Todas as empreiteiras pagavam propinas, diz ex-diretor da Andrade Gutierrez

Em São Paulo

  • Paulo Lisboa/Brazil Photo Press/Estadão Conteúdo

    Antônio Pedro Campello, da empresa Andrade Gutierrez, preso na 14ª fase da Operação Lava Jato

    Antônio Pedro Campello, da empresa Andrade Gutierrez, preso na 14ª fase da Operação Lava Jato

O ex-diretor de Desenvolvimento e Construções Industriais da Andrade Gutierrez Antônio Pedro Campello afirmou nesta segunda-feira (25) que todas as empreiteiras pagavam propinas no esquema de corrupção instalado na Petrobras entre 2004 e 2014. "Sim, todas pagavam", afirmou Campello, ao ser indagado pelo juiz federal Sérgio Moro, da Operação Lava Jato.

Campello é um dos ex-dirigentes da segunda maior empreiteira do país que fechou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República.

Os delatores não querem mostrar o rosto. Por isso a audiência com Antônio Campello exibe apenas sua voz.

O juiz perguntou a Campello se ele soube das propinas na estatal petrolífera. Ele respondeu que "teve conhecimento disso" porque em um contrato "houve uma primeira abordagem para satisfazer esse tipo de demanda por parte da Petrobras". "Um belo dia recebi uma demanda, um telefonema, 'olha, tem isso para resolver'. Eu trouxe a demanda para dentro de casa, foi analisada e se decidiu atender a demanda, na época, absolutamente incompatível com o que se poderia acomodar. Não se podia mais mexer no preço, o preço já estava baixando, não estava subindo."

"Quem foi o portador da demanda?", questionou Moro.

"Quem me deu o recado foi o Ricardo Pessoa [dono da UTC Engenharia, apontada como a líder do clube VIP das empreiteiras que formaram cartel na Petrobras]. Ele disse que tinha me indicado para ser procurado por uma determinada pessoa que trazia a demanda propriamente dita."

"E quem foi essa pessoa?", insistiu Moro. "Foi o sr. Mário Góes", respondeu o delator, em referência ao suposto operador de propinas que atuava no âmbito da Diretoria de Serviços da Petrobras. "E qual foi o objeto da demanda?", prosseguiu o juiz. "Era 1% do valor do contrato, esse era o padrão", declarou Campello, citando em seguida o ex-gerente de Engenharia da Diretoria de Serviços da Petrobras, unidade que, segundo a Lava Jato, era cota do PT no esquema. "Esse dinheiro, o primeiro beneficiário seria Pedro Barusco, mas a conotação era para 'o grupo de apoio'", afirmou Campello.

O juiz o indagou sobre quem seria o "grupo de apoio". Campello disse que Barusco - que também virou delator e devolveu espontaneamente US$ 100 milhões - era "representante de um setor que controlava a Petrobras".

Ele disse que em outros contratos a propina de 1% "se tornou um padrão, inclua na sua matemática porque é assim que tem que funcionar".

O juiz quis saber por que a empreiteira pagou propinas. "Tinha que se proteger. Não posso dizer objetivamente que [Andrade Gutierrez] tenha sido ameaçada, mas era evidente que isso aconteceu. Na prática, a empresa demorou muito para conseguir atender o volume de demanda que se acumulou. A empresa tinha muita dificuldade de operacionalizar esses valores e isso gerava nítida má vontade, ranhetice, dificuldade de receber recados", disse.

Outro lado

"O Partido dos Trabalhadores refuta as ilações apresentadas. Todas as doações que o PT recebeu foram realizadas estritamente dentro dos parâmetros legais e posteriormente declaradas à Justiça Eleitoral" disse, por meio de nota, a assessoria de imprensa do PT Nacional.

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