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Famílias turcas fogem dos combates na fronteira síria

Ozan Kose/AFP
Imagem: Ozan Kose/AFP

Da AFP, em Viransehir (Turquia)

15/10/2019 15h04

O dia começou como qualquer outro para Ayse, moradora de Ceylanpinar, cidade turca na fronteira com a Síria: as crianças brincavam do lado de fora, enquanto ela fazia pão em casa. Até que o lançamento da ofensiva turca acabou abruptamente com sua tranquilidade.

No fatídico dia 9 de outubro, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, lançou uma operação contra a milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPGs).

Entre os obuses das forças curdas que caíram sobre a cidade e os aviões de combate turcos que sobrevoavam suas casas para atacar alvos do outro lado da fronteira, Ayse e seus filhos, como tantas outras famílias de Ceylanpinar, escolheram fugir.

"Mesmo que você não queira, não pode deixar de ter medo", afirmou a mãe de seis filhos. "Nunca imaginamos que os atentados fossem tão violentos", acrescentou.

Quando o ataque começou, Ayse se escondeu com os filhos debaixo da mesa da casa. Depois de sete dias, abandonaram a cidade e foram para um dos sete centros de acolhida abertos em Viransehir, a cerca de 50 quilômetros.

Lá, o governo recebe e alimenta aproximadamente 1.000 pessoas, principalmente mulheres e crianças.

"Eu sempre disse que não iria embora. Mas vi claramente que meus filhos ficaram traumatizados com o barulho das explosões", desabafa.

A artilharia e aviação turcas bombardeiam alvos localizados do outro lado da fronteira, em Ras al-Ain, em frente a Ceylanpinar. Em resposta, as YPGs disparam foguetes e projéteis na cidade turca, onde vivem cerca de 70.000 pessoas.

Segundo as autoridades turcas, dois garotos de 11 anos morreram na quinta-feira pelos projéteis que caíram sobre a cidade.

"Nós fugimos à noite, deixando tudo para trás", conta Gülistan, mãe de oito filhos, o caçula com apenas seis meses de vida, e que também partiu de Ceylanpinar.

Saques

Como parte de uma visita organizada pelas autoridades turcas, a AFP conseguiu entrevistar várias mulheres que estavam nos abrigos.

Uma delas relata que um míssil caiu em sua casa sem detonar. "Os policiais vieram cuidar dele. Nos disseram que se tivéssemos ligado uma hora depois, poderia ter explodido", afirmou.

Enquanto os confrontos continuavam do outro lado da fronteira na segunda-feira e os bombardeios seguiam sobre a cidade, outras famílias decidiram partir para Viransehir.

As mulheres do abrigo explicam que alguns de seus familiares ficaram na cidade para defender suas casas, depois que saques foram registrados.

Ayse chora ao lembrar da mãe, do marido e do filho de 19 anos deixados para trás.

Apesar da angústia, estas mulheres dizem apoiar a operação de Ancara. "Que Deus proteja nosso Estado e nossos soldados", disse Ayse.

Em vez de chegar ao centro de acolhimento de Viransehir, muitas famílias que deixaram Ceylanpinar preferiram se abrigar com familiares que moram em outras regiões.

No meio de tudo isso, Ayse tem apenas um desejo: voltar para casa. "Mas meu marido me disse que os confrontos continuam", enfatiza.

Quanto tempo você vai ficar aqui? "Quem sabe", diz ela. "Talvez mais uma semana. Talvez mais..."

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