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Vaquinha e banca à venda: idoso tenta pagar R$ 2,6 mi a hospital após covid

Carlos Massatoshi Higa recebeu alta após passar 190 dias internado por covid, mas agora deve R$ 2,6 milhões - Arquivo Pessoal
Carlos Massatoshi Higa recebeu alta após passar 190 dias internado por covid, mas agora deve R$ 2,6 milhões Imagem: Arquivo Pessoal

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos

06/10/2021 16h14Atualizada em 07/10/2021 10h16

A família do comerciante Carlos Massatoshi Higa, de 72 anos, se vê dividida entre alívio e apreensão. Na última segunda-feira (4), o idoso recebeu alta do hospital São Camilo, em São Paulo onde ficou internado por 190 dias — 100 deles intubado numa UTI — por conta de complicações da covid-19. Mas na saída da unidade descobriu que devia R$ 2,6 milhões pelos atendimentos, remédios e diárias.

"Nós queremos pagar a dívida. Quem passa por uma situação dessas, sabe que a vida de um ente querido vale muito mais do que o dinheiro usado para salvá-la", afirmou a filha do idoso, Juliana Higa, de 37 anos, que trabalha como professora na rede municipal de ensino da Capital.

Por conta da dívida, o idoso terá que vender a banca de jornal que mantém há 21 anos na Avenida Parada Pinto, na Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte da Capital.

A filha, Juliana Higa, diz que, por conta da idade e das sequelas deixadas pela doença, ele não terá mais condições de trabalhar. "Ainda não sabemos o valor que conseguiremos pelo ponto. Mas já será um montante que poderemos usar para amortizar um pouco a dívida". Eles também criaram uma vaquinha online, pedindo ajuda das pessoas que se solidarizam com a história.

Em anúncios de venda publicados na internet, uma banca de jornal na cidade de São Paulo pode valer entre R$ 15 mil e R$ 250 mil, dependendo da localização, tamanho do espaço e estrutura.

Procurado pelo UOL, o Hospital São Camilo informou que oferta serviços particulares de forma transparente e com custos compatíveis com o mercado (veja manifestação abaixo).

Carlos mora com a esposa, Mieko, de 66 anos, na Zona Norte de São Paulo. Estava animado em março, quando soube que a vacinação contra a covid-19 estava chegando à sua faixa etária. No dia 19, confiante, tomou a primeira dose. O que ele não sabia é que provavelmente havia sido contaminado dias antes pelo vírus. Dois dias depois da aplicação do imunizante, começou a passar mal.

"Sabemos que não é culpa da vacina", afirma a filha, que é microbiologista formada pela Unicamp e doutoranda em Biotecnologia pela USP. Foi ela quem acompanhou o pai desde o primeiro dia em que necessitou de cuidados.

"Temos certeza de que, se ele tivesse tomado a dose da vacina antes, não teria adoecido. Ou ele já estava com o vírus incubado quando se vacinou e não sabíamos, ou se contaminou logo depois. Como é um vírus que se comporta de formas inesperadas, fica difícil ter essa certeza".

Carlos procurou um amigo médico, em busca de aconselhamento. O especialista o examinou e, como ele ainda tinha sintomas leves, aconselhou-o a ficar em casa, observando se haveria progressão dos sintomas. Nesse caso, a recomendação era procurar um hospital imediatamente.

Carlos Massatoshi Higa ficou internado 190 dias e, na saída de hospital, descobriu dívida milionária - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Carlos Massatoshi Higa ficou internado 190 dias e, na saída de hospital, descobriu dívida milionária
Imagem: Arquivo Pessoal

Em três dias, ele já havia perdido o olfato e uma febre persistente e alta não baixava com os antitérmicos. Era o alerta que a família precisava para buscar o hospital.

"Entramos em pânico", conta Juliana, lembrando que a mãe é cuidadora da avó, que tem 91 anos. Elas estavam isoladas desde o início da pandemia e, por essa razão, a família não permitiu que ela acompanhasse o marido em sua estada no hospital.

"Então eu tomei a frente. Meus pais não têm plano de saúde, mas guardavam todo o mês um dinheirinho para emergências como essa. Em março, o sistema Cross do SUS informava lotação e fila de espera para internações. E não podíamos correr o risco".

A solução, explica Juliana, foi levar Carlos a um hospital particular. O escolhido foi o São Camilo, em Santana, que fica perto da casa dos pais. A reserva de dinheiro, acreditava ela, seria suficiente para custear essa emergência. Mas não foi o que aconteceu.

Internado inicialmente em uma enfermaria para atendimento a pacientes com covid-19, os sintomas foram se agravando. Carlos foi então levado para a UTI. Três dias depois, precisou ser intubado.

Nos mais de 100 dias que passou na UTI, ainda teve que ser submetido a uma traqueostomia de emergência, com conexão direta do tubo de ventilação mecânica à traquéia. Ver o pai naquela situação angustiava Juliana que, apesar de todo o conhecimento que detinha sobre microrganismos, não podia ajudar o pai a se curar.

"Era uma sensação de impotência, de frustração. Ele teve infecções, sofreu duas convulsões, teve até um AVC. Eu conhecia muito sobre os patógenos, meu doutorado é baseado no estudo das infecções, dos organismos causadores. Então eu tentava colaborar prestando algumas informações científicas aos médicos".

Custos só aumentavam

À medida que as complicações causadas pela doença aumentavam, os custos do atendimento hospitalar também. A família passou a ser informada, ao mesmo tempo, da progressão da doença e do aumento dos custos hospitalares.

Quando o comerciante recebeu alta da UTI, já com resultados negativos para covid-19, o hospital tentou uma transferência dele para uma unidade pública. A família custeou uma UTI móvel para o traslado, porém, ao chegarem ao local, foram informados que ele seria levado para uma enfermaria com pacientes ainda acometidos pela doença.

"Tivemos medo da reinfecção. Informaram ao São Camilo que ele ficaria numa enfermaria comum, não para doentes com covid. Como resultado, tivemos que chamar a UTI móvel novamente e retornar ao São Camilo. Com isso, os custos só iam aumentando".

Consternados com a situação de Carlos, a equipe do hospital sugeriu que ele fosse levado a uma unidade do grupo na Granja Viana, especializada em reabilitação de pacientes. E cujas diárias custariam muito menos do que a metade do que a família estava pagando.
Como o comerciante havia perdido a habilidade motora fina, apresentava dificuldade de segurar objetos e também de movimentar as pernas, além de necessitar de atendimento fonoaudiológico, por conta do longo período de intubação, a família concordou.

Carlos foi transferido no dia 30 de agosto e lá permaneceu até segunda-feira, quando foi liberado para ir para casa. Os custos da permanência na unidade de reabilitação já foram quitados. Os recursos vieram de uma vaquinha online criada por Juliana, em abril. Agora restaram os R$ 2,6 milhões de débito com a matriz do hospital.

"Agora precisamos juntar o máximo de dinheiro que podemos, por isso contamos com a colaboração das pessoas com a nossa vaquinha", afirmou Juliana, informando que, até o momento, a campanha online já angariou R$ 100 mil para ajudar o comerciante.

Procurado pelo UOL, o Hospital São Camilo salientou que internações prolongadas podem ocorrer em pacientes de covid-19, aumentando os custos.

"O acometimento por Covid-19, no entanto, pode implicar em internações de longa permanência, com valores notoriamente altos", explica a instituição, por meio de nota. "No caso em questão, as informações eram atualizadas constantemente à família. A instituição reforça sua missão de cuidar e valorizar a vida, priorizando a excelência dos serviços prestados."

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