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Com vacinação menor, Brasil vê risco de surtos de gripe e outras doenças

17.set.2021 - Adolescente de 14 anos é vacinado contra a covid-19 no Rio de Janeiro - Ricardo Moraes/Reuters
17.set.2021 - Adolescente de 14 anos é vacinado contra a covid-19 no Rio de Janeiro Imagem: Ricardo Moraes/Reuters

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

26/12/2021 04h00

O país está propenso a enfrentar em 2022 surtos de doenças —como a da gripe que já assola estados brasileiros— em razão de uma menor cobertura vacinal decorrente da pandemia do coronavírus, quando a demanda por outros imunizantes caiu, e do afrouxamento das restrições contra a covid-19, segundo alertam especialistas em saúde.

Além da influenza, infectologistas veem a possibilidade de novos surtos de doenças como sarampo, difteria e catapora. Com maior incidência no verão e transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti, dengue, zika e chikungunya também preocupam —além de sobrecarregar hospitais, essas doenças provocam sintomas que podem se confundir com os da covid, dificultando o diagnóstico.

Influenza

A região metropolitana do Rio de Janeiro enfrenta uma epidemia de influenza tipo A. São mais de 23 mil casos de influenza registrados às vésperas do verão na capital —época atípica para a doença, que costuma se manifestar no inverno— e que sobrecarregam a rede de saúde na capital fluminense.

O menor índice de vacinação contra a influenza, o relaxamento de medidas restritivas e a identificação da circulação de uma nova cepa (a H3N2 Darwin) colaboraram para a transmissão desenfreada do vírus, que já chegou a São Paulo e à Bahia e deixa os demais estados em alerta para a doença.

Foram registradas no ano cinco mortes por H3N2 na cidade do Rio —três das vítimas não estavam vacinadas contra a influenza. Na capital paulista, foram 19 internações na semana terminada no dia 14, contra 12 casos de março a junho do ano passado. Na Bahia, foram confirmadas duas mortes relacionadas ao vírus, que já chegou também a Rondônia e ao Espírito Santo.

Especialistas dizem acreditar que o vírus tenha chegado à capital fluminense "importado" do hemisfério norte, mas a versão Darwin foi identificada primeiramente na Austrália.

Ana Frota, médica infectologista do Instituto Pediátrico da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), diz que um surto de influenza já era previsto para 2022 em razão da baixa cobertura vacinal registrada contra a gripe desde o ano passado.

Ela avalia que a transmissão foi antecipada e que, apesar de o atual imunizante oferecido não concentrar o tipo Darwin, a vacina é muito importante para prevenir os sintomas.

"Realmente a cepa [H3N2 Darwin] não está concentrada na vacina aplicada neste ano, mas a gente sabe que ocorre uma reação cruzada e por isso é muito importante a vacinação. A cepa que circula está prevista para ser incluída no ano que vem", explicou.


Sarampo

Médicos também temem a possibilidade de surtos de infecções como sarampo, catapora e outras doenças para as quais já há imunizantes nos postos de saúde.

A preocupação ocorre pelo mesmo motivo da influenza: a redução da cobertura vacinal durante a pandemia do coronavírus, quando a demanda por essas vacinas foi menor, e a flexibilização das medidas restritivas contra a covid-19.

Erradicado em 2016 do Brasil, o sarampo voltou a ser registrado no país em 2018, quando atingiu mais de 10 mil pessoas. Em 2020 e neste ano, durante a pandemia da covid-19, o número de casos foi menor —8.448 e 628, respectivamente, e se explica pela baixa exposição das crianças, uso de máscara, higienização das mãos e distanciamento social.

O professor André Ricardo Araújo da Silva, da Faculdade de Medicina e Infectologia da UFF (Universidade Federal Fluminense), reforça que as cadernetas de vacinação devem ser atualizadas o quanto antes pelas famílias.

As medidas precisam ser tomadas agora. Temos visto crianças com vacinas consagradas atrasadas e isso é muito ruim porque provoca vulnerabilidade. Essa retomada aos postos de saúde deve acontecer para ontem. Muita gente deixou de vacinar por conta da pandemia. Agora, é necessário fazer o máximo possível
André Ricardo Araújo da Silva, da Faculdade de Medicina e Infectologia da UFF

O professor Guilherme Werneck, do Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), reforça que a preocupação agora é com a baixa cobertura vacinal que coloca em risco o controle de várias doenças no país.

"É possível que outras mazelas apareçam com força. Essas doenças prevenidas pela vacinação, como sarampo, difteria, tétano (...) já vinham baixando a cobertura vacinal antes mesmo da pandemia. A meta do PNI (Plano Nacional de Imunização) é 95% do público-alvo vacinado, mas com o isolamento social quem iria sair de casa e levar uma criança para um posto de saúde e se expor?".

Dengue, zika e chikungunya também preocupam

Com maior incidência no verão e transmitidas pelo Aedes aegypti, a dengue, a zika e a chikungunya também preocupam especialistas. Segundo eles, essas doenças podem sobrecarregar ainda mais as unidades de saúde que passaram a ficar lotadas em razão da influenza.

Depois de os atendimentos dispararem, o governo do estado e a prefeitura do Rio montaram tendas de triagem para acelerar os diagnósticos.

Para evitar uma nova sobrecarga do sistema, a infectologista pediátrica Cristiana Meirelles destaca a importância da prevenção das doenças.

"O lado bom é que dengue, zika e chikungunya têm o mesmo mecanismo de transmissão que é o mosquito, então o cuidado é na atenção aos criadouros. No caso do sarampo e da gripe, a grande culpada é a baixa cobertura vacinal, assim como o controle com vacina é importante também para a covid-19."

Sintomas parecidos podem dificultar diagnósticos

Febre, dor no corpo, dor de cabeça e mal-estar são sintomas comuns de gripe, covid-19 e das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti.

Cristiana Meirelles chama atenção para a semelhança entre os sintomas iniciais das infecções, o que pode atrasar diagnósticos e tratamentos.

"Muitas vezes a gente não consegue fazer a distinção de forma rápida, a não ser que tenha um sintoma respiratório bem específico, e gera dúvida se é covid-19, gripe ou dengue. É complicado o diagnóstico de cara e todos podem evoluir de forma grave principalmente em grupos de risco."

A infectologista lembra que, no caso de covid-19 e influenza, os hospitais não oferecem testes para detecção em todos os pacientes com sintomas e que, diferentemente do coronavírus, as crianças são as mais afetadas pela gripe e também pelo sarampo.


Boletins Epidemiológicos

De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, a dengue apresentou redução de 45,7% no número de casos neste ano em comparação com 2020. Foram 508 mil casos contabilizados até 4 de dezembro.

Também houve redução no número de casos de zika —até 13 de novembro foram 6.020 registros, redução de 15,4%.

A diminuição dos casos pode ser explicada pelo fato de as pessoas terem passado mais tempo dentro de casa durante a pandemia de covid-19.

A única doença que apresentou aumento no número de casos este ano foi a chikungunya. Foram 93,4 mil registros prováveis —um aumento de 31,3% em relação a 2020. O Nordeste apresentou a maior incidência.

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