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Álcool de maconha, remédio "da vovó" que burla proibição no México

Getty Images
Imagem: Getty Images

Na Cidade do México

11/12/2015 18h55

"Confio muito, de verdade", comenta uma mulher enquanto unta suas doloridas pernas com um álcool no qual macerou maconha, remédio caseiro dos "tempos da vovó" que sobrevive no México burlando a proibição, embora agora se debata a descriminalização da erva.

Esta moderna avó de 53 anos, de aparência estilosa resultado de sua paixão pelos bailes, com três filhos e três netos, relata sob anonimato à AFP que desde pequena conhece o álcool de maconha, já que em sua casa o líquido era usado para curar diversos males.

"Quando estou muito cansada passo (o álcool) nas pernas, nos pés, no corpo, é ótimo. Pode me faltar sal, mas não fico sem o álcool de maconha. Minha avó sempre tinha em casa", conta esta dona de casa.

A tradição continua com filhos e netos. Por exemplo, coloca um algodão empapado no álcool no umbigo das crianças para baixar a febre, ou passa o líquido no peito e ombros quando estão com as vias respiratórias congestionadas.

O México está agitado em torno do debate sobre a descriminalização da maconha desde novembro passado, quando numa decisão sem precedentes a Suprema Corte autorizou quatro pessoas a cultivarem e utilizarem a erva para fins recreativos.

Semanas antes, depois de uma batalha legal e uma campanha de mídia, os pais de Grace, uma menina de 8 anos de idade com uma forma grave de epilepsia, obteve permissão para importar um medicamento à base de maconha.

Mas a verdade é que há décadas muitos lares mexicanos têm, escondido num armário, um misterioso frasco considerado o "remédio mágico" das avós: ramos de maconha macerados no álcool, que podem durar meses ou anos. Basta preencher com o líquido à medida em que se consome.

A maconha "macerada no álcool é o uso tradicional para os reumatismos, dores nas articulações e musculares. É uma coisa da sabedoria popular, herdada de geração em geração, e os jovens sabem que suas avós ou mães usam", comenta à AFP o médico Humberto Rocca, especialista em dependência e ervas.

De outras formas, como seca ou em pasta, é usada em chás para aliviar dores de cabeça, relaxar e induzir o sono; além de defumada para combater náuseas, principalmente em pacientes com câncer.

Jorge Hernández Tinajero, da Associação Mexicana de Estudos de Maconha e dos veteranos ativistas pela descriminalização, explica que os espanhóis a trouxeram como cânhamo, mas os indígenas a incorporaram de maneira cerimonial e medicinal.

"Desde o século 16, a maconha começou a ser utilizada de diferentes formas, como em experiências rituais guiadas por xamãs, coisa que persiste atualmente com alguns povos" indígenas, explicou à AFP.

Cultivo caseiro

Inspirado na revista 'Cáñamo', da Espanha, e na norte-americana 'High Times', um publicitário mexicano de 33 anos desafia a proibição e num quarto de sua casa, com ventiladores, ar-condicionado, luzes potentes e sistemas hidropônicos mantém seu cultivo com cerca de 20 plantas de maconha.

"Isso é para consumo próprio ou medicinal. Não há venda, não há compra, justamente fazemos isso para mudar o sistema e essa guerra que existe" do tráfico de drogas, relatou ao receber, sob anonimato, a AFP em sua estufa.

Este publicitário aprendeu sozinho como preparar a maconha terapêutica, desde o frasco com álcool até uma espessa e potente cera que concentra o tetrahidrocanabinol ou em extrações para vaporizações.

"O uso medicinal requer conhecimento. Se sua mãe tem enxaqueca, dê a ela uma xícara de chá que a dor passa. Para aquela avó da sua amiga que sente dor nas mãos ou nos pés por causa da artrose, ou o ciático, faço o álcool para que passem no corpo", afirma, ao garantir que não vende os remédios.

No Senado, o Partido Revolucionário Institucional, governista, apresentou uma iniciativa para importar medicamentos à base de maconha, enquanto se mantém a proibição da produção no México --atingido por uma séria onda de violência relacionada ao tráfico de drogas.

O jovem ri da iniciativa.

"No México há pessoas que podem fazer o remédio com qualidade, talvez muito melhor do que o feito nos Estados Unidos. Temos um país que pode ter entre 4 e 5 colheitas de maconha ao ano", argumenta.

Debate nacional

Em janeiro começa o debate nacional em torno da descriminalização da maconha, mas o presidente Enrique Peña Nieto já deixou claro que pessoalmente é contra por considerar que seu consumo leva a outras drogas mais pesadas.

No medicinal, a Comissão Federal para a Proteção contra Riscos Sanitários, autoridade máxima em medicamentos, critica de antemão efeitos terapêuticos em seu estado natural.

"Para que tenha efeitos curativos, é preciso ser apresentado numa forma medicamentosa, numa cartela, numa injeção, numa solução. Em matéria de maconha, se não passar por esses processos, não se reconhecem os efeitos curativos", diz à AFP Mikel Arriola, titular da Comissão.

Um porta-voz da procuradoria-geral explica à AFP que ter um frasco com maconha em álcool é crime, mas reconhece que não há antecedentes de pessoas presas por usar o remédio "da vovó".

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