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A fuga de Lise, mulher de um perigoso jihadista francês

22/02/2019 13h11

Près de Baghouz, Síria, 22 Fev 2019 (AFP) - Forçada pela fome e ilusões perdidas, Lise, uma jovem francesa, fugiu da última fortaleza do grupo Estado Islâmico (EI) e falou aos socorristas sobre a sua vida na Síria e o destino de seu marido, um jihadista francês considerado muito perigoso por Paris.

Na terça-feira, ela apareceu na colina rochosa com vista para a aldeia de Baghuz e de onde as forças anti-EI observam o último reduto dos jihadistas.

Lise, de 24 anos, chegou coberta com um "sitar", um longo véu integral negro cobrindo até os olhos, com o filho de dois anos que teve com o jihadista francês Tayeb Derraz.

Ela estava em um grupo de cerca de quarenta homens, mulheres e crianças de vários países, especialmente árabes, informaram membros da ONG Free Burma Rangers (FBR), que fornece os primeiros socorros e alimentos aos sobreviventes do cerco em Baghuz.

De acordo com fontes francesas concordantes, a jovem, natural da região de Tours, deixou subitamente a França em 2014, deixando para trás marido e uma criança de apenas dois anos.

Quatro anos depois, nesta colina no leste da Síria, "ela nos olhava como uma fera encurralada", silenciosa e tensa, lembra Paul Bradley, um dos socorristas da FBR.

Em seguida, começou a falar, especialmente a David Eubank, o chefe da FBR: "Ela me disse que se converteu ao Islã aos 12 anos, sozinha. E que quer voltar para a França. Ela esperava que o governo francês a aceite de volta".

Exaustos após semanas de bombardeios da coalizão internacional que apoia os combatentes árabes e curdos das Forças Democráticas Sírias (FDS), cerca de 44.000 pessoas fugiram desde dezembro passado de Baghuz.

- "Vida normal" -Lise foi então conduzida a um dos campos de refugiados do nordeste da Síria, onde centenas de mulheres de jihadistas e seus filhos estão confinados sob a custódia das forças curdas, à espera que seus países de origem aceitem um dia repatriá-los.

Como outras mulheres francesas que deixaram o EI recentemente, Lise afirmou que, no início, foi feliz na Síria, no "califado" que prometia igualdade, solidariedade e a prática rigorosa do Islã.

Os primeiros anos: "Eu tinha uma vida normal, tinha o meu 'sitar'", explicou a um repórter de uma televisão local, Ronahi TV.

Ela se casou com Derraz Tayeb, um francês nascido em Perpignan (sul da França) e da mesma idade, de acordo com parentes de jihadistas na Síria e especialistas do caso, incluindo Jean-Charles Brisard, presidente do Centro de Análise Terrorista (CAT) em Paris.

Chegado à Síria em 2013 aos 18 anos, este jihadista postou vídeos em que aparecia executando um rebelde do Exército Sírio Livre (ESL) e atirando nas costas de prisioneiros.

Ele passou a ser monitorado de perto pelos serviços de inteligência franceses porque "estava considerando retornar ilegalmente à Europa para cometer uma ação violenta", segundo Jean-Charles Brisard.

- "O caos" -Alvo de um mandado de prisão, Tayeb Derraz é "uma máquina de morte e ameaçou a França", afirmou a Procuradoria francesa durante o julgamento em 2017 de dois de seus companheiros.

Depois de fugir de Baghuz, Lise disse aos socorristas que ela desconhecia o destino do marido, mas que acreditava em sua morte.

Segundo Brisard, Tayeb Derraz teria sido executado pelo ESL em Hama, no centro da Síria, onde o casal morou por um tempo. Sua morte não foi oficialmente confirmada.

Depois de Hama, Lise seguiu o EI após sua derrota para as FDS e seus aliados ocidentais até Baghuz, no extremo leste da Síria.

Sua proximidade com Tayeb Derraz e o fato de ter ficado tanto tempo com o EI poderia pesar muito se for repatriada e julgada na França.

Na terça-feira, os fugitivos mostraram aos socorristas o que estavam comendo há semanas: biscoitos marrons feitos de trigo triturado misturado com água e assados no fogo. Vendidos a uma fortuna (US$ 15 por quilo), como o açúcar (US$ 60) no mercado negro jihadista.

Um tráfico que acabou sufocando as famílias mais frágeis e enterrando as últimas ilusões de Lise.

Em Baghouz, "só vi injustiças, era o caos", disse ela à Ronahi TV. "Não havia comida, nem remédio", exceto para aqueles com conexões.

emd/bur/mr

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