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Coronavírus

Covid-19 no Carnaval? Por enquanto, ciência não tem qualquer indício disso

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

20/04/2020 04h00Atualizada em 20/04/2020 13h21

Mensagens que têm sido divulgadas em redes sociais dizem que o coronavírus já estava circulando no Brasil durante o Carnaval. Apesar de muito difundida, a informação não tem embasamento científico — pelo menos até o momento.

O UOL checou a informação com o pesquisador Luiz Goes, pós-doutorando do departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas e da Plataforma Científica Pasteur da USP (Universidade de São Paulo). "Não existe nenhum indício científico desta afirmação", diz ele.

A professora e pesquisadora aposentada de doenças infecciosas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Vera Magalhães também não acredita que se soubesse de qualquer circulação do novo coronavírus até o Carnaval. "Naquela época, eles [do Ministério da Saúde] ainda não dispunham dos testes para identificação da covid-19", explica.

Entretanto, ela não descarta que seja descoberto, num exame futuro, que a circulação foi anterior à data do primeiro caso oficial.

"Aí seria uma investigação retrospectiva, de soros estocados, à época, de pacientes que não correspondiam a nenhuma gripe, com pneumonia, por exemplo. Antes não tinha teste, mas hoje tem. Isso ocorreu em relação à aids na década de 1980. Depois foram investigar e descobriram que já havia circulação em 1960 por soros estocados na África", afirma Magalhães.

Podem ter ocorrido casos não detectados

Após estudar o coronavírus existente em morcegos, em sua tese de doutorado, Góes é um dos pesquisadores à frente de estudos no Brasil sobre a pandemia.

Ele explica que, apesar de não existirem indícios, a teoria de que o vírus tenha começado a circular antes do primeiro caso percebido — em 26 de fevereiro — é possível. "É uma possibilidade, sim, mas não vejo por que a informação seria suprimida pelo Ministério da Saúde", declara.

O pesquisador acrescenta que "pode ser que tenham ocorrido casos que não foram detectados. Pessoas assintomáticas, ou com sintomas leves, antes do alarme, ou antes mesmo do real entendimento da gravidade potencial da epidemia de Sars-CoV-2 [nome do vírus]. Pode ser também que tenham tido casos de óbitos", pondera.

Um dos problemas para essa detecção precisa, argumenta o pesquisador, é que são poucos os laboratórios no Brasil com capacidade de fazer o diagnóstico hoje, mesmo com a pandemia decretada pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

"Imagina essa dificuldade antes da epidemia? Acredito que os primeiros casos seriam obtidos em São Paulo, como ocorreu. Acredito que só seriam detectados em hospitais de ponta e com capacidade de diagnóstico precoce, como é o caso do hospital Albert Einsten", relata.

Um dos estudos que enfraquece a teoria de que a contaminação possa ter ocorrido antes do Carnaval é o que analisou a rota do coronavírus no país. A pesquisa revelou que 54,8% são de casos vindos da Itália e só 9,3% da China (primeiro país a ter infecção).

"Em 9 de março, 48% dos casos de covid-19 reportados no Brasil tiveram histórico de viagem para Itália antes dos sintomas. O que quero dizer é que não sabemos, até o momento, se o vírus chegou antes. É uma possibilidade, e apenas a análise de amostras respiratórias de indivíduos doentes anteriormente ao Carnaval trará a resposta. Mesmo assim, não significaria que o Ministério da Saúde — ou seja lá quem for — esteja escondendo algo", afirma.

O Ministério da Saúde informa que o primeiro caso de covid-19 no país ocorreu em São Paulo e foi confirmado no dia 26 de fevereiro, dois dias após a terça-feira de carnaval. Um homem de 61 anos deu entrada no Hospital Albert Einstein na quarta-feira de cinzas, dia 25, com histórico de viagem para Itália. Na ocasião, o então secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Kleber, afirmou que o Brasil registrava 20 casos suspeitos do novo coronavírus e que ao menos 12 deles vieram da Itália.

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