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Igreja Católica luta para enviar mensagem concreta aos jovens

27/10/2018 19h17

Cidade do Vaticano, 27 Out 2018 (AFP) - A Igreja Católica, representada por 267 prelados de todos os continentes, encerra neste sábado (27) um sínodo de um mês dedicado aos jovens sem ter definido uma proposta concreta, segundo os participantes.

Após a votação, no fim da tarde, na qual se aprovou o documento final desta assembleia internacional de bispos, o papa Francisco fez alusão a um "momento difícil" marcado por "acusações contínuas para manchar a Igreja", que são uma forma de "perseguição".

Francisco fez um chamado aos participantes a "defender a Igreja", uma possível referência a certos opositores ultraconservadores do papa que usam os escândalos de abusos sexuais contra ele.

Os abusos do clero, muito discutidos na primeira semana, aparecem nas conclusões votadas no sínodo, embora não façam parte dos temas principais, como queriam, entre outros, alemães e americanos.

Muitos países de Ásia e África, que por enquanto se livraram de escândalos públicos, se mostraram pouco receptivos a este terremoto, que atinge Chile, países europeus e Estados Unidos.

O texto ressalta "o dever de erradicar uma cultura do exercício da autoridade na qual lançam raízes os diversos tipos de abusos" (de poder, econômicos, de consciência ou sexuais).

Acrescenta que também é preciso "enfrentar a falta de responsabilidade e de transparência com as quais são gerenciados muitos destes casos".

Ao abrir esta reunião de cúpula mundial, no último dia 3, o Papa Francisco pediu aos bispos que "transformassem as estruturas", às vezes demasiadamente rígidas, da Igreja.

Aposta alcançada? O documento final "parece um catálogo da [loja de móveis] Ikea", comentou um bispo, particularmente irritado com a máquina consensual do Vaticano. "Tem todo o necessário para o banheiro e a cozinha, em todos os estilos, para que todos se vejam refletidos."

"Um bispo do Leste Europeu arriscou-se a dizer que a moral da Igreja, ou seja, 'nada de relações sexuais antes do casamento' havia se tornado insuportável. Passamos para o tema seguinte e não voltamos a falar sobre isso", comentou.

"Sobre a internet, um consenso é possível; sobre a moral sexual, é impossível, as opiniões são muito variadas", assinalou outro bispo.

- Desaparecimento da sigla LGBT -"Algumas propostas ousadas, sujeitas a ganhar manchetes, não foram mantidas", confirmou o bispo francês monsenhor Emmanuel Gobillard, um dos poucos que falaram sobre sexualidade.

Ele destacou que se havia tratado de uma experiência importante dentro de uma Igreja universal, que aborda uma ampla diversidade de idiomas e culturas.

As reações alegres de 34 jovens convidados constituíram um sopro de ar fresco, pelo qual os bispos agradeceram. Por outro lado, um grupo de especialistas ou auditoras participou pela primeira vez desta reunião, masculina.

"Não me surpreenderia que o próximo sínodo se dedique às mulheres", afirmou a irmã francesa Nathalie Becquart.

O texto final, no entanto, é pouco entusiasta neste sentido.

"Um domínio de importância especial é a presença feminina nos organismos eclesiásticos em todos os níveis, igualmente nos processos de tomada de decisões eclesiásticos", escreveram os bispos.

E embora todos os bispos tenham prometido colocar em prática em seus países o que aprenderam no sínodo, o texto final, com umas 60 páginas, limita-se a recolher generalidades que evitam os pontos de atrito.

A sigla LGTB surgiu na primeira vez na história do Vaticano em um documento de trabalho. Mas como era de se esperar, a menção foi rejeitada taxativamente pelos bispos africanos, também foi criticada por um bispo conservador americano. Acabou fora da versão final.

"Em muitas comunidades cristãs, já existem caminhos de acompanhamento da fé a pessoas homossexuais; o sínodo recomenda favorecer estes caminhos", menciona o parágrafo 150, bastante floreado, que foi o que teve mais repúdios durante a votação.