Cientistas buscam resgatar a orquídea fantasma da Flórida

Immokalee, Estados Unidos, 27 Jul 2016 (AFP) - Armado com um grampeador laranja e dezenas de pedaços de serapilheira com raízes verdes enredadas, Mike Kane adentra os pântanos determinado a encontrar a orquídea fantasma da Flórida.

Esta flor, uma das mais raras do mundo, já abundou no Parque Nacional Everglades, no sul da Flórida, mas hoje está em risco de extinção e, segundo especialistas, restam apenas 2.000 exemplares nesse estado americano.

A orquídea fantasma (Dendrophylaxlindenii) também cresce em Cuba, mas não se sabe quantos exemplares há na ilha.

O furto, os pesticidas e a urbanização - que reduz a presença de insetos que polinizam a planta - são as maiores ameaças à espécie, afirma Mike Kane, professor de horticultura ambiental da Universidade da Flórida.

"Nós as estamos perdendo", diz Kane, que lidera o primeiro projeto deste tipo para reflorestar os pântanos com orquídeas.

No seu laboratório, o acadêmico e seus estudantes cultivam orquídeas, com sementes geneticamente diversas, que crescem durante alguns anos antes de serem levadas para um novo lar, sob a sombra de freixos e coníferas, no Refúgio Nacional de Vida Silvestre de Panther, no sul do estado.

Neste lugar, "as pessoas não podem vir e roubar as flores e não podem atrapalhar nossos experimentos", explica James Coopman, um dos estudantes de pós-graduação do laboratório de Kane.

Com cuidado para não danificar as raízes, os dois pesquisadores de revezam para grampear as serapilheiras (pano grosseiro usado em sacos) nos troncos das árvores, sob o voo de borboletas e os olhares de um jacaré que toma sol tranquilamente perto dali.

O tecido vai se decompor, mas as raízes das orquídeas vão se agarrar ao tronco e, com sorte, fazer da árvore a sua nova casa.

"Damos uma rápida borrifada quando terminamos", diz Coopman, acrescentando que a própria flor se encarrega do resto.

Neste ano, eles plantaram 160 orquídeas.

No ano passado, foram 80. Kane lembra de quando ele e outro aluno de graduação voltaram ao local poucas semanas depois de terem plantado as orquídeas e descobriram que a maioria delas tinha sobrevivido.

"Elas estavam indo tão bem. Foi incrível. Nós ficamos realmente surpresos", conta.

No laboratório de Kane, também foi observado um sucesso inesperado, com botânicos conseguindo fazer com que as orquídeas fantasma floresçam em três anos. No seu habitat natural, demoram 16 anos ou mais, se é que florescem.

Alvo de ladrõesA orquídea fantasma, alvo frequente de furtos, alcançou a fama com o livro 'O ladrão de orquídeas' e sua adaptação para o cinema, protagonizada por Nicolas Cage e Meryl Streep.

A aparência erótica dessa espécie, assim como seus tons brancos e a maneira como se movem com o vento seduzem os amantes das orquídeas.

Floresce apenas uma vez por ano, normalmente durante algumas semanas em junho ou julho, e tem um único polinizador, a mariposa noturna Cocytiusantaeus.

A orquídea fantasma é difícil de cultivar, e ainda mais difícil de manter viva, especialmente fora do seu habitat natural.

"A razão pela qual elas estão quase extintas é que, anos atrás, as pessoas as levavam para fora da floresta (...) e as mandavam para outras partes do país para crescerem como plantas de interior", disse Carl Lewis, diretor do Jardim Botânico Fairchild Tropical, em Miami.

Além de clonar orquídeas fantasma em seu laboratório, Lewis lidera o Million Orchid Project (projeto um milhão de orquídeas), outro esforço de conservação com o objetivo de restabelecer oito tipos de orquídeas raras em cinco anos em espaços urbanos no sul da Flórida.

Em outra parte da região de Everglades, o biólogo Mike Owen vigia 120 das 380 orquídeas fantasma observadas no Parque Estatal de Conservação Fakahatchee Strand.

Segundo Owen, estas flores magníficas enfrentam um futuro incerto. Nos últimos 15 anos, ele percebeu que nove delas foram roubadas, e outras 20 morreram por causas naturais.

Owen e seus colegas estão elaborando uma lista de todos os exemplares de orquídeas fantasma conhecidos na região, com a esperança de que algum dia se possa decretar a proteção federal de uma espécie em risco de extinção, afirma o biólogo.

Com este tipo de proteção, "as leis são mais duras e as multas são mais altas", explica.

Os cientistas que buscam preservar esta rara orquídea dizem que não se trata apenas de uma flor.

"As orquídeas são os primeiros indicadores de mudanças ambientais", disse Kane.

"Entender como elas crescem, como reintroduzi-las, é uma base muito importante para a conservação", concluiu.

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