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Conteúdo publicado há
1 mês

Sobreviventes de massacre do Sendero Luminoso nos Andes não esquecem, nem perdoam

17/09/2021 15h55

Santiago de Lucanamarca, Peru, 17 Set 2021 (AFP) - Sobreviventes do massacre de Lucanamarca, um dos piores do grupo maoista Sendero Luminoso no Peru, lembram daquela noite assustadora de quase 40 anos atrás e não perdoam o ex-chefe guerrilheiro Abimael Guzmán, que morreu na semana passada.

"É um trauma que não podemos esquecer", diz Rolando Misaico, que aos 10 anos perdeu a mãe no massacre de 69 camponeses na noite de 3 de abril de 1983 nesta comunidade camponesa pobre, localizada a 550 quilômetros a sudeste de Lima.

Uma coluna de 60 guerrilheiros armados com facões, machados, facas e armas de fogo entrou na cidade localizada a 3.500 metros de altitude, convocou a população para a praça central e assassinou 69 moradores.

Alguns foram queimados vivos com querosene, outros foram mutilados até a morte, disseram os sobreviventes à AFP.

O gatilho foi a recusa da comunidade em aceitar as normas impostas pelo Sendero Luminoso em Ayacucho, departamento andino marcado pela pobreza e pela violência.

- "Mataram minha mãe com um machado" -O massacre de Lucanamarca foi uma mensagem sobre o que poderia acontecer àqueles que não estavam dispostos a se submeter às regras do Sendero Luminoso.

Também mostrou a crueldade e a determinação dos guerrilheiros maoistas.

"Minha mãe ficou em casa. Eles a mataram lá com um machado. Quando eu voltei dos cuidados com o gado ela já estava morta", disse Misaico, que também perdeu seis outros parentes no massacre.

"Fui salvo por um milagre", reflete ele após deixar flores no túmulo de sua mãe, Felicitas Ebanan, no cemitério de Lucanamarca.

Os sobreviventes refugiaram-se dos guerrilheiros em cavernas nas colinas dos entornos.

- "Não tem perdão" -"Abimael não tem perdão. Se ele está morto, deixem queimar seu corpo e jogá-lo no mar para que ele desapareça", disse Orfelinda Quincho, de 64 anos à AFP.

A professora perdeu nove parentes no massacre, incluindo sua mãe e um filho.

Em 2006, a justiça peruana considerou Abimael Guzmán e sua esposa Elena Yparraguirre culpados de serem os idealizadores do massacre de Lucanamarca e os condenou à prisão perpétua.

Desde sua morte, aos 86 anos, no último sábado, o corpo de Guzmán está em um necrotério esperando que o governo de Pedro Castillo decida seu destino. Embora sua viúva reivindique o corpo, o Congresso aprovou um projeto de lei autorizando sua cremação e agora o presidente deve decidir.

"Eles me capturaram e me levaram para a praça principal e jogaram querosene na porta da igreja, mas um chamado aos 'sinchis' (policiais) nos salvou", lembra Epifanio Quispe, de 75 anos, que na época perdeu seu irmão de 32 anos.

Um monumento em forma de pirâmide homenageia as 69 vítimas do massacre, incluindo 22 crianças e 14 mulheres.

Por medo de represálias, os familiares só denunciaram formalmente o incidente à Comissão de Verdade e Reconciliação 18 anos depois, em 2001.

O conflito deixou um total de 70.000 mortos, milhares de desaparecidos e deslocados pela violência da guerrilha e das Forças Armadas, que deixaram as populações andinas sob fogo cruzado de 1980 a 2000.

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