uma lesão de ligamentos que sofreu na viagem. Segundo o Ministério da Saúde, o uso dos medicamentos pode ter inibido os sintomas ou ela pode estar passando pela fase de incubação do vírus.

Por ter estado no norte da Itália, uma região com altos índices de contaminação, a jovem decidiu na terça-feira ir ao Hospital Beneficência Portuguesa fazer o teste para o coronavírus, que confirmou positivo.

Segundo o infectologista do Hospital das Clínicas da USP, Evaldo Stanislau, é comum na medicina o caso de infecções que não apresentam sintomas, inclusive durante muitos anos.

"A gente pode ter várias doenças em atividade no nosso corpo sem nenhuma manifestação clínica, com a pessoa levando a sua vida normalmente, sem nenhum tipo de queixa. Em determinado momento, essa doença é diagnosticada num exame fortuito", explica.

Outras doenças como HIV, hepatite, HPV, sífilis, entre outras, costumam passar anos sem ser identificadas no organismo dos pacientes. Porém, em determinado momento, podem se manifestar. É por isso que Stanislau alerta que o caso da jovem pode ser assintomático apenas por enquanto.

Mesmo assintomáticos, esses pacientes ainda podem transmitir a doença, o que aumenta os desafios para a sua contenção. "Se tratando de uma doença infecciosa, em que há um agente infeccioso envolvido, a pessoa, mesmo sem sintomas, é transmissora."

De acordo com um estudo conduzido pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, cerca de 1,2% dos pacientes contaminados no país eram assintomáticos. É por isso que o infectologista diz que não há motivos para todos correrem para fazer o teste.

"O custo desse teste não é barato. Um teste de biologia molecular, de um painel respiratório assim, não é barato. Ele custa mais de mil reais. Então isso, como política de saúde pública, é inviável e desnecessário", diz.

Ele acrescenta que mesmo o teste não é 100% certo, e pode variar a depender do estado do paciente, da existência de outras doenças, da faixa etária, etc. "Se a gente começar a usar esse teste para pacientes assintomáticos, pode ser que o resultado eventualmente não expresse a realidade de cada paciente."

Segundo as recomendações do Ministério da Saúde, só devem fazer o teste aquelas pessoas que viajaram para os países em alerta e apresentaram sintomas.

Como evitar, então, ser contaminado por um paciente assintomático? O infectologista reforça que as recomendações da Organização Mundial da Saúde, de lavar as mãos, não colocar as mãos nos olhos, boca e nariz, devem ser consideradas a todo momento.

Segundo Stanislau, casos assintomáticos oriundos dos países listados pela OMS com importante circulação local do vírus também devem ser mantidos em quarentena, por garantia. No caso da adolescente diagnosticada em São Paulo, no entanto, não será necessário o isolamento domiciliar, segundo informou o Ministério da Saúde, pois sua carga viral é baixa e não apresenta risco de transmissão.

Primeiro caso local

O Brasil registrou ontem também os primeiros casos de contaminação local. São duas pessoas infectadas pelo primeiro paciente confirmado no país, um homem de 61 anos que tinha viajado à Itália.

Um dos episódios é um familiar do primeiro paciente confirmado, que esteve numa festa na casa dele logo após seu retorno da Europa. O outro caso de transmissão local é de uma pessoa que teve contato com esse familiar do primeiro paciente confirmado.

Segundo o infectologista, já era esperado que isso fosse ocorrer no país e o ideal é que se mantenha a postura atual para lidar com a doença. "A cada dia, a gente conhece um pouquinho mais da doença. Ela tem se mostrado uma doença de comportamento benigno e leve para a grande maioria dos infectados."

A tendência com a infecção se espalhando dentro do território brasileiro é que sejam alteradas as definições de diagnóstico. Os cuidados devem ser reforçados com as pessoas mais vulneráveis, como idosos, imunossuprimidos e pacientes com doenças crônicas.

"A se confirmar a transmissão local sustentada a gente passa a incluir aquele rol de países onde tem de circulação do vírus. Ou seja, não precisa ir mais para o exterior para ser considerado caso suspeito. Então, a gente vai ter que lidar com isso com muita tranquilidade, com muita serenidade e não significa que, da noite para o dia, magicamente todo mundo que aparecer com sintoma respiratório seja coronavírus."

Se de fato a infecção começar a se espalhar internamente, o natural é que o país faça como a China quando redefiniu seu critério diagnóstico, passando a considerar caso suspeito quem apresenta os sintomas somente, sem o exame clínico.

Mas o epidemiologista ressalta que esse ainda não deve ser o caso brasileiro, já que os dois infectados dentro do país já eram observados como casos potenciais devido ao contato com o primeiro paciente confirmado.

O Brasil já tem oito casos confirmados do novo coronavírus, os primeiros registrados foram de São Paulo. São seis na capital paulista, um no Espírito Santo e um no Rio de Janeiro. Até o momento o país tem 636 casos suspeitos.

Errata: o texto foi atualizado
O termo "incubação" apresentou um erro de digitação na versão original do texto. O equívoco foi corrigido

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