Buscas no Google sobre feminismo crescem 200% em dois anos no Brasil

Hyndara Freitas

Um estudo divulgado pelo Google BrandLab mostrou que os brasileiros têm, cada vez mais, se interessado por temas ligados a diversidade. Os dados mostram que, de 2012 a 2017, as buscas por temas do tipo duplicaram e o crescimento de visualizações de conteúdos sobre homofobia, LGBT, racismo e feminismo aumentou 260% só nos últimos seis meses.

Um dos temas que ganharam mais destaque ao longo de 2017 foi, sem dúvida, a transexualidade, que foi debatido em diversos programas televisivos, na novela A Força do Querer e também ganhou espaço na música. Por isso, a busca pelo termo transgênero cresceu 123% no último ano.

Já o interesse pelo feminismo tem crescido gradualmente há alguns anos e, nos últimos dois, o número de buscas aumentou 200%. Com isso, o número atingiu um patamar próximo ao de buscas por racismo, que é o termo relacionado a diversidade de maior interesse para os brasileiros. Inclusive, as buscas por feminismo negro também cresceram 65% nos últimos 12 meses.

"O estudo traz muito mais perguntas que respostas. O que eu vejo é que a gente está muito mais curioso, a gente vê uma mudança. A busca é um reflexo do que está acontecendo na sociedade, na arte, na música. A gente está tendo muito debate e isso é bom", diz Amanda Sadi, gerente de Insights do Google BrandLab São Paulo.

O Brasil, por ser muito grande, tem muitas diferenças sociais e culturais e isso é refletido no modo como cada brasileiro se comporta na internet. No Rio de Janeiro e no Espírito Santo, por exemplo, o tema relacionado à diversidade mais pesquisado é o feminismo. Já São Paulo concentra a maior quantidade de buscas por assuntos relacionados à comunidade LGBT.

A Bahia é o Estado brasileiro em que mais se busca por racismo - o número de pesquisas pelo termo no local foi 60% maior que em São Paulo em 2016. Já Rondônia lidera as buscas por diversidade étnica. O aumento do interesse nesses assuntos mudou o conteúdo que se produz na internet e, claro, o YouTube é uma das plataformas em que essa mudança mais se evidencia. Entre abril e setembro, foram publicados 338 mil vídeos sobre gordofobia e 124 mil sobre transfobia. Porém, a facilidade de qualquer pessoa produzir conteúdo sobre esses temas pode ser tanto benéfica quanto perigosa, porque as redes sociais, principalmente o YouTube, passaram a ser fontes de informação.

Os grandes consumidores dos vídeos do YouTube são pré-adolescentes e adolescentes que ainda estão formando sua personalidade. "Da adolescência até os 21 anos é a fase onde o jovem forma sua personalidade, quando o cérebro se forma completamente. A internet é importante, dá acesso a conhecimentos infinitos, mas há de se ter cuidados com os excessos. A forma como o jovem vai absorver esse conhecimento depende do ambiente em que se vive, da orientação dos pais, dos professores, que devem cuidar para que o conhecimento não seja limitado a uma só fonte. Porém, o que se vê é que hoje isso é altamente estimulado", opina o psiquiatra Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

O contato com informações de uma mesma fonte ou o contato com opiniões do mesmo grupo, inclusive, pode levar a problemas maiores, como a dificuldade de debates fora do mundo digital. "Isso estaria criando uma customização da realidade, é como se o indivíduo ficasse naturalmente mais blindado ao acesso de conhecimento que seriam distintos do que ele já posta, já lê, criando um bloqueio. Algumas pesquisas feitas no exterior já estariam relacionando o número de tempo gastos nas redes sociais ao transtorno de personalidade narcisista", diz o especialista. Por isso, o indicado é que, com cada vez mais informações disponíveis, haja curadoria do conteúdo lido, ouvido e assistido na internet.

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