Incêndio atinge comunidade em bairro pobre de Olinda

Incêndio destrói Vila da Família, no bairro Peixinhos, em Olinda. Lideranças comunitárias suspeitam que um curto-circuito tenha provocado o fogo.

Incêndio destruiu parte da Vila da Família, no bairro de Peixinhos, em Olinda. Lideranças comunitárias suspeitam que um curto-circuito tenha provocado o fogo. Divulgação/Corpo de Bombeiros de Pernambuco

A comunidade Vila da Família, instalada de forma precária em uma área de mangue no bairro de Peixinhos, em Olinda (PE), foi atingida por um incêndio na madrugada de hoje (23). De acordo com o Corpo de Bombeiros de Pernambuco, uma área de cerca de mil metros quadrados foi destruída. Lideranças comunitárias estimam que entre 100 e 150 barracos foram queimados, mas não houve vítimas.

Eram cerca 5h, quando os gritos dos primeiros moradores avisando do incêndio começou a acordar a vizinhança. O fogo se espalhou rapidamente, já que as casas da comunidade, feitas de materiais como tábuas de madeira e plástico, ficam amontoadas e espremidas em uma área de mangue que foi aterrada de forma improvisada pela população. A área foi ocupada há cerca de quatro anos.

O Corpo de Bombeiros conseguiu controlar o fogo ainda de manhã, por volta de 8h. Cerca de 12 mil litros de água e cinco viaturas de combate a incêndios foram usados na operação. Apesar de não registrar vítimas físicas, os estragos materiais eram visíveis.

Grávida de sete meses, Raíza dos Santos Turiano, 21 anos, foi uma das pessoas que perderam tudo. Ela vivia com dois filhos no centro da área mais atingida pelo fogo e só conseguiu tirar a família de casa. Com a roupa e o corpo cobertos de cinzas, a jovem buscava algum vestígio do que foi seu lar. Embora preocupada com a própria tragédia, Raíza só falava dos vizinhos.

"Tinha uma mulher aqui que teve filho ontem, está cheia de pontos por causa da cesariana. Tiveram que tirar ela nos braços, a criança dela também. Outra mulher estava com o neto dormindo e o fogo já chegando, eu que a acordei, tirei o botijão para não explodir, tirei algumas coisas dela. As minhas coisas já tinham se acabado, não tinha como salvar mais nada. O único jeito era eu ajudar o povo", contou. Agora, Raíza deve provisoriamente na casa da mãe, que mora em um conjunto habitacional construído pela prefeitura.

Diferente de Raíza, a lavadeira Maria da Conceição Correia, 42 anos, disse que não pode contar com ajuda da família e vai ter que recorrer a um abrigo. Vestida com uma roupa doada pela vizinha, Maria mal conseguia falar da tragédia sem chorar. Ela vivia sozinha com o neto em um dos barracos. O pai da criança foi assassinado há dois anos. Segundo ela, não restou nenhum membro da família para recebê-la. "Agora é trabalhar para começar tudo de novo. Construir tudo. É o jeito", lamentou.

Até o começo da tarde, as lideranças comunitárias da Vila da Família identificaram cerca de 25 famílias que vão precisar ir para abrigos. De acordo com a líder Silvana Soares da Silva, 31 anos, a prioridade agora é conseguir um local provisório para quem precisa. "Estamos lutando para conseguir um abrigo para quem não tem para onde ir, e também anotando o nome de quem tem parentes para abrigar. O principal agora é um lugar para ficar", explicou.

Suspeita de curto-circuito

De acordo com Silvana, os moradores acreditam que a causa do incêndio foi um curto-circuito, o que é comum em regiões com muitas ligações irregulares de energia. "Aqui é clandestino, nenhuma companhia energética veio e a gente fica na gambiarra mesmo, ao deus-dará". Para a líder comunitária, o incêndio desta madrugada foi uma tragédia anunciada.

"No início do ano passado teve um incêndio aqui, e o governo deu auxílio para quem foi atingido. Algumas pessoas que estão recebendo estão aqui ainda hoje. Nós falamos que podia acontecer de novo por ter gambiarra e eles não tomaram nenhuma atitude. Só ligaram para quem foi atingido pelo incêndio. E o restante do pessoal vivendo aqui? E foi isso que aconteceu agora. O restante não tem mais para onde ir", lamentou.

O Corpo de Bombeiros vai estudar a causa do incêndio. Em nota, a Prefeitura de Olinda informou que a Defesa Civil, em conjunto com técnicos da Secretaria Estadual de Habitação (SecHab), está realizando "levantamento da situação para uma análise das informações e possíveis encaminhamentos a abrigos, auxílios moradias e inserção em algum programa habitacional e social, como emissão de documentos, entre outros".

Ao lado da comunidade, um conjunto habitacional popular está sendo erguido. Os moradores da Vila da Família, no entanto, não serão os contemplados, de acordo com eles. "Tem um conjunto na Palha de Arroz [em outro bairro] que tem alguns cadastrados daqui. Mas a construção está parada. Eles só dizem pra gente que é a crise, que tem que entender. A gente já vive em crise faz é tempo", criticou Raíza.

Incêndios em comunidades

Outros incêndios em comunidades pobres do Recife foram registrados este mês, todos provavelmente causados por curto-circuito. No dia 3, o fogo atingiu a comunidade de Santa Luzia, no bairro da Torre. No dia 16, um incêndio na comunidade do Coque, no bairro de Joana Bezerra, atingiu cinco casas.

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