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Avanço da delta ameaça planos de Réveillon e Carnaval em 2022

1.jan.2020 - Última festa de Réveillon em Copacabana reuniu quase 3 milhões de pessoas Imagem: Alex Ferro/Riotur

Lola Ferreira

Do UOL, no Rio*

01/08/2021 04h00

Enquanto o índice de vacinados contra a covid-19 no Brasil ainda caminha para os 20%, prefeitos como Eduardo Paes (PSD), do Rio, e Ricardo Nunes (MDB), de São Paulo, já anunciam a possibilidade de festas de Réveillon e Carnaval em 2022. Também de olho na vacinação, os maiores carnavais do Nordeste já se preparam para a folia com eventos-teste.

Especialistas ouvidos pelo UOL afirmam contudo que apenas o avanço da vacinação não basta para a realização de eventos de massa. Entre os principais motivos para a cautela, está a variante delta, que acende um alerta para os planos de volta à normalidade nos próximos meses.

Cientistas brasileiros dizem que cogitar eventos com aglomerações gera uma falsa sensação de segurança. Para eles, ainda não é possível prever quando as festas serão permitidas.

Os planos de Réveillon no Rio e Carnaval em São Paulo, Salvador, Recife e Olinda vão na contramão do que países já dominados pela delta têm adotado para conter o vírus.

A delta já está se espalhando, e só não sabemos mais porque o Brasil faz pouco testes genômicos [que detectam a variante do coronavírus]. A vacinação melhora os índices, evidentemente, mas ainda não é um crescimento rápido, nem estaremos protegidos em 30 dias. Em um país como o Brasil, altamente conectado, enquanto todos não estiverem seguros, ninguém está."
Miguel Nicolelis, médico e neurocientista

Os países que viram queda considerável de casos já enfrentam novos surtos, e o número de infecções subiu 80% no mundo todo em apenas um mês. A OMS (Organização Mundial de Saúde) afirma que os avanços obtidos nos últimos meses podem estar "sob ameaça ou sendo perdidos".

'É precoce', diz médica sobre eventos de massa

Estudos apontam que as vacinas disponíveis no Brasil têm boa resposta contra a variante delta, então para freá-la é necessário vacinar mais pessoas o mais rápido possível. Enquanto isso, distanciamento social, higiene das mãos e boas máscaras não podem ser abandonados.

Apesar de adotarem o discurso da "cautela", cidades de diversas regiões do Brasil acreditam na realização de eventos de massa.

No Nordeste, as três prefeituras que organizam as maiores festas estão confiantes na realização do Carnaval. Olinda e Salvador dizem que farão eventos-teste para calcular o nível de segurança. Já Recife confia na vacinação completa cerca de três meses antes da festa para realizá-la.

É a mesma lógica adotada no Rio. Paes reafirmou nesta semana que haverá Réveillon e Carnaval e que em breve deve assinar o patrocínio para as escolas de samba. No entanto, a capital não definiu protocolos para a folia e ainda prevê desobrigar o uso de máscaras a partir de 15 de novembro.

Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) já divulgou calendário com eventos-teste, incluindo a Fórmula 1. Na capital, Nunes diz acreditar que haverá Réveillon e Carnaval caso os índices continuem em queda, mas o Centro de Contingência ao Coronavírus, ligado ao governo estadual, ainda não recebeu demanda formal para discutir a possibilidade.

Especialistas avaliam que comunicar agora sobre grandes eventos pode atrapalhar o trabalho de conscientização da população.

Falar de Carnaval e Réveillon agora passa a sensação de que está tudo resolvido e bem. Temos uma receita perigosa acontecendo: falsa sensação de segurança e pessoas sem tomar a segunda dose. Não podemos abandonar as medidas necessárias."
Gulnar Azevedo, professora de epidemiologia na Uerj

Nicolelis concorda que citar as festas é totalmente contrário ao atual momento da pandemia. "A média móvel de mortes caiu, mas ainda é uma das mais altas do mundo", diz o neurocientista.

Guardemos energias, esforços e gritos escondidos na garganta para soltar quando estivermos livres desse vírus. Ou quando tivermos em condições que a pandemia vire uma endemia. Qualquer previsão hoje é precipitada, e qualquer possibilidade de aglomeração é temerária."
Ana Brito, epidemiologista da Universidade Federal de Pernambuco

O que é preciso para a retomada dos eventos?

Para cogitar os eventos, os governantes se agarram ao índice de 70% da população das cidades com esquema vacinal completo.

Mas só é possível considerar o fim de uma pandemia caso todos os índices estejam baixos, quase nulos: de transmissão, casos, internações e mortes, diz Nicolelis. Gulnar Azevedo acrescenta que a capacidade do sistema de saúde também tem de ser considerada.

Para o epidemiologista Pedro Hallal, coordenador do estudo Epicovid-19, da Universidade Federal de Pelotas, o avanço da vacinação permite começar a pensar em eventos-teste. Na opinião do cientista, eles servirão para "acertar, errar, corrigir os erros e repetir os acertos" até que seja consolidado um protocolo seguro.

Hallal diz que, com 70% da população vacinada, os números podem despencar.

Como tudo na ciência, não dá para prever o que acontece, mas é provável que possamos ter Réveillon de Copacabana e Carnaval no Rio e no Nordeste. O que acho errado é que isso seja anunciado como algo garantido e não seja acompanhado de eventos-teste."
Pedro Hallal, epidemiologista

No exterior, países que fizeram eventos-teste grandes adotaram diferentes procedimentos de controle. Nos EUA, alguns eventos pediram um passaporte de vacinação no aplicativo de celular —o Rio pretende adotar o mesmo método na volta do público aos estádios, com o app ConecteSUS.

Na final da Eurocopa, na Inglaterra, o público apresentou comprovante de vacinação ou teste negativo. Na ocasião, a OMS creditou o aumento de infecções ao público nos estádios e aos bares lotados durante os jogos.

Em Santa Catarina, a Oktoberfest foi adiada porque, além de a organização prever que indicadores definidos não serão alcançados, o aumento de casos após a Eurocopa foi considerado.

Hallal diz acreditar que, no Brasil, o teste tipo PCR negativo, comprovante de vacinação ou teste de anticorpos possam ser utilizados nos eventos-teste.

Delta: países retomam medidas de proteção

A China, primeiro país a conter a pandemia, enfrenta um novo surto. De acordo com a BBC, a mídia estatal do país classifica este como o principal surto desde o início da doença, em Wuhan. A capital Pequim registrou em julho o primeiro caso depois de seis meses sem ocorrências. A responsabilidade seria da delta.

Nos EUA, o uso de máscaras voltou a ser recomendado em locais fechados. Com a recusa de alguns americanos à vacina, o país enfrenta cobertura vacinal baixa diante do alto volume de doses armazenadas. Há estados que não atingiram sequer 35% de vacinados completamente.

A Austrália, país que bateu recorde de casos nesta semana, depois de também controlar o vírus, levará soldados às ruas para fazer valer medidas restritivas.

"Uma reabertura precipitada pode causar o mesmo que em outros países que abriram antes da hora e agora sofrem", conclui Nicolelis.

*(Com reportagem de Leonardo Martins, Carlos Madeiro e Hygino Vasconcellos)

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