Médicos denunciam sucateamento de hospitais federais no Rio de Janeiro

Ana Luiza Vasconcelos*

Os médicos do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB) denunciaram as condições de funcionamento e atendimento da unidade em carta aberta à população, em que apontam diversas irregularidades no funcionamento do hospital, como falta de médicos e má gestão.

Na carta, os profissionais criticam a demissão do diretor da Divisão de Emergência do hospital, Julio Noronha, após denunciar falhas do departamento de recursos humanos no setor de emergência. Noronha também responsabilizou a diretoria-geral do hospital pela não renovação de vários contratos de médicos que terminaram recentemente.

Hospital público Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil

"É inadmissível que um agente público ao cumprir o seu papel de expor a irregularidade no serviço público seja punido com o afastamento de suas funções de coordenar o setor como se o problema fosse ele. No mesmo dia que o coordenador da emergência faz a denúncia é solicitada sua exoneração pela diretora-geral Lúcia Bensiman, e publicada rapidamente em diário oficial", criticam os médicos no texto.

O documento também traz críticas à diretora-geral Lúcia Bensiman, que, segundo os profissionais que assinam a carta, "tenta obrigar os médicos que restaram a fazer uma carga horária superior à permitida além de estipular rodízio de funcionários em quatro dias da semana pela completa e total falta de clínicos no setor".

Fiscalização

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) confirma a situação preocupante de vários hospitais federais do Rio de Janeiro, entre eles o Hospital Federal de Bonsucesso e o Hospital Federal de Andaraí (HFA). Após fiscalização, o órgão constatou sucateamento nas unidades devido à falta de investimentos, má gestão. Em vistorias recentes, o conselho concluiu que os principais problemas enfrentados pelos hospitais são: redução de verbas, bloqueio de filas cirúrgicas, déficit de profissionais, fechamento de diversos setores, fechamento de serviços e falta de medicamentos, inclusive quimioterápicos.

De acordo com o Cremerj, o fato mais preocupante, também bastante mencionado na carta dos médicos do HFB, é a falta de profissionais. O último concurso para contratar médicos para a rede federal foi realizado em 2010, e não há previsão para um novo. Além disso, segundo o conselho, o Ministério de Planejamento, Desenvolvimento e Gestão proibiu a contratação temporária de médicos. No HFA, 40% dos profissionais são contratados de forma temporária pelo Ministério da Saúde. Além disso, o Centro de Terapia Intensiva (CTI) do hospital está funcionando com apenas um médico de plantão aos sábados à noite.

A Emergência do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB) também enfrenta problemas como a superlotação, com cerca de 53 pacientes internados, mais que o dobro da capacidade máxima estabelecida em acordo com o Ministério Público Federal. A fila de cirurgias do hospital está bloqueada, e durante a fiscalização, o Cremerj constatou que pacientes idosos e imunossuprimidos - mais suscetíveis a infecções - ficam dias internados em cadeiras simples no corredor da emergência, sem as mínimas condições de conforto e segurança, ao lado de pacientes com doenças infectocontagiosas.

Governo federal

O Ministério da Saúde afirma que os hospitais federais do Rio de Janeiro estão funcionando normalmente, com quase 5 mil médicos contratados pela rede e sem problemas de abastecimento.

Ao contrário do que o Cremerj e os médicos apontam na carta aberta, o ministério afirma que o atendimento das unidades de emergência dos hospitais federais aumentou.

Em nota, o Departamento de Gestão Hospitalar do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro informou que no primeiro trimestre deste ano, seis hospitais federais (Andaraí, Bonsucesso, Cardoso Fontes, Ipanema, Lagoa e Servidores do Estado) tiveram as consultas ambulatórias ampliadas em 18,48% e um aumento de 13% em procedimentos cirúrgicos, comparados ao mesmo período do ano passado.

Além disso, segundo o órgão, até maio de 2017, 216 profissionais tiveram seus contratos encerrados, entretanto, a área assistencial da rede federal recebeu 203 novos contratados, resultando em cerca 94% de reposição de profissionais.

Os médicos do HFB contestam as estatísticas do Ministério da Saúde. "A realidade não se esconde e a população está vendo todos os dias na emergência do hospital federal de Bonsucesso. Sobram pacientes pelas cadeiras e macas pelos corredores e faltam médicos para prestar assistência adequada aos pacientes que correm riscos reais e morrem diariamente na emergência do HFB", relatam os profissionais na carta aberta.


*Estagiária sob supervisão de Luana Lourenço

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