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Setecentos migrantes morreram na última semana no Mediterrâneo

29/05/2016 12h37

Roma, 29 Mai 2016 (AFP) - Setecentos migrantes, incluindo 40 crianças, morreram na última semana no Mediterrâneo em vários naufrágios, segundo os testemunhos de sobreviventes recolhidos pelo ACNUR em seu relatório publicado neste domingo.

Uma vez a salvo nos portos italianos de Taranto e Pozzallo, os sobreviventes contaram ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e à ONG Save The Children como seu barco afundou na manhã de quinta-feira em alto-mar.

"Nunca saberemos o número exato, nunca conheceremos sua identidade, mas os sobreviventes contam que 500 pessoas morreram", publicou no Twitter Carlotta Sami, porta-voz do ACNUR.

O ACNUR disse que até 700 pessoas podem ter morrido na última semana no Mediterrâneo, após o desaparecimento de 100 pessoas depois do naufrágio de um barco na quarta-feira e os 45 corpos recuperados de um naufrágio registrado na sexta-feira.

Giovanna Di Benedetto, porta-voz da Save the Children na Sicília, contou à AFP que era impossível verificar os números, mas os sobreviventes do naufrágio de quinta-feira contaram que 1.100 pessoas saíram da Líbia na quarta-feira em dois barcos de pesca e em um bote.

"O primeiro barco, com 500 pessoas a bordo, foi supostamente rebocado ao segundo, que transportava outras 500 pessoas. Mas o segundo barco começou a afundar. Alguns migrantes tentaram nadar até o primeiro, outras se agarraram à corda que unia as duas embarcações", disse.

De acordo com os sobreviventes, o capitão sudanês do primeiro barco cortou a corda, que se rompeu e decapitou uma mulher. A segunda embarcação afundou rapidamente, levando consigo os que estavam presos no porão.

O sudanês foi preso ao chegar a Pozzalo junto a outros três supostos traficantes de pessoas, disseram os meios de comunicação italianos.

"Durante duas horas lutamos contra a água, mas foi inútil. O barco começou a inundar, e os que estavam no porão não tiveram sorte. Mulheres, homens, crianças, muitas crianças, ficaram presos, e se afogaram", contou uma menina nigeriana aos mediadores culturais, segundo o jornal La Stampa.

"Corpos por toda parte"As pessoas que sobreviveram relataram que entre os mortos havia "cerca de 40 crianças, incluindo recém-nascidos", informou o jornal La Repubblica.

"Vi minha mãe e minha irmã mais velha de 11 anos morrerem", contou Kidane, eritreia de 13 anos, às organizações. "Havia corpos por toda parte".

A temporada de bom tempo propiciou a saída de embarcações que tentam cruzar da Líbia à Itália. A agência de notícias italiana ANSA disse que 70 botes e 10 barcos partiram durante toda a semana passada. Cerca de 15 por dia.

O ministro do Interior italiano, Angelino Alfano, declarou no sábado que a Europa precisa de "um acordo urgente com a Líbia e com os países africanos" para deter a crise.

Os traficantes de pessoas se aproveitam do caos que reina nos países do norte da África desde a queda de Muanmar Kadhafi em 2011.

Vários migrantes contaram ao jornal La Repubblica na Sicília que um novo "líder de traficantes" chamado Osama tomou o controle das saídas das praias da Líbia e concedia descontos nos preços de 400 euros para as viagens de barco, atraindo, assim, novos clientes.

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Sculz, afirmou em uma entrevista ao jornal italiano neste domingo que a proposta italiana para um pacto da UE sobre migração, chamado Migration Compact, foi "a melhor proposta" para deter estas travessias de barcos e prevenir as mortes.

A Itália quer convencer os países da África a ajudarem a fechar as rotas migratórias à Europa e recuperar parte dos que chegam da Líbia, em troca de mais ajuda e investimento.

A Alemanha deixou claro, no entanto, que isso vai contra um dos pontos do plano da Itália, que é a criação de "eurobônus" para financiar o desenvolvimento dos países africanos.

Enquanto isso, no Canal da Mancha 20 migrantes que tentavam chegar à Grã-Bretanha a partir da França foram resgatados na madrugada deste domingo quando o bote inflável no qual se deslocavam afundou.

A travessia no Canal da Mancha em embarcações são pouco frequentes, segundo as autoridades britânicas.

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