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Mesmo inflando dados, Brasil é um dos países que menos testa para covid-19

Gabriela Sá Pessoa

Do UOL, em São Paulo

03/07/2020 04h00

Mesmo contabilizando testes rápidos, ineficazes para o controle da epidemia de covid-19, o Brasil aplicou menos testes para detectá-la do que países menos afetados pela doença causada pelo novo coronavírus. Até a semana passada, segundo o Ministério da Saúde, o país realizou 13,7 testes para cada mil habitantes.

O Chile, que tem dez vezes menos mortes, testou quatro vezes mais. A Eslováquia, que notificou 28 mortes até agora, testou quase três vezes que o Brasil. Os dados globais são da Universidade Oxford, que não atualiza mais informações sobre o Brasil devido à falta de informações informadas pelo governo federal.

A taxa de 13,7 testes por mil habitantes informada pelo ministério leva em conta, além dos testes rápidos, os exames do tipo RT-PCR — os mais adequados, que identificam a presença do vírus no organismo — processados em laboratórios públicos e privados.

Esse índice coloca o Brasil na 50ª posição no ranking mundial de testagem segundo dados a Universidade de Oxford disponíveis no início desta semana.

O país está atrás do vizinho Uruguai, onde tinham sido registradas 26 mortes e há 18,593 testes para cada mil habitantes até o último domingo. Se considerarmos apenas os exames RT-PCR, caímos cinco posições, atrás de:

  • Argentina (1.207 mortes, 7,46 testes por mil habitantes)
  • Peru (9.135 mortes, 7,36 testes por mil habitantes)
  • Paraguai (15 mortes, 9,38 testes por mil).

"Durante o processo de epidemia, mesmo os governadores, com melhores intenções nos primeiros meses, enxugavam gelo [devido à baixa testagem]. Tipicamente, os testes são para a população que está sendo internada, existem poucos municípios que fazem testes de RT-PCR em população com sintomas leves", diz o professor da USP de Ribeirão Preto Domingos Alves, coordenador do LIS dessa mesma instituição.

Falta de testes é o começo, o meio e o fim do que nunca fizemos aqui. O tamanho da contaminação daqui para a frente frente é exacerbado. Por falta de testes, quando vemos 1,4 milhão de casos, na verdade temos mais de 8 milhões."
Domingos Alves, da USP de Ribeirão Preto

Saúde quer testar 22% da população, mas faltam insumos

Em 24 de junho, o Ministério da Saúde anunciou que ampliaria a aplicação de testes para todos os pacientes com sintomas de síndrome gripal. "Cerca de um quarto (22%) da população brasileira será testada para a doença", disse a pasta ao UOL,

O governo quer testar 46,2 milhões de pessoas (22% da população), porém, só tem em estoque 3,8 milhões de exames PCR, únicos que conseguem identificar o coronavírus durante os primeiros dias de sintomas.

Esse número já era planejado pelas equipes que trabalharam com os ex-ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo publicada nesta quinta-feira (2), o ex-secretário de Vigilância, Wanderson Oliveira, disse que faltaram recursos para a produção desses exames

Estávamos com um plano para obter mais testes no momento de mais casos, que é junho, julho e agosto. Iríamos receber os testes da Vale e adquirir mais da Fiocruz, mas ela não conseguiu trazer e teve que reprogramar as entregas. Não foi de má-fé, mas de falta de insumo."
Wanderson Oliveira, ex-secretário de Vigilância

Segundo o ex-secretário, é preciso mudar a estratégia e rastrear contatos de pessoas infectadas.

"Você nunca escutou na história da pandemia a busca ativa de contactantes das pessoas que estão internadas no Brasil. Não se fez controle de nada e agora, com a reabertura, essa situação está se deteriorando", afirma o professor Domingos Alves.

O pesquisador da USP cita a recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) de realizar de 10 a 30 testes por cada caso confirmado. No Brasil, essa proporção é de um teste do tipo PCR por caso confirmado.

Sem informações sobre o número de contaminados, diz Alves, a decisão sobre a necessidade de novos leitos e respiradores é tomada de maneira aleatória:

"Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas fechou o [hospital de campanha do Pacaembu] para mostrar que está tudo bem. Mas a taxa de infecção na cidade está aumentando gravemente. Nos próximos dias, parte da nova população infectada vai precisar ser internada", afirma.

Os prefeitos não sabem quantas pessoas vão precisar ser internadas porque não trabalham com esses números."
Domingos Alves

Brasil ampliou capacidade em 451%, diz Ministério

Em nota, o Ministério da Saúde diz que está ampliando a capacidade de exames no sistema público e privado, além de contabilizar os números de testes rápidos.

Os laboratórios públicos, afirma, têm capacidade de realizar "cerca de 24 mil testes de RT-PCR" por dia. Os laboratórios privados da rede DASA, que firmaram acordo com o governo, realizam "3,5 mil exames por dia, mas a capacidade máxima planejada é de até 30 mil exames dia até o final do prazo de execução da parceria".

"Desde o início da pandemia, o Ministério da Saúde ampliou em 451% a capacidade dos laboratórios públicos para realização de testes RT-PCR. Atualmente, o Brasil faz 13,7 testes a cada mil habitantes. Cabe destacar que as ações para expansão da capacidade de testagem continuam em andamento, com previsão de aquisição e distribuição de equipamentos, testes e insumos para distribuição aos estados e implantação da parceria público-privada que irá ampliar a capacidade de realização de testagem no país", diz a pasta.

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