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Facebook sabia da Cambridge antes do escândalo, diz procurador dos EUA

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

2019-03-22T11:20:12

2019-04-22T13:55:27

22/03/2019 11h20Atualizada em 22/04/2019 13h55

Resumo da notícia

  • "The Guardian" teve acesso a processo do procurador geral de Washington (EUA)
  • Emails citam "práticas impróprias" da Cambridge Analytica em setembro de 2015
  • A imprensa começou a noticiar o caso apenas três meses, em dezembro de 2015
  • Mark Zuckerberg disse que ficou sabendo da ação da consultoria pela imprensa

Quando estourou o escândalo do abuso de dados entre o Facebook e a consultoria britânica Cambridge Analytica em 2018, a rede social afirmou que ficou sabendo disso pela imprensa. Mas nesta semana, um documento sugere que o Facebook soube disso antes das primeiras reportagens sobre o tema.

O jornal britânico "The Guardian" publicou nesta sexta-feira (22) que teve acesso a um processo judicial apresentado pelo gabinete do procurador geral de Washington (EUA), que processou a empresa por causa do escândalo.

Esta ação se opôs ao pedido do Facebook para arquivar um dos documentos apresentados pelo procurador geral ao tribunal: uma troca de emails entre os gerentes da rede social revelando que eles sabiam das "práticas impróprias de coleta de dados" da Cambridge Analytica em setembro de 2015.

O ponto é que o "The Guardian", primeiro veículo a acompanhar este caso, publicou sua primeira reportagem em dezembro de 2015, três meses depois.

O que diz a troca de emails?

O documento do procurador descreve "uma troca de emails entre funcionários do Facebook que discutem como o Cambridge Analytica (e outros) violou as políticas do Facebook".

Esses emails incluem "avaliações de funcionários [do Facebook] que vários aplicativos de terceiros acessaram e venderam dados de consumidores em violação das políticas do Facebook durante a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2016. (...) Isso também indica que o Facebook sabia das práticas impróprias de coleta de dados da Cambridge Analytica, meses antes dos veículos de notícias informarem sobre o assunto".

Continua: "Já em setembro de 2015, um funcionário do Facebook baseado em DC (Washington) avisou a empresa que a Cambridge Analytica estava fazendo algo que é atualmente literal relacionadas às suas práticas de coleta de dados".

O que ocorreu há quatro anos?

Na sua primeira reportagem em dezembro de 2015, o "Guardian" disse que a campanha presidencial do político conservador dos EUA Ted Cruz usava dados psicológicos baseados em pesquisas que abrangem dezenas de milhões de usuários do Facebook sem a permissão deles.

"Como parte de uma nova e agressiva operação de direcionamento de eleitores, a Cambridge Analytica (...) está usando agora os chamados "perfis psicográficos" de cidadãos dos EUA para ajudar a ganhar votos para Cruz, apesar de preocupações anteriores e alertas vermelhos de potenciais pesquisadores", disse a nota daquele ano.

O texto também mencionava que a matriz da Cambridge Analytica era uma empresa sediada em Londres chamada Strategic Communications Laboratories (SCL). Ela se apoiava em um conceito de usar dados de mídia social para análises de comportamento comandado por Aleksandr Kogan, professor do departamento de psicologia da Universidade de Cambridge.

Sim, o mesmo Kogan que criou um app de Facebook chamado "thisisyourdigitallife", que usava um teste de personalidade para captar informações de usuários do Facebook e traçar perfis psicológicos. Ele foi contratado pelo então chefe da Cambridge Analytica, Alexander Nix, para usar esse app e o modelo de comportamento para fins privados e campanhas políticas.

A conexão com o escândalo

Apesar disso, o escândalo explodiu mundialmente há exatamente um ano, em março de 2018, quando mais provas dos meios escusos da Cambridge Analytica vieram à luz e verificou-se que ela obteve dados de cerca de 87 milhões de usuários.

Na época, Christopher Wylie, um cientista de dados que trabalhou na Cambridge Analytica, denunciou as práticas da empresa; e o canal de TV Channel 4 obteve declarações de Alexander Nix, que descreveu formas de prejudicar candidatos rivais com suborno, espiões, uso de prostitutas e disseminação de notícias falsas.

Em sua defesa, Mark Zuckerberg, disse há um ano que "souberam pelos jornalistas do 'The Guardian' que Kogan compartilhou dados de seu aplicativo com a Cambridge Analytica" e o Facebook sustentou essa versão dos fatos desde então, incluindo depoimentos a políticos nos EUA e na Inglaterra.

"Imediatamente banimos o aplicativo de Kogan da nossa plataforma, e exigimos que Kogan e a Cambridge Analytica certifiquem formalmente que eles deletaram todos os dados adquiridos indevidamente", disse o executivo.

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Mas o documento levanta novas suspeitas sobre o compromisso do Facebook em ter dito a verdade par ao público.

"Esta nova informação importante poderia sugerir que o Facebook tem consistentemente enganado o Comitê Digital (do Parlamento britânico) sobre o que ele sabia e quando sobre Cambridge Analytica", tuitou na quinta-feira Damian Collins, presidente da comissão de cultura digital da Câmara dos Comuns.

Em um comunicado ao "Guardian", um porta-voz do Facebook disse que "absolutamente não enganou ninguém sobre esse cronograma".

O porta-voz disse que este foi um "incidente diferente" de quando a Cambridge Analytica adquiriu os dados de 87 milhões de usuários.

"Em setembro de 2015, os funcionários ouviram especulações de que a Cambridge Analytica estava coletando dados, algo que infelizmente é comum em qualquer serviço de internet. Em dezembro de 2015, ficamos sabendo pela primeira vez, por meio de reportagens da imprensa, que a Kogan vendia dados para o Cambridge Analytica e tomamos medidas. Essas eram duas coisas diferentes".

De qualquer forma, março parece se tornar um mês maldito para o Facebook: não bastasse o escândalo do ano passado com a Cambridge, nos últimos dias a empresa perdeu dois de seus diretores (um deles do WhatsApp), a descoberta de que milhões de senhas de usuários estavam expostas internamente; e as críticas sobre a demora em retirar vídeos do massacre da Nova Zelândia.

No Brasil, a repercussão do caso Cambridge ainda não acabou: o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) instaurou dois processos contra o Facebook que podem obrigar a empresa a pagar R$ 18 milhões. Um deles é para averiguar a responsabilidade da rede social no grande vazamento de 2018.