Segundo país em nº de casos de zika, Colômbia vive sob temor da microcefalia

Em Cúcuta (Colômbia)

  • Ricardo Mazalan/AP

    Daniela Rodriguez, 19, grávida de seis semanas senta entre outras duas mulheres grávidas enquanto elas esperam por resultados de exame de zika na Colômbia

    Daniela Rodriguez, 19, grávida de seis semanas senta entre outras duas mulheres grávidas enquanto elas esperam por resultados de exame de zika na Colômbia

A enfermeira Jasmim Otero já se acostumou com a nova rotina. Há dois meses, todas as vezes que uma mulher chega ao consultório da unidade de saúde trazendo um teste de gravidez com resultado positivo, a primeira pergunta é: teve coceiras, manchas pelo corpo, febre? "Peso, alimentação, doenças de família não são mais prioridade. Agora o mais importante é saber se tiveram sintomas de zika", diz.

A profissional trabalha em Comuneros, uma das áreas de maior risco para a doença em Cúcuta, capital do Departamento Norte de Santander, na fronteira com a Venezuela, e cidade campeã em número de casos de zika na Colômbia - segundo país em número de casos da doença, atrás apenas do Brasil. "Pelo menos metade da população teve a infecção", garante a enfermeira.

Nome e endereço são registrados. "Se elas faltam às consultas, um agente vai até a casa ver o que aconteceu", conta. Quando os sintomas são recentes, exames para identificar a presença do vírus são feitos. Se as queixas são mais antigas, sangue é coletado e enviado para um banco, onde são armazenados materiais de todas as gestantes com queixas. A esperança é de que esse material seja útil tão logo um novo exame, capaz de identificar uma infecção ocorrida há mais tempo, esteja disponível.

Oportunidade

"Estamos acompanhando essas mulheres em tempo real", afirma o diretor do Instituto Departamental de Saúde de Cúcuta, Juan Alberto Bitar. "Temos aqui uma oportunidade que o Brasil não teve."

O esforço é para tentar coletar o máximo de informações para comprovar se a transmissão do zika da mãe para o bebê pode provocar microcefalia - como acreditam autoridades brasileiras. Por enquanto, estão sendo acompanhadas cerca de 7 mil gestantes colombianas que apresentaram sintomas do vírus. Só em Cúcuta são 1.117 casos - dos quais 119 foram confirmados laboratorialmente.

"Dados do Brasil indicam que pode haver uma associação entre zika e a má-formação. Mas isso não é suficiente para estabelecer a causalidade. É necessário esperar outros estudos", afirmou ao Estado o vice-ministro de Saúde da Colômbia, Fernando Ruiz Gómez. "Vamos servir como um ponto de comparação com o Brasil. De lá, existem algumas deduções, hipóteses. Com esse acompanhamento na Colômbia, temos chances de encontrar respostas."

Três estudos estão sendo feitos no país, em colaboração com o Centro de Controle de Doenças americano. Um para identificar a incidência da doença na população em geral, outro para a relação entre microcefalia e zika e um terceiro, sobre casos da síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune, tradicionalmente resultado de uma infecção por vírus e bactéria. Resultados preliminares dos trabalhos são esperados para o primeiro semestre de 2017.

Embora o governo colombiano tenha recomendado que mulheres adiassem planos de gravidez, usassem telas de proteção e repelentes para evitar picadas de mosquito, autoridades são cuidadosas ao falar sobre a relação direta com microcefalia.

Gómez, por exemplo, afirma que, até o momento, dos 11 casos de má-formação suspeitos de estarem relacionados com zika, dez já foram descartados e um ainda está em investigação. Um aborto foi feito, mas o vice-ministro afirma que outras deformações foram encontradas, não microcefalia.

Anteontem, porém, a revista científica "Nature" relatou três casos de más-formações que, segundo cientistas colombianos, já estariam ligados ao vírus zika. O detalhamento foi enviado a uma revista científica britânica.

O que explicaria então o aumento de registros? "No caso do Brasil, outros fatores podem estar relacionados", disse o vice-ministro, que fala da possibilidade de subnotificação - seria um problema antigo agora relatado. Outro fator que poderia explicar o aumento de casos no Brasil, avalia, seriam causas ambientais, incluindo a interação com outras enfermidades, como chikungunya e dengue.

Divergência

Há, no entanto, quem pense diferente. Ricardo Montoya Gonzales, médico obstetra do Hospital Universitário Erasmo Meoz, de Cúcuta, avalia que o aumento de casos da má-formação entre bebês é uma questão de tempo. "Se o padrão do Brasil se repetir, o aumento começará a ser registrado depois de abril. É esse o tempo para que bebês infectados no primeiro trimestre de gestação comecem a nascer." As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

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