Rússia ordena trégua humanitária em Ghuta Oriental

Douma, Síria, 26 Fev 2018 (AFP) - O presidente russo, Vladimir Putin, ordenou a instauração, a partir desta terça-feira, de uma trégua humanitária em Ghuta Oriental, reduto dos rebeldes que são alvo de uma intensa ofensiva na Síria.

"Sob ordem do presidente russo e com o objetivo de evitar perdas entre os civis de Ghuta Oriental, uma trégua humanitária será instaurada a partir de 27 fevereiro, das 09H00 às 14H00 (local)", indicou o ministro russo da Defesa, Serguei Shoigu, citado pelas agências russas.

Segundo Shoigu, "corredores humanitários" serão estabelecidos para permitir a evacuação dos civis. "As coordenadas estão prontas e serão divulgadas em breve", precisou.

Esta medida é anunciada após a adoção no sábado pelo Conselho de Segurança da ONU de uma resolução exigindo "sem demora" um cessar-fogo humanitário de um mês na Síria, enquanto mais de 550 civis foram mortos em oito dias de ataques do regime neste reduto rebelde, localizado perto de Damasco.

"Cinco horas é melhor do que nada, mas gostaríamos que a trégua se prolongasse durante 30 dias, como determinou o Conselho de Segurança", reagiu o porta-voz da ONU Stephane Dujarric.

Os ataques aéreos e disparos de artilharia do regime de Bashar al Assad contra Ghuta Oriental continuavam nesta segunda-feira, apesar de aparentemente terem diminuído de intensidade, fazendo 22 mortos entre civis, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

Entre as vítimas estão nove pessoas de uma mesma família: eles morreram sob os escombros de sua casa, atingida por ataques noturnos, segundo a ONG.

De acordo com um correspondente da AFP, os civis de Duma estão abrigados em subsolos, temendo as bombas do regime, e são poucos os moradores que se aventuram nas ruas desertas em busca de alimento.

"Os bombardeios contra Guta foram interrompidos às 16H00 (11H00 Brasília) e, retomados no início da noite de forma limitada", disse à AFP o diretor do OSDH Rami Abdel Rahman. "Mas os disparos de artilharia continuaram sobre a região de Al Marj", onde ocorreram combates entre as forças do regime e rebeldes do grupo Yaish al Islã.

- 'Inferno na Terra' -Pouco antes do anúncio de Moscou, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, disse que a resolução da ONU deveria ser aplicada "imediatamente".

"Espero que esta resolução seja aplicada imediatamente para tornar possível prestar imediatamente ajuda e serviços humanitários", declarou Guterres, acrescentando que "as resoluções do Conselho de Segurança só têm sentido se são efetivamente aplicadas".

"Ghuta Oriental, em particular, não pode esperar. Já é hora de acabar com este inferno na terra", insistiu.

As forças do regime de Bashar Al-Assad iniciaram em 18 de fevereiro uma intensa campanha aérea contra Ghuta Oriental, prelúdio segundo a imprensa estatal síria de uma ofensiva terrestre para reconquistar este território de 100 quilômetros quadrados, que fica próximo a Damasco.

A campanha do regime, apoiado militarmente por Moscou, tem uma grande violência, inclusive para um país devastado desde 2011 por um conflito que deixou 340.000 mortos.

A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, também defendeu a aplicação imediata da trégua de 30 dias na Síria para permitir a entrega de ajuda humanitária e as retiradas médicas.

"A resolução foi um primeiro passo necessário e promissor, mas deve ser imediatamente implementada", disse Mogherini.

- 'Gás de cloro' -Várias tréguas foram adotadas na Síria nos sete anos de conflito, quase sempre terminando em fracasso.

O cenário em Ghuta recorda o de Aleppo (norte) em 2016: Moscou estabeleceu uma trégua unilateral para permitir a evacuação de civis e a retirada de combatentes, antes que o regime reassumisse o controle total da cidade.

Nesta segunda-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, expressou sua "profunda preocupação" com os contínuos bombardeios no leste da região. Paris deve enviar na terça-feira à Rússia, seu ministro das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, enquanto a França e a Alemanha pediram a Moscou para exercer "pressão máxima" sobre a Síria para uma aplicação "imediata" da trégua.

No domingo à noite, 14 casos de asfixia, incluindo o de uma criança, que morreu, foram relatados pelo OSDH, após um bombardeio do regime.

Um médico que tratou os pacientes, Dr. Yaacoub, levantou "suspeitas de uso de armas químicas, provavelmente um ataque com gás de cloro".

Um líder do poderoso grupo rebelde islamita Jaich al-Islam, Mohamed Alluche, acusou o regime em sua conta no Twitter.

Já Moscou denunciou nesta segunda-feira "informações falsas".

No dia anterior, o ministério da Defesa havia culpado os insurgentes, afirmando que eles prevêem "o uso de substâncias tóxicas para acusar as forças governamentais de usar armas químicas contra a população civil".

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