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A agonia das viúvas de Srebrenica 25 anos após genocídio

09/07/2020 08h51

Srebrenica, Bósnia-Herzegovina, 9 Jul 2020 (AFP) - Fátima Mujic recita várias vezes ao dia a oração dos mortos, por seus filhos e seu marido, mortos no genocídio de Srebrenica.

Mas quando pensa em Refik, seu filho mais velho, a dúvida toma conta, porque 25 anos após o massacre seu corpo ainda não foi encontrado.

"Eu ainda acho que ele está vivo em algum lugar. Para os outros, eu já sei o que aconteceu, mas quando oro por ele, minhas mãos tremem, não sei o que fazer", disse à AFP esta viúva de Srebrenica, no leste da Bósnia.

Dois de seus três filhos e seu marido, cujos corpos foram encontrados em valas comuns depois da guerra, foram enterrados em 2010 no Monumento ao Genocídio de Srebrenica.

O Monumento, construído perto de Srebrenica, é um memorial e também um cemitério onde repousam 6.643 vítimas do massacre de julho de 1995.

As forças sérvias do general Ratko Mladic, condenado à prisão perpétua pela justiça internacional, mataram mais de 8.000 homens e adolescentes bósnios (muçulmanos).

O massacre, que ocorreu cinco meses antes do fim do conflito, que deixou 100.000 mortos entre 1992 e 1995, foi descrito como um ato de genocídio pela justiça internacional.

Duzentas e trinta e sete outras vítimas foram enterradas fora da Bósnia. Mais de mil pessoas ainda estão desaparecidas.

Fátima Mujic, de 75 anos, vive em Ljesevo, uma cidade perto de Sarajevo. Afirma que vive esperando "a ligação" que anunciará que o corpo de Refik foi encontrados. Ele tinha 25 anos, uma filha de 18 meses e um menino de 40 dias.

Mas as últimas das 84 grandes valas comuns foram descobertas em 2010.

- "Mamãe, não me deixe" -Desde julho de 2019, "os restos mortais de apenas 13 vítimas foram encontrados", diz Emza Fazlic, porta-voz do Instituto de Pessoas Desaparecidas, e lamenta "a falta de informação" que permitiria encontrar os restos desaparecidos.

Poucos dias após o 25º aniversário do massacre, no sábado, Fátima recorda seu "combate" frente às forças da ONU em Potocari, perto de Srebrenica, onde hoje está o memorial, para salvar seu filho mais novo, Nufik, de 16 anos.

Milhares de mulheres, crianças e idosos se reuniram na área em 11 de julho de 1995, na esperança de obter a proteção dos soldados holandeses.

Os soldados sérvios separavam os homens e os adolescentes dos outros e os levavam para executá-los.

Nufik "grudou em mim e disse 'mamãe, não me deixe'. Eu acariciei seus cabelos encaracolados e disse 'não vou deixar você'. Eles o levaram embora, eu os segui", conta Fátima.

Seus outros dois filhos e o marido, que haviam fugido pelas colinas arborizadas, foram capturados.

- Nem ódio nem reconciliação -Outra viúva, Mejra Djogaz, de 71 anos, decidiu passar o resto de seus dias onde sua vida "parou" há 25 anos.

Mora em uma casa ao lado do memorial. Todas as manhãs, quando sai para regar as plantas no quintal, vê milhares de estelas brancas.

Omer e Munib, seus dois filhos que morreram no massacre, descansam ali. Tinham respectivamente 19 e 21 anos de idade.

"Não tenho motivos para viver. Cuido das flores, mas estão estão nessa terra escura", diz.

Seu terceiro filho, Zuhdija, de 20 anos, e seu marido Mustafa haviam sido mortos três anos antes, em 1992, durante o cerco a Srebrenica.

"Meus filhos não fizeram mal a ninguém, não bloquearam o caminho nem de uma formiga. Pergunto-me por que mataram meus filhos? Eram meus vizinhos", diz, referindo-se aos militares sérvios que moravam em sua cidade.

Ramiza Gurdic, 67 anos, também se pergunta "quem são esses homens" que mataram seus dois filhos e seu marido. "Eles tinham filhos, como era a alma deles?"

Mehrudin tinha 17 anos e Mustafa 20. Com o pai, fugiu pela floresta. Mustafa temia o pior.

"A separação foi difícil. O mais velho tinha um cigarro na boca e já preparava outro. Ele disse: 'Mãe, nunca mais vou te ver'. O mais novo não disse nada", explica Ramiza.

Seus restos mortais foram encontrados, mas apenas "metade de Mehrudin". Ramiza tem esperança de encontrar a outra metade.

"Sua mãe não o trouxe ao mundo sem cabeça ou braços. Ele os tinha e era um menino bonito", afirma.

No entanto, não guarda rancor de seus assassinos. "Que Deus lhes dê o que eles merecem (...) Nem ódio, nem mal, mas também nada de reconciliação", diz.

rus/ev/pc/zm/mr