Críticas focam brechas da base curricular

São Paulo - A primeira versão da Base Nacional Comum, que vai estabelecer os conhecimentos e habilidades essenciais que todos os estudantes devem aprender na educação básica, recebeu uma enxurrada de contribuições e críticas exatamente nas disciplinas sobre as quais foram apontadas maiores deficiências. Português, Matemática e História receberam metade das 8,9 milhões de sugestões na consulta aberta para todo Brasil.

Especialistas questionam prazos apertados e avaliam se as fragilidades dessa versão podem inviabilizar o avanço para um bom texto. O Ministério da Educação (MEC) defende que a construção é processo, momento ideal para críticas, e a participação expressiva é um bom indicativo. O texto terá uma série de revisões e mais duas versões antes de seguir para a discussão final no Conselho Nacional de Educação até o meio do ano.

O MEC divulgou o texto da base em setembro e abriu uma consulta popular. Dados obtidos pelo Estado mostram que 24% das contribuições foram para Português, o que representa 2,3 milhões de mensagens. Na sequência, aparecem Matemática, com 1,1 milhão (14%), e História, com 978 mil (10%).

As três áreas foram foco de críticas desde que o texto veio à tona. Como o Estado revelou em 16 de setembro, o MEC soltou a base para consulta sem o bloco de História. O ex-ministro Renato Janine Ribeiro declarou que havia falhas. O conteúdo dá ênfase ao ensino de história indígena, considerado uma lacuna nas escolas brasileiras, mas ignora conhecimentos essenciais da história mundial. Em Português, umas das críticas foi sobre a ausência de gramática. Na parte de Matemática, a fragilidade seria no grau de exigência. Em outubro, o ministro Aloizio Mercadante disse esperar mudanças.

Depois da divulgação da primeira versão, o MEC convocou um grupo de 96 "pesquisadores renomados" para fazer uma leitura crítica. Em paralelo, a equipe de 116 especialistas da primeira versão faz uma revisão específica.

Cerca de 30 pessoas coordenadas por docentes da Universidade de Brasília (UnB) têm a missão de consolidar o que virá da consulta popular, aberta até março. "O refinamento qualitativo volta para os especialistas. Há quem apontou mudança de uma palavra e quem fez uma crítica completa. Tem até quem manda 'kkkk', que não deixa de ser uma crítica", conta a professora Thérèse Hofmann da Costa, da UnB, que lidera os trabalhos. A ideia é que relatórios da consulta fiquem prontos até abril, para compor a segunda versão da base.

As contribuições até agora vieram de 233 mil usuários. Desses, 167 mil são professores e 35 mil mensagens vieram de escolas. A professora da Federal de Juiz de Fora (UFJF) Hilda Micarello, uma das duas coordenadoras gerais, reforça que o documento em consulta é preliminar. "O maior mérito é envolver a sociedade na discussão."

Riscos. A especialista em Educação Ilona Becskeházy tem sido uma das vozes críticas. Segunda ela, o texto é tão frágil que não se coloca como opção para discussão. "O processo, só por ser aberto, não garante que haverá um produto de qualidade no final", diz ela. "O governo federal não parece ter desejo de fazer um material de padrão internacional, como França, Escócia, Portugal e Estados Unidos fizeram. Lá, eles chamaram os experts internacionais, fizeram revisão de outros países. E partiu disso."

O diretor executivo da Fundação Lemann, Denis Mizne, tem sido mais otimista, mesmo concordando que há grandes desafios. A entidade faz parte do chamado Movimento Pela Base Nacional, que reúne estudiosos e organizações ligadas à educação. "Ainda que o conteúdo seja bastante criticado, vamos brigar para ter uma versão melhor, que seja o mais próximo possível do ótimo. Temos um longo trabalho para chegar ao ótimo, não estamos perto", diz. "Quando estudamos as bases ao redor do mundo, vimos que as que viraram verdade na sala de aula foram as discutidas de fato pelos professores."

O secretário executivo do MEC, Luiz Cláudio Costa, também ressalta que o documento publicado é inicial e a pasta não quer "corroborar" uma visão. "Mas não se pode desqualificar o processo, que é importante para o País." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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