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Ainda vamos bater vários recordes diários durante a pandemia, diz Nicolelis

Do UOL*, em São Paulo

05/06/2020 16h29

O cenário de números recordes em pacientes diagnosticados e mortes, mais do que recorrente, deve se tornar diário nos próximos momentos de enfrentamento à pandemia da covid-19 no Brasil. A avaliação foi feita pelo médico e neurocientista Miguel Nicolelis na edição de hoje do UOL Entrevista.

"Infelizmente, esse número demonstra que vivemos a maior tragédia da história do Brasil", disse. "A gente não sabe ao certo porque há a subnotificação. O número de casos tem uma subnotificação de 7 a 10 vezes. Podemos ter passado de vários milhões de casos infectados."

De acordo com o coordenador da Comissão Científica do Consórcio Nordeste, os números de mortos continuarão subindo e "vamos bater vários recordes diários". Apesar da afirmação, Nicolelis evitar fazer projeções para o país.

"As previsões têm que ser muito cuidadosas porque, à medida que você avança no futuro, o erro aumenta", diz. O médico faz uma comparação com a previsão do tempo, que é mais fácil de ser feita para dias próximos, mas mais complicada quando se trata de semanas.

"Tem que tomar cuidado. Por isso que a gente não divulga como política a previsão de número de óbitos, por exemplo, para um futuro muito longo, porque pode causar uma situação de pânico. Todavia, é evidente que a curva brasileira está explodindo. Isso é unanimidade no mundo todo."

Segundo ele, não tem como reduzir o tamanho da tragédia para o país. "Conversando com meus amigos da Europa ontem, eles estão chocados. Porque o Brasil tinha a reputação de ter um dos sistema único de saúde que há alguns anos estava ascendendo na direção de se tornar um dos maiores do mundo", avalia.

Infelizmente ainda vai piorar. Vamos bater vários recordes diários. É com muita tristeza que falo isso.
Miguel Nicolelis, médico e neurocientista

Havia uma expectativa, afirma, de que, diante da situação do sistema de saúde inglês, o governo brasileiro fosse capaz de antecipar e reagir de forma melhor.

Covid-19 será a maior guerra da história do Brasil

Para o neurocientista, a falta de planejamento e de reações eficazes por parte do governo federal fará com que esse momento seja lembrado na história como um "grande fracasso". "A quantidade de erros é um caso histórico, vai haver uma descrição do grande fracasso do governo federal em lidar com sua maior crise sanitária."

"No Brasil, a falta de preparação, a falta de uma mensagem coerente, unificada, que mostrasse a relevância da única ferramenta que temos, que é o isolamento social, a falta de medicação e vacina. Não levamos a sério desde janeiro, não ajudamos estados e municípios do ponto de vista de um governo unificado, não criamos testagem eficiente em todo Brasil, não criamos equipamentos necessário e não tiramos vantagem do sistema de saúde, dos agentes de saúde que deveriam ser a primeira linha de defesa", avalia.

Segundo ele, o combate à pandemia não pode se pautar apenas pela linha hospitalar, uma vez que não há rede pública no mundo que dê conta da capacidade de reprodução do novo coronavírus.

Eu ouso dizer que esse evento vai entrar como a maior guerra da história do Brasil porque é uma guerra biológica e as pessoas não se deram conta disso. Nós somos invadidos pela costa e agora o vírus chega ao interior do Brasil. É um cenário de guerra: se você olha para os mapas, é o cenário de uma invasão. E nós não levamos à sério, não criamos um Estado maior, não criamos uma estratégia para vencer, apara atacar o vírus, ficamos na defensiva o tempo inteiro.

*Texto de Carolina Marins. Produção de Diego Henrique de Carvalho

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