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Saúde

Sarna humana se alastra e chega a bairro nobre do litoral paulista

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos (SP)

24/05/2021 04h00

Além das dificuldades no enfrentamento à covid-19, dengue e chikungunya, agora comunidades vulneráveis de Praia Grande, no litoral de São Paulo, têm de lutar contra um novo inimigo: a escabiose, também conhecida como sarna humana.

Inúmeros casos da doença vêm sendo registrados em favelas e bairros periféricos, alguns tão graves que precisam de internação (as imagens são fortes, mas a reportagem optou pela publicação após a autorização dos pais).

A enfermidade, porém, parece já não estar mais limitada às comunidades. Há relatos de casos até no Canto do Forte, bairro nobre da cidade.

A doença é identificada por feridas cutâneas que causam coceira e prurido intenso. É provocada por um ácaro parasita (Sarcoptes scabiei) e se agrava quando as feridas são contaminadas por infecções secundárias, como as bacterianas.

O alerta foi dado há alguns meses pela empresária Patrícia Ogna Patrali, que criou um perfil no Instagram para ajudar os moradores (https://www.instagram.com/pginvisivel/), com a ajuda de amigos médicos.

"A doença está se espalhando rapidamente para outras regiões. Nós já verificamos diversos casos nas comunidades de Nova Mirim, Vila Sônia, Curva do S e Ribeirópolis. Estamos ajudando como podemos, com o fornecimento de remédios, pomadas e produtos de higiene", diz.

Patrícia Ogna Patrali - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A empresária Patrícia Ogna Patrali ajuda moradores enviando remédios e ensinando a tratar a sarna humana
Imagem: Arquivo pessoal

"Não podia nem pisar no chão"

Mayara Oliveira Florindo Alves, 20, moradora da favela da Nova Mirim, contou ao UOL que há algumas semanas atrás contraiu sarna, com feridas pelo corpo todo e até na cabeça. Ela procurou atendimento médico, mas diz que o tratamento não foi bem-sucedido.

Me passaram uns remédios, que eu tomei, mas não resolveram nada. Uma noite, quando eu estava dormindo, uma mosca pousou na minha cabeça e colocou um bichinho lá [berne, um tipo de larva que perfura a pele e se alimenta dos tecidos]. Voltei ao posto mais de oito vezes, mas eles não conseguiram resolver.
Mayara Oliveira Florindo Alves, que teve sarna

Desempregada, Tainá de Lima Safa, mãe de Breno, 4, mora de aluguel em uma casa de alvenaria numa região afastada da Vila Mirim. Ela conta que, além da criança, ela e uma irmã acabaram contraindo a doença. Desde então, busca atendimento público para conseguir medicação.

Os médicos não examinam direito, nem tocam no corpo do meu filho. A mãozinha dele ficou toda cheia de feridas, depois o corpo todo, o rosto. Quem ajudou a gente foi a Patrícia e os médicos amigos dela, que deram as pomadas e fizeram o tratamento. Mas a doença fica voltando. As crianças todas do bairro estão pegando.
Tainá de Lima Safa, desempregada

Jaísa da Silva Souza, 39, mãe de Luara, 5, tenta conseguir um tratamento efetivo para a filha há várias semanas. "O médico do posto passou um remédio e uma pomada. Ela melhorou, mas depois piorou novamente", diz.

Depois fui eu quem peguei sarna, o pé ficou cheio de feridas, não podia nem pisar no chão. Essa doença não vai embora de jeito nenhum.
Jaísa da Silva Souza, que contraiu sarna depois da filha

Internação e sem remédio no posto

Luara - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
As pernas de Luara, 5, ficaram com feridas depois que pegou a sarna humana
Imagem: Arquivo pessoal
Josiane Firmino Deodato, 20, mora num barraco em uma favela próxima ao bairro Vila Mirim com a mãe, o marido e a filha, Estela, de apenas 6 meses. Ela conta que a bebê começou a apresentar feridas na mão direita, no pulso e se alastraram pelo braço.

Após procurar atendimento médico na rede pública da cidade algumas vezes, a menina foi internada pela da gravidade dos ferimentos.

"O médico do posto nunca pediu um exame. Ouvi várias vezes que a culpa da criança estar doente era minha. O posto do bairro nem tem remédio para dar", conta Josiane, que também contraiu sarna com o marido e foi auxiliada pela rede de Patrícia.

"Com minha mãe, foi ainda mais agressivo"

Karen Basílio, 34, que mora em um apartamento de classe média no bairro do Canto do Forte, área nobre da cidade, conta que a sarna se espalhou rapidamente entre os membros da família. Ela, o marido e as filhas contraíram a doença há cerca de dois meses.

Ela afirma que a escabiose se manifestou primeiro na filha, Manuela, à época com cinco meses. Os primeiros sintomas foram pequenos pontinhos vermelhos que surgiram na cabeça da criança e se alastraram rapidamente por todo o corpo da bebê. Ela chorava e se coçava o tempo todo.

"Achei que era uma alergia, mas, quando as pintinhas começaram a aparecer na minha mão também, levei a Manuela correndo até a pediatra. Foi ela quem me falou que aquilo era sarna. Ela passou alguns medicamentos, pomadas, sabonete de enxofre, que foi o que ajudou a gente a se curar."

A família de Karen não sabe dizer como contraiu a doença. Com os familiares isolados por conta da pandemia e sem qualquer contato com animais domésticos, Karen estranha a doença ter se manifestado primeiro justamente na bebê.

Minha mãe, que mora no Tude Bastos, também acabou pegando. Mas nela foi muito pior, as feridas infeccionaram. Ela ficou dois meses lutando, tomando remédios, passando pomadas e loções para conseguir se livrar da sarna. Com ela, foi muito agressivo.
Karen Basílio, que teve sarna humana

Sem dados nem monitoramento pelo poder público

O médico Vinicius Rafael Fernandes, que colabora de forma voluntária com a empresária Patrícia no atendimento às comunidades, afirmou ao UOL que a situação é muito preocupante. Ele aponta a falta de condições de higiene, nutrição precária e insalubridade da maioria das moradias como fatores preponderantes para o alastramento da doença.

"São muitos casos, muitas crianças que, além da sarna, estão desenvolvendo infecções secundárias, outras patologias de pele decorrentes desse problema, que gera uma porta de entrada para outras infecções", diz.

A Secretaria de Saúde de Praia Grande não possui dados estatísticos ou controle de notificações sobre os casos de escabiose no município. Por meio de nota, informou que não é uma doença de notificação compulsória e que, portanto, não há dados.

"A escabiose ocorre principalmente em comunidades fechadas e grupos familiares. A transmissão é por contato e, embora seja de fácil transmissão, é limitada pelo número de pessoas em convivência comum. A notificação do número de casos não é necessária, pois não causa epidemias ou surtos de grandes proporções", afirmou o órgão.

Para o médico especialista em saúde pública Márcio Aurélio Soares, surtos de escabiose deveriam ser tratados pelo poder público como uma importante questão social e sanitária. No caso dos contágios em Praia Grande, por exemplo, exigiria um trabalho de contenção.

"Agentes de saúde deveriam estar visitando essas comunidades, auxiliados pelas equipes de assistência social. A medida visaria até mesmo a economia de gastos públicos, pois é mais dispendioso para a prefeitura atender os doentes do que realizar bloqueios para impedir o alastramento da doença."

Soares explica que a profilaxia e o tratamento da escabiose não são tão simples quanto possam parecer. Ainda mais para as comunidades vulneráveis.

Isso porque o tratamento envolve remédios caros, como antibióticos no caso de infecções bacterianas nas feridas.

"Além de o clima estar mais frio, a pandemia exige que as pessoas fiquem mais tempo em suas casas. Nas favelas, onde as residências são mais aglomeradas, isso significa que as pessoas acabam ficando mais aglomeradas também, o que facilita o contágio. Tanto a profilaxia quanto o tratamento acabam sendo inviáveis para essas pessoas que, no momento, não tem dinheiro nem para pôr comida no prato", concluiu.

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