Violência no Rio

Após seis meses, morte de skatista continua sem solução em Paraty

Alex Rodrigues - Repórter da Agência Brasil

  • Fernando Fernandes

    Giselle Alves Ferreira, skatista, não viveu para ver a primeira pista de skate da cidade ser inaugurada

    Giselle Alves Ferreira, skatista, não viveu para ver a primeira pista de skate da cidade ser inaugurada

Seis meses após o assassinato da skatista Giselle Alves, em Paraty (RJ), o caso não foi esclarecido e nenhum responsável foi identificado. A vítima, de 33 anos, foi morta na madrugada de 30 de dezembro de 2015, no centro da cidade histórica do litoral sul fluminense. O caso foi registrado como homicídio qualificado, o que causou sensação de insegurança entre os moradores da cidade. Para o delegado responsável, Flávio Narciso, não há dúvidas se tratar de um crime passional, mas cuja investigação é "complexa". 

"A pessoa que fez isso estava decidida a fazê-lo", diz o delegado.

A violência empregada, os indícios de que Giselle foi abusada sexualmente e o fato de ela ter morado em várias cidades, inclusive fora do país, onde tinha muitos amigos, levou o caso a ganhar repercussão nas redes sociais. A partir daí, grupos feministas passaram a exigir que o criminoso fosse identificado e punido. Uma petição criada na internet para pedir celeridade no esclarecimento do crime já reuniu mais de 9.000 assinaturas.

Segundo testemunhas ouvidas na 167ª Delegacia de Polícia, o crime ocorreu entre 3h30 e 4h30 de uma quinta-feira, quando não havia praticamente ninguém pelas ruas da cidade. Giselle estava com um grupo de amigos e com o namorado, Ralph Willians, em uma praça próxima à Igreja da Matriz (Nossa Senhora dos Remédios) quando, sem avisar ninguém e sem motivo conhecido, se afastou do grupo. Com o skate em mãos, ela percorreu sozinha alguns quarteirões do centro histórico, em sentido contrário ao da casa onde morava com Ralph - que, segundo testemunhas, permaneceu na praça até que o grupo se desse conta da ausência de Giselle. Como a skatista não voltava, algumas pessoas foram procurá-la.

O corpo foi encontrado, de bruços, com as peças de roupa levantadas até a altura do joelho. Além de um ferimento na cabeça, o rosto de Giselle estava bastante machucado. Chumaços de cabelo da vítima foram encontrados próximos ao corpo.

Mais tarde, os peritos confirmaram que a skatista foi abusada sexualmente. Também foi identificada a marca de uma mordida na nádega da vítima, mas, segundo o delegado responsável pelo caso, isso não contribuiu para a investigação, pois não há como saber com exatidão se ela foi feita antes ou no momento do crime. "Analisamos a arcada dentária dos suspeitos para avaliar se a marca da mordedura era compatível com alguns deles, mas, independente dos resultados, eu não avalio que essa seja uma prova relevante", disse o delegado à Agência Brasil, sem revelar se a análise das arcadas dentárias de suspeitos identificaram o autor da mordida.

Frustração

Contratada pelos irmãos de Gisella para acompanhar o caso, a advogada Jaqueline Braga de Oliveira, afirma que os parentes e amigos próximos da vítima estão "frustrados" com a demora na solução do caso.

"Como a cidade é pequena, acreditávamos que teríamos uma resposta rápida. Parece-me haver um certo descaso. Em parte devido à falta de condições materiais do Estado, em parte devido ao pouco caso de algumas autoridades. Fato é que, para um caso de tamanha brutalidade, que repercutiu tanto e não só entre os moradores da cidade, a coisa está andando muito lentamente", comentou a advogada, que acredita que o assassino era próximo a Giselle e, provavelmente, a atraiu para uma rua deserta por meio de mensagens enviadas para o celular da vítima - único pertence não encontrado com a skatista, em cujos bolsos foi encontrado todo o dinheiro que ela carregava na noite do crime.

"Imagino que alguém mandou uma mensagem sugerindo o encontro, pois ela não tinha créditos no celular e ninguém a viu receber qualquer chamada. Ninguém viu o momento em que ela se afastou, nem por onde ela seguiu. Sabemos apenas que o corpo foi encontrado numa rua escura, afastada da praça da Matriz e perto do cais, onde, àquela hora, não há ninguém. Como o celular dela não foi encontrado, acho que seria imprescindível o WhatsApp ser intimado a fornecer cópia das conversas da Gisella", defende a advogada.

Insegurança

O assassinato de Giselle se soma a outros crimes recentes, como o atentado contra o prefeito de Paraty, Carlos José Gama Miranda, em maio de 2015 (já esclarecido), e o assassinato, em junho deste ano, de Jaison Caique Sampaio, o Dão, 23 anos, morador da Praia de Trindade, já na divisa com São Paulo. 

Moradores e comerciantes da cidade relataram à Agência Brasil episódios de violência e a crescente sensação de insegurança na cidade, cuja economia está apoiada na capacidade de atrair turistas.

Morador da cidade há nove anos, o recepcionista André França deixou o Rio em busca de "paz e tranquilidade". "Infelizmente, nos últimos anos, a situação em Paraty também se tornou preocupante. A segurança pública está muito ruim. O policiamento só é reforçado durante os grandes eventos turísticos. Já quem mora aqui está sujeito ao descaso das autoridades, principalmente quem mora nos bairros mais afastados. E não é só a segurança pública que está precária. Falta saneamento básico adequado, transporte de qualidade", disse França, lembrando que, no Carnaval de 2015, um tiroteio em pleno centro histórico deixou pelo menos dez feridos a balas.

O secretário municipal de Segurança e Ordem Pública, Almir da Silva Botelho, disse que, de maneira geral, os crimes vem diminuindo desde que a prefeitura instalou câmeras de monitoramento em algumas áreas da cidade - o local onde o corpo da skatista foi encontrado é um dos pontos que já estavam em estudo antes mesmo do assassinato.

"O que acontece é que o efetivo da PM é pequeno. O prefeito já pediu ao comando da PM e ao governador o aumento do efetivo e estamos aguardando uma resposta. A população tem razão em cobrar mais segurança, mas a verdade é que o indicadores vem melhorando com a instalação das câmeras, que ampliaremos tão logo equacionemos impasses como os que temos com o Iphan, já que o Centro Histórico é tombado", disse o secretário, ao informar que parte do efetivo da Polícia Militar que atua na cidade foi deslocado para a capital do estado, para ajudar a reforçar a segurança durante os Jogos Olímpicos.

Sobre os pedidos da prefeitura de reforço no policiamento, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro informou apenas que o 33º Batalhão, em Angra dos Reis (RJ), conta com 63 policiais, além de dois destacamentos - um deles próximo a Trindade.

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