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Bolsonaro distorce fala da OMS para validar discurso contra isolamento

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

31/03/2020 09h27

Na tentativa de validar o próprio discurso, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) distorceu uma entrevista do diretor-presidente da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Ghebreyesus, e insinuou hoje que a entidade estaria alinhada às críticas ao isolamento social, medida necessária para combater o alastramento do coronavírus.

A reclusão tem sido recomendada pelas autoridades de saúde em todo o planeta e apontada como ação essencial de enfrentamento da doença que já matou 159 pessoas no Brasil e deixou milhares de vítimas no mundo. Ontem (30), Ghebreyesus afirmou que, além da preocupação com a saúde, "os governos precisam garantir o bem-estar das pessoas que perderam sua renda".

"Cada indivíduo é importante, cada indivíduo é afetado pelas nossas ações. Qualquer país pode ter trabalhadores que precisam trabalhar para ter o pão de cada dia. Isso precisa ser levado em conta."

No entanto, na mesma entrevista, o diretor-presidente da OMS voltou a enfatizar a importância do isolamento social e deixou claro que essa medida de precaução "é a única opção que temos para derrotar esse vírus". "É vital respeitar a dignidade do próximo. É vital que os governos se mantenham informados e apoiem o isolamento."

Ao deixar o Palácio da Alvorada, nesta manhã, Bolsonaro retirou de contexto a fala de Ghebreyesus e disse que, por ele ser africano, "sabe o que é passar dificuldade". O objetivo do mandatário brasileiro é legitimar a tese de que a reclusão social, recomendada pelo Ministério da Saúde de seu próprio governo, deve ser flexibilizada, pois afeta a economia e pode levar a desemprego em massa.

"O que o diretor-presidente da OMS falou? Esse povo humilde fica o dia todo na rua para levar um prato de comida à noite em casa. Ele falou que ele era africano sabe o que é passar dificuldade. A fome mata mais do que vírus."

"Quando eu falei isso, entraram até com processo no Tribunal Penal Internacional [em Haia, nos Países Baixos] me chamando de genocida. Eu sou um genocida por estar defendendo o direito de você levar um prato de comida para casa. Ele [Ghebreyesus] estava meio constrangido, mas falou a verdade. Achei excepcional a palavra dele. Meus parabéns: OMS se associa a Jair Bolsonaro", ironizou.

O presidente também evitou comentar a postura do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), que tem pedido reiteradamente para que a população fique em casa, na contramão das opiniões do chefe. Bolsonaro que que a medida seja limitada apenas a quem está nos grupos de risco —idosos e pessoas com problemas de saúde preexistentes.

"Não sei o que ele falou. Parto do princípio que eu tenho que ver, e não acreditar no que está escrito. Não se esqueça que eu sou o presidente."

Bolsonaro estimula hostilidade e jornalistas deixam entrevista

Durante a entrevista na portaria do Palácio da Alvorada, Bolsonaro incentivou atitudes hostis de apoiadores contra os jornalistas.

Um homem mais exaltado se referiu à imprensa com termos ofensivos, como "abutres". Além disso, a claque interrompia a todo momento os questionamentos dirigidos ao presidente e fazia intervenções com objetivo de atacar profissionais e veículos de comunicação.

Depois de uma pergunta sobre a postura de Mandetta, um homem que se identificou como professor de escola pública e youtuber começou a gritar que a imprensa colocava ministros contra Bolsonaro. Os jornalistas pediram respeito, mas a reação do presidente foi insuflar os apoiadores.

"É ele que vai falar, não é vocês não."

Autorizada pelo mandatário, a claque passou a hostilizar ainda mais os profissionais, que decidiram se retirar do local. Bolsonaro se mostrou surpreso com a situação: "Mas vão abandonar o povo? Nunca vi isso, a imprensa que não gosta do povo."

Auxílio de R$ 600

Bolsonaro afirmou que pretende sancionar ainda hoje o projeto de lei que estabelece um auxílio emergencial de R$ 600 para trabalhadores informais em decorrência da crise provocada pelo coronavírus. O benefício, aprovado ontem pelo Senado, será concedido por um período de três meses.

O governo também quer editar hoje um decreto para regulamentar a medida. De acordo com o texto avalizado pelo Congresso, a lei beneficia ainda os autônomos e as pessoas que trabalham sob contrato intermitente (CLT, que ganham por hora ou dia trabalhado).

Além da sanção e do decreto, Bolsonaro ainda precisa publicar uma MP (medida provisória) autorizando a abertura de crédito e especificando de onde sairá o dinheiro. "Hoje! O mais rápido possível. Prioridade total."

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