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Países atrasam aplicação de 2ª dose da vacina; medida divide especialistas

Vacina da Pfizer e BioNTech é aplicada em Posto vacinação contra a Covid-19 (Coronavírus) no Allianz Parque, ZO de São Paulo - Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Vacina da Pfizer e BioNTech é aplicada em Posto vacinação contra a Covid-19 (Coronavírus) no Allianz Parque, ZO de São Paulo Imagem: Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Guilherme Castellar

Colaboração para o UOL, do Rio

29/05/2021 04h00Atualizada em 04/08/2021 11h02

Alarmados com a disparada de casos de covid-19 e o surgimento de novas variantes mais infecciosas do vírus, alguns países estão acelerando a aplicação da primeira dose de vacina e adiando a segunda para assegurar uma imunidade parcial para um número maior de pessoas.

Nas últimas semanas, Índia, Canadá, Finlândia e Alemanha são alguns dos países que anunciaram que irão estender "ao máximo", como disse a chanceler alemã Angela Merkel, o tempo entre as doses dos imunizantes que usam tecnologia de RNA (Pfizer e Moderna) e adenovírus (AstraZeneca). O intervalo pode chegar a até quatro meses. Aqui no Brasil, começam a surgir defensores da medida.

Hoje, o regime mais usado é o de 12 semanas entre as doses — o mesmo adotado no Brasil para as vacinas da Pfizer e AstraZeneca/Oxford. E esse intervalo já é estendido em comparação com o originalmente recomendado pelos fabricantes e que foi avaliado nos testes clínicos — de menos de um mês entre as doses.

O primeiro país a esticar a corda foi o Reino Unido, que, em janeiro, adotou o regime de 12 semanas para vacinar o maior número de pessoas para tentar estancar o surgimento da variante B.1.1.7, que se mostrava muito mais contagiante.

Nas últimas semanas, começaram a sair estudos que mostram que a medida ajudou a reduzir mortes. E que uma demora maior até o reforço pode gerar uma melhor resposta imunológica do organismo.

Um estudo britânico ainda em revisão por pares mostrou que a produção de anticorpos em idosos com mais de 80 anos que receberam a segunda dose após 12 semanas foi de 20% a 250% maior do que naqueles que receberam em intervalo de duas semanas. No entanto, o nível de defesa celular pode cair na mesma proporção.

Outras pesquisas sugerem que a primeira dose seria suficiente para ajudar no controle da pandemia. Um artigo também em revisão indica que foi possível observar, no Reino Unido, reduções no risco de infecção a partir de 12 dias após a primeira dose: 60% para AstraZeneca/Oxford depois de 14 dias e 69% para a da Pfizer entre 21 e 44 dias.

São dados como esses que municiam os defensores no Brasil da tática do "tiro único" num primeiro momento para segurar a pandemia, distanciando as doses de Pfizer e AstraZeneca para até quatro meses.

Alguém vacinado com a primeira dose [de Pfizer e AstraZeneca] estará protegido com um grau de imunidade importante e terá menor probabilidade de transmitir a doença. Então, se nós disseminarmos a primeira dose para mais pessoas, além de proteger mais gente, nós reduziríamos a transmissão viral."
Fernando Carvalho, infectologista do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte (MG)

Na lógica apoiada pelo infectologista, não entra a CoronaVac, fabricada no Brasil pelo Instituto Butantan. Uma vez que, segundo Carvalho, a tecnologia de vírus inativado tem menor capacidade de estimular uma resposta celular para controlar a infecção. "E ainda não temos dados com pesquisas da efetividade de uma única dose", completa.

Percentual de população vacinada contra a covid-19 por país - Arte/UOL - Arte/UOL
Percentual de população vacinada contra a covid-19 por país
Imagem: Arte/UOL

Carvalho calcula que, se o país adiasse em um mês o reforço de Pfizer e AstraZeneca, seria possível vacinar toda a população brasileira acima de 35 anos até meados de julho — e isso com duas doses de CoronaVac. Esse cenário considera que não haja atrasos nas entregas já previstas.

O Brasil começou a dar o reforço de AstraZeneca há poucas semanas. Menos de dois milhões de brasileiros receberam a segunda injeção, segundo dados do Ministério da Saúde. Outros 16 milhões devem receber o reforço nos próximos meses.

No entanto, não há um consenso entre especialistas sobre a estratégia de atraso da segunda dose. E, oficialmente, o Ministério da Saúde não trata dessa questão — a pasta não respondeu aos contatos do UOL. Se enviado, um posicionamento será publicado.

Procurados, o Instituto Butantan reafirmou a necessidade de se completar o regime vacinal com duas doses entre 14 e 28 dias, e a Fiocruz, que fabrica a vacina da AstraZeneca no país, disse que a recomendação dos produtores da vacina é seguir o regime de doses para o qual já há evidências disponíveis — no caso, 12 semanas.

Mellanie Fontes-Dutra, biomédica e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, até acha a ideia válida, mas só com validação científica. "Sem dados, é difícil fazer essa extrapolação para quatro meses. Os dados que temos é para um intervalo de até 12 semanas", diz.

Além de validação científica, a biomédica reforça que a decisão só pode ser tomada se for garantida a segunda dose no intervalo estabelecido.

É necessária uma organização logística bem estruturada, cumprir os cronogramas de recebimentos de doses para garantir o reforço sem maiores atrasos."
Mellanie Fontes-Dutra, biomédica e pesquisadora da UFRS

A infectologista Eliana Bicudo é contrária à ideia. Segundo ela, o regime ignora que a reposta imune das vacinas varia muito por idade.

Uma quantidade grande de idosos gera uma taxa de imunização pouco protetora após a primeira vacina. Essa faixa etária tem que receber a imunização completa pois é que mais sofreu em número de óbitos. A imunidade é coletiva, mas não podemos deixar de olhar a individual, que, no caso dos idosos, é muito baixa."
Eliana Bicudo, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia

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