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1 mês

Operação policial na Vila Cruzeiro deixa 21 mortos

24/05/2022 16h56

Rio de Janeiro, 24 Mai 2022 (AFP) - Uma nova incursão policial contra o tráfico de drogas em uma favela do Rio de Janeiro deixou 21 mortos nesta terça-feira (24) um ano depois da operação mais letal da história da cidade, com 28 mortos no Jacarezinho.

O número de mortos na Vila Cruzeiro subiu de 12 para 21, segundo novo balanço da Secretaria Estadual de Saúde, que não divulgou a identidade das vítimas.

Mais cedo, a Polícia Militar do Rio de Janeiro havia reportado que pelo menos 11 dos mortos eram criminosos e que uma vizinha de um bairro próximo tinha morrido atingida por uma bala perdida.

A PM assegurou ter sido recebida a tiros por criminosos na parte alta da favela, quando se preparava para iniciar a operação.

Na segunda operação policial com um alto número de mortes este ano na Vila Cruzeiro, uma comunidade da zona norte onde, segundo a polícia, estão escondidos líderes do "Comando Vermelho", quadrilha de narcotraficantes que semeia o terror desde o fim da década de 1970.

"Aquela facção criminosa [CV] costuma fazer invasões em outras áreas, tínhamos o indicativo que essa quadrilha se deslocaria pela cidade", detalhou o comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Uirá do Nascimento Ferreira, que atuou em conjunto com a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Sete pessoas ficaram feridas e foram atendidas em um hospital próximo, segundo o último balanço.

Os agentes apreenderam 13 fuzis, 12 granadas, quatro pistolas e uma quantidade indeterminada de drogas. Além disso, foram confiscados vinte motos e vinte carros que supostamente pertencem à quadrilha.

As autoridades informaram que ao menos 19 escolas da região fecharam devido ao tiroteio que, de acordo com o relato de moradores, começou de madrugada. Ao meio-dia, tiros e explosões ainda podiam ser ouvidos perto da favela, segundo um fotógrafo da AFP.

O Comando Vermelho é responsável por "mais de 80% dos confrontos armados no Rio", segundo Ivan Blaz, porta-voz da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

- População em risco -Em frente à porta do hospital Getúlio Vargas, a cinco minutos da Vila Cruzeiro, uma dezena de vizinhos e parentes dos mortos, em sua maioria mulheres, buscavam informações sobre seus entes queridos na terça-feira. Desconsolados, alguns gritavam e choravam, segundo o fotógrafo da AFP.

"Essas operações policiais em favelas colocam em risco a vida de toda a população, impedem o funcionamento de serviços públicos e do comércio, (...) e não resolvem absolutamente nenhum problema de segurança", disse à AFP Guilherme Pimentel, Ouvidor da Defensoria Pública do Rio.

"Sabemos que essas operações jamais seriam toleradas em bairros nobres da cidade. É preciso que também não sejam mais toleradas nas favelas", acrescentou.

A Human Rights Watch lamentou as mortes e exigiu uma investigação "imediata" e "exaustiva" do que aconteceu. "O Rio precisa urgentemente de uma nova política de segurança pública que não seja a bala", afirmou.

A Vila Cruzeiro, uma das favelas que compõem o Complexo da Penha, foi palco em fevereiro de outra operação semelhante que deixou oito suspeitos mortos.

Foi lá também que o jornalista Tim Lopes foi torturado e executado por traficantes em 2002, enquanto fazia uma reportagem sobre abuso infantil na favela.

- Violência endêmica -O Rio completou este mês um ano da operação policial mais mortal de sua história na favela do Jacarezinho, localizada a oito quilômetros de Vila Cruzeiro, onde 28 pessoas morrerem em uma operação contra o tráfico em 6 de maio de 2021.

Em 2021, a polícia do estado do Rio causou a morte de 1.356 pessoas, enquanto em todo o Brasil houve um total de 6.133 mortes nas mãos das forças policiais, segundo o projeto Monitor da Violência.

O Rio, cidade com problemas crônicos de violência policial, planeja instalar cerca de 8.000 câmeras nos uniformes dos policiais, medida que especialistas dizem estar mostrando resultados promissores em outros estados brasileiros, embora não constitua por si só uma "panaceia" contra os excessos.

O início do projeto, originalmente previsto para maio, foi adiado para junho, segundo a imprensa local.

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