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'Não é mimimi. Não vai ter hospital, muita gente vai morrer', diz Pasternak

Natalia Pasternak participa de evento do Governo de São Paulo - Divulgação/ Governo de São Paulo
Natalia Pasternak participa de evento do Governo de São Paulo Imagem: Divulgação/ Governo de São Paulo

Do UOL, em São Paulo

05/03/2021 16h38

A microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, afirmou hoje que muitas pessoas ainda vão morrer por conta da covid-19 no Brasil. Pasternak disse ainda que não vai haver vagas de hospital no país, e que não vai importar se a pessoa tem dinheiro ou não. A declaração foi dada para a CNN Brasil.

"Vai esperar o seu pai, a sua mãe morrerem? Porque não vai ter hospital, pro seu pai, pra sua mãe, pros seus avós, não vai ter hospital. O sistema de saúde vai colapsar, o privado também, então não interessa quanto dinheiro você tem.", ela declarou quando foi convocada pela jornalista Monalisa Perroni para dar um "recado" a quem acha que a pandemia é "mimimi",

Ontem, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) criou polêmica ao atacar as novas medidas de isolamento que vêm sendo tomadas pelos governos estaduais e pedir para o "mimimi" parar.

"Vocês não ficaram em casa, não se acovardaram", disse o presidente. "Temos que enfrentar nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi, vamos ficar chorando até quando? Respeitar obviamente os mais idosos, aqueles que têm doenças. Mas onde vai parar o Brasil se nós pararmos?", disse o presidente.

Pasternak também convocou a população para adotar as medidas de seguranças necessárias e para pressionar as autoridades pela aquisição de vacinas.

"Usa máscara, fica em casa se puder, ajuda a reduzir a circulação de pessoas, porque isso não é mimimi, é nossa realidade, muita gente já morreu, muita gente ainda vai morrer, e por favor ajude a pressionar o governo pela compra de mais vacinas", disse a microbiologista.

Cronograma de vacinação

Em entrevista à GloboNews nesta tarde, a microbiologista afirmou que o cronograma apresentado pelo Ministério da Saúde é lento e não é suficiente para causar um impacto na pandemia durante o primeiro semestre do ano.

"Em relação ao cronograma, duas ponderações: primeiro, o quanto a gente pode acreditar nesse governo? A gente chegou num ponto onde a informação vai e vem diariamente sendo constantemente desmentida por eles mesmos. Chegamos numa situação onde eu não acredito mais. Só quando o contrato estiver assinado e as doses estiverem no Brasil", afirmou ela. "Dito isso, o cronograma apresentado é lento e não é suficiente para ter um impacto na pandemia neste primeiro semestre".

Ainda segundo Natália, o Brasil vai ter um acúmulo de doses no segundo semestre se o plano do Ministério da Saúde se manter. "A gente já tem indícios de que o [cronograma] não vem sendo cumprido, pelo menos o cronograma da AstraZeneca, que é uma empresa que teve problemas para entregar. O cronograma da CoronaVac não é suficiente pra gente ter um impacto significativo de vacinação no Brasil e a movimentação para compra de outras vacinas segue nesse toada de 'vá comprar na casa da sua mãe'".

Ontem, o Ministério da Saúde alterou o cronograma de entregas para vacinas contra a covid-19. Agora, apenas 37,4 milhões de vacinas devem chegar ao Brasil em março —22,7 milhões da CoronaVac, 3,8 milhões da AstraZeneca/Oxford, 2,9 milhões de imunizantes da Covax Facility e 8 milhões da Covaxin.

A gente tem uma situação muito delicada, gostaria de saber quando a sociedade vai dizer chega, basta, desse senhor na Presidência.
Natália Pasternak, microbiologista

"Nos EUA, existe um mecanismo de acordo onde, se o vice-presidente e a maioria do gabinete declararem o presidente como inapto para governar, ele é destituído. Aqui, só temos o impeachment", criticou Natália.

Incertezas sobre eficácia das vacinas contra as variantes

A microbiologista também comentou sobre o risco das vacinas não serem eficazes contra as novas variantes do coronavírus. "A gente sabe que as variantes têm potencial de escape de vacinas. Por enquanto, todas as vacinas estão cobrindo as variantes, mesmo que tenham uma perda de eficácia, como a gente viu com a variante da África do Sul", comentou ela. "Mas o risco da gente ter novas variantes no Brasil que escapem muito é proporcional à nossa incompetência em conter a pandemia. Quanto mais o vírus correr solto, mais mutações ele sofre e mais linhagens podem surgir".

Natália ainda disse que é difícil para governos estaduais estabelecerem um grau de coordenação para enfrentamento da pandemia. "Uma coordenação central seria extremamente necessária para que todos os governadores pudessem agir em conjunto".

Sem ação do governo federal, muitos governos estaduais e municipais estão decretando suas próprias medidas para conter a covid-19. Em São Paulo, passa a vigorar em todo o estado a fase vermelha, mais restritiva e que permite apenas o funcionamento de serviços essenciais. Hoje, o Rio Grande do Norte também anunciou medidas, que incluem lockdown aos domingos.

"Enquanto os parlamentares não levantarem da mesa, a gente não vai ter essa coordenação", afirmou. A frase é uma referência ao tweet do pesquisador Pedro Hallal, que diz: 'Há dez pessoas numa mesa, um nazista chega e se senta. Se nenhuma pessoa levanta, então existem 11 nazistas numa mesa'. Para Natália, "não se pode tolerar o intolerável". Ela completa: "Senhores parlamentares, por favor, levantem da mesa".

Ela ainda relembrou que, se não fosse a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que deu competência para estados e municípios adotarem medidas de prevenção a covid-19, "a situação poderia ser muito pior".

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